BIRMÂNIA: Monges continuam sob vigilância

Bancoc, 24/09/2009 – “Sou vigiado o tempo todo. Sou considerado um organizador.

Bertil Lintner y David Mathieson - Joel Chong/IPS

Bertil Lintner y David Mathieson - Joel Chong/IPS

Permitem que eu saia do monastério entre meio-dia e duas da tarde. Mas me seguem”, contou o monge budista birmanês U Manita. “Estou preparado para voltar a marchar quando surgir a oportunidade. Não queremos esta junta (militar que governa a Birmânia). E é isso o que pensam todos em meu monastério”, acrescentou.

“Tradicionalmente, supõe-se que os monges não devem participar da política. Os militares governam nosso país há mais de 40 anos, e não se importam com o bem-estar do povo. Apenas se preocupam com eles mesmos e seus familiares, e também em como permanecer no poder para sempre. Foi por essa razão que o povo se levantou contra eles”, afirmou U Pannacara, um monge de 27 anos. “Na Birmânia existem três grupos poderosos: os sit-tha (filhos da guerra), isto é, os militares; os kyaung-tha (filhos da escola), que são os estudantes, e, por fim, os paya-tha (filhos de Buda), que somos nós, os monges”, explicou.

Estes são apenas dois dos monges cujas vozes se fazem ouvir. O informe “A resistência dos monges: budismo e ativismo na Birmânia) foi apresentado ontem pela organização Human Rights Watch (HRW), com sede em Nova York, às vésperas do segundo aniversario do levante de 2007 na Birmânia. Há dois anos, as ruas da ex-capital Rangun e a central cidade de Mandalay foram inundadas por túnicas vermelhas, quando milhares de monges marcharam desafiadores contra a junta militar birmanesa. Por onde passavam as pessoas formavam um escudo humano para proteger dos ataques os venerados religiosos. Mas, após várias semanas de protestos, mais de mil monges estavam presos e detidos, segundo o informe da HRW. Há informação de que alguns dos detidos foram torturados depois que os militares lançaram uma ofensiva contra as manifestações, no dia 26 de setembro desse ano.

Atualmente, os monges da Birmânia continuam sendo alvo de suspeitas, restrições e infiltração por parte de forças armadas cautelosas em relação à sua influência e organização neste país essencialmente budista de 54 milhões de habitantes. Um total de 237 monges estão em 43 prisões e 50 acampamentos no país, condenados a décadas de prisão e trabalhos forçados, segundo a Associação de Assistência a Prisioneiros Políticos (AAPP), com sede na Tailândia. Muitos foram presos quando protestavam nas ruas ou durante violentas incursões noturnas contra monastérios em toda a Birmânia. “Quando os monges começaram a marchar pelas ruas foi um momento fundamental na historia birmanesa moderna”, disse David Mathieson, assessor birmanes da HRW, durante a apresentação do informe, no Clube de Correspondentes Estrangeiros da Tailândia, em Bancoc. “Os monges budistas da Birmânia não são apenas uma das instituições-chave do país. Em certo sentido constituem o barômetro dos ideais sociais. Saem às ruas, se convertem em atores políticos, quando as coisas vão muito mal e não podem ficar em silêncio”, acrescentou.

Em um país onde os monges são reverenciados e exercem enorme influência, a historia da comunidade birmanesa Sangha está marcada por movimentos revolucionários e radicais que catalisaram acontecimentos de importância nacional, como a luta da Birmânia para ficar independente dos britânicos e os protestos contra os militares entre as décadas de 70 e 90. “Provavelmente, eles sejam a instituição mais poderosa do país, depois dos militares”, disse Mathieson.

O que desatou os protestos de 2007 foi, principalmente, uma decisão do Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento (SPDC), nome oficial da junta, de eliminar os subsídios aos combustíveis, o que fez disparar os preços do diesel e da gasolina, as passagens de ônibus e outros itens. Isto somou-se à situação já dura do ano anterior, quando os preços dos produtos básicos aumentaram 40%.

Nos 45 mi monastérios registrados na Birmânia há cerca de 400 mil monges, segundo a HRW. Mas Bertil Lintner, autor do informe, disse que não se sabe “exatamente quantos foram para casa” depois dos protestos de setembro de 2007. “Muitos fugiram, sem túnica, para esconderem o fato de que eram monges enquanto escapavam”, acrescento. Com roupas civis, muitos fugiram para leste, em direção à fronteira tailandesa, ou para oeste, com destino à Índia.

Ao compilar o estudo da HRW Lintner, que informa desde a Birmânia há três décadas, entrevistou perto da fronteira com a Tailândia monges que conseguiram evitar a prisão. Um dos religiosos que entrevistou escapou entrando em um ônibus. “No posto de controle antes da fronteira abaixou-se e fingiu ser um ajudante, recebendo bilhetes e trocando engrenagens”, contou Lintner. “O motorista do veiculo estava consciente do que ocorria, mas fez o jogo. Motoristas e ajudantes não são revistados, e finalmente conseguiu cruzar a fronteira e viver ali”, acrescentou.

Nos últimos dias a junta intensificou seus controles. Meios de comunicação de exilados birmaneses informaram que no dia 22 de agosto a Liga Sangha divulgou um comunicado informando que estava trabalhando com outros 14 grupos políticos para preparar um boicote contra os militares, semelhante ao levante de 2007. Também foi difundida a ideia dede que a junta coloca monges em monastérios para conseguir informação sobre sentimentos e planos de seus pares. “Eles querem mostrar que ‘olhem, estamos aqui e os controlamos’. Isso é intimidação. Nos monastérios há muitos informantes infiltrados”, disse Lintner.

Desde os protestos de 2007, as tentativas para enquadra os monges também se intensificaram. As medidas “basicamente alertam os monges para não se envolverem em nenhum tipo de atividade política”, disse Mathieson. Apenas três dos 7.114 prisioneiros aos quais na semana passada a junta anunciou que concederia anistia são monges, segundo Bo Kyi, da AAPP. De fato, apenas 122 dos que acabaram libertados eram prisioneiros políticos, os outros são criminosos com antecedentes, segundo organizações de exilados birmaneses.

Para os monges libertados não será fácil voltar à normalidade. “Alguns acham muito difícil regressar ao seu monastério, já que alguns desses locais evitam aceitar quem esteve na prisão. Eles precisam averiguar por si mesmos onde podem ficar”, disse Bo Kyi à IPS. O anúncio de anistia mais recente é visto como uma medida coordenada com a viagem a Nova York do primeiro-ministro, general Thein Sein, para participar da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, onde fará um discurso na próxima segunda-feira.

Não está claro até onde chegará o ativismo dos monges contra o regime militar, mas os analistas dizem que a dissensão certamente continua fermentando enquanto o país se prepara para as eleições de 2010. “Os monges nunca podem ser os líderes de um movimento político-social, mas, podem ser o catalisador. O que falta é uma oposição política organizada. Eles mostraram isso muito claramente em setembro, quando se apresentaram na casa de Aung San Suu Kyi (líder pró-democratica) e lhe disseram estamos aqui, mas você é a líder”, afirmou Lintner. “Não importa o que os militares façam aos monges. Eles continuam sendo monges em seus corações. IPS/Envolverde

Joel Chong

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