Nova York, 24/09/2009 – Às vésperas do discurso desta semana do presidente iraniano, Moahmoud Ahmadinejad, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, duas organizações não-governamentais pediram à mídia internacional que aproveitasse a oportunidade para responsabilizá-lo pela violência desatada após as eleições em seu país Também pediram à ONU que designe um enviado especial para estudar a situação dos direitos humanos no Irã.
Em entrevista coletiva na segunda-feira, a organização Human Rights Wacht (HRW) e a Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã realizaram em Nova York uma conferência por telefone deste a Turquia com Ebrahim Sharifi, iraniano de 24 anos preso em 22 de junho por agentes de segurança usando roupas civis. Ficou preso por uma semana e denunciou que foi torturado e violentado. Sharifi abandonou o Irã depois que funcionários de segurança que investigavam suas denúncias o ameaçaram. Ele é uma das várias pessoas detidas após as eleições e que afirmam ter sofrido torturas e violência na prisão.
O governo iraniano e o comitê especial criado pelo novo chefe do Poder Judiciário, o aiatolá Sadeq Larijani, negaram as acusações de violações contra presos. Desde as disputadas eleições presidenciais de 2 de junho, mais de quatro mil pessoas foram detidas, incluindo pelo menos 250 destacadas figuras políticas, jornalistas, acadêmicos, líderes estudantis e ativistas pelos direitos humanos. Quase 400 pessoas permanecem presas.
“A atual crise no Irã exige uma atenção urgente por parte da comunidade internacional, e a visita de Ahmadinejad à ONU é a oportunidade para responsabilizá-lo pelos crimes que se governo comete para defender sua proclamada vitória nas urnas”, disse à IPS o diretor da Campanha pelos Direitos Humanos no Irã, Hadi Ghaemi. “Ele deve responder pelos assassinatos, pelas torturas e violações cometidas contra o povo iraniano”, afirmou.
A diretora-executiva da Divisão para o Oriente Médio e África do Norte da HRW, Sarah Leah Whitson, disse aos jornalistas: “Alguns de vocês poderão ter a oportunidade de sentar-se em uma entrevista coletiva (hoje) com o presidente Ahmadinejad, e se o fizerem espero que aproveitem a oportunidade para lhe perguntar diretamente se o governo iraniano e as forças de segurança usaram munições reais contra manifestantes pacíficos, entre os quais, segundo dados do governo, houve pelo menos 30 mortos”.
“Por que o governo atacou os escritórios (dos líderes reformistas) Mehdi Karroubi e Mir Hossein Mousavi, e confiscaram seu material de pesquisa que documentava violações, torturas e execuções extrajudiciais?”, acrescentou. Whitson. Também perguntou “quando o governo iraniano permitirá que uma organização internacional independente realize sua própria investigação sobre a situação dos direitos humanos nesse país?”.
Os ativistas disseram que o governo do Irã esconde os assassinatos de manifestantes obrigando as famílias a declararem que as mortes aconteceram por causas naturais. As organizações colheram declarações de familiares das vítimas dizendo que agentes do governo os pressionaram para não revelarem a verdade.
O pai de uma vítima morta a tiros pelas forças de segurança durante uma manifestação, e que prefer fica rno anonimato, disse à HRW que “quando insisti com as autoridades e me devolveram o corpo do meu filho, me proibiram de falar com jornalistas, dizendo que poria em risco minha família. Me ameaçaram dizendo que se continuasse com o assunto a vida de meu outro filho estaria em perigo. Também proibiram que fizesse um funeral”.
Em 22 de junho, agentes detiveram Ebrahim Sharifi durante uma semana. A vítima denunciou que recebeu golpes frequentemente, sofreu simulações de execução e ataques sexuais. Quando tentou apresentar uma queixa às autoridades judiciárias, os agentes ameaçaram ele e sua família, obrigando-o a se esconder. A narração completa de Sharifi está detalhada em um novo informe de 14 páginas preparado pela Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã, intitulado “Acelerado deslizamento para a ditadura”. “Sempre pensei que quando alguém vai preso existe um certo grau de maus-tratos, e até tortura, mas nunca neste nível”, disse Sharifi aos jornalistas.
Nenhuma organização internacional de direitos humanos tem permissão para trabalhar dentro do Irã. Vários grupos foram proscritos ou sofrem constantes ameaças e intimidações. Especialistas em direitos humanos pediram várias vezes para entrar no país, mas o governo não autoriza. IPS/Envolverde

