Ramala, 10/09/2009 – O comércio entre a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e Israel aumenta, apesar da negativa do Estado judeu em interromper a construção de assentamentos ilegais em Jerusalém oriental e na Cisjordânia. Este intercâmbio comercial cresceu 17% em 2008, chegando a US$ 3,9 bilhões, segundo a Autoridade Impositiva Israelense, contra US$ 3,3 bilhões em 2007 e US$ 3 bilhões em 2006. As importações e exportações palestinas através de portos israelenses aumentaram 5%, chegando no ano passado a US$ 1,2 bilhão, cifra superior a de anos anteriores.
“O comércio é algo que facilita a confiança e as relações políticas”, disse à IPS Ofir Gendelman, diretor da Câmara Israelense-Palestina de Comércio e Indústria. “Esperamos que os números comerciais aumentem no próximo ano para cerca de US$ 5,3 bilhões. O céu será o limite, se houver paz”, acrescentou. “Mesmo com o bloqueio (à palestina faixa) de Gaza por Israel, no ano passado fizemos negócios no valor de US$ 530 milhões com o território costeiro, e nossa Câmara existe há apenas seis meses”, ressaltou Gendelman.
A reunião do ministro da Economia palestino, Bassen Khoury com o vice-primeiro-ministro israelense, Silvan Shalom, no último dia 2 em Jerusalém, no contexto do Comitê Econômico Conjunto Israelense-Palestino, parecia ser apenas mais uma. Entre os assuntos abordados estava a concessão de vistos israelenses a empresários e investidores palestinos, importação de maiores quantidades de carne e produtos lácteos para as comemorações do mês sagrado muçulmano do Ramada, e comercialização de lácteos da Cisjordânia em Jerusalém oriental. Mas, após o encontro, as duas partes decidiram que as reuniões serão mensais. Foram criados subcomitês de turismo, indústria, agricultura e saúde.
“Creio que os palestinos compreenderam que não tinha sentido esperar, que somente esperar prejudica a eles próprios”, disse Shalom, referindo-se ao congelamento das negociações. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, expressou reiteradamente sua negativa em manter negociações de paz com Israel se não for suspenso o assentamento de colonos judeus. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que no máximo consideraria um “congelamento temporário” dessa política de expansão na Cisjordânia e que a construção em Jerusalém oriental continuará.
Khoury afirmou que a reunião de negócios não significa que a ANP retira sua negativa em negociar. “Não discutimos nada político, porque isso exige um congelamento dos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém oriental e o reconhecimento israelense da solução de dois Estados”, afirmou. Segundo um informe do Centro Peres para a Paz, com sede em Telavive, 90% das exportações palestinas vão para Israel e representam 65% do produto interno bruto palestino. Os territórios da Palestina também são um importante mercado para os produtos israelenses.
“As duas economias sempre estiveram fortemente conectadas”, disse à IPS Salah Awdi, diretor-geral da Câmara de Comércio Ramala-El Bireh. Ramala, a capital de fato da Cisjordânia, é o centro de negócios dos territórios palestinos. “Mas, enfrentamos fortes impostos israelenses sobre as importações, tanto desde Israel como desde outros países”, ressaltou. No contexto do Protocolo de Paris, assinado por israelenses e palestinos em 1994 como parte dos acordos de Oslo, Israel controla uma união aduaneira que inclui Gaza e Cisjordânia.
Além disso, também arrecada as tarifas das importações que entram nesses dois territórios e mais um imposto sobre valor agregado (IVA) aos bens e serviços de Israel destinados à Palestina, que deve depois entregar à ANP. Mas, frequentemente, os israelenses retêm os fundos destes impostos como ferramenta política, como ocorreu quando o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) venceu as eleições legislativas de 2006. “O Protocolo perpetua a dependência econômica palestina da economia israelense, e preserva o controle de Israel sobre a economia da Palestina”, disse a organização de direitos humanos israelense B’tselem.
O controle que Israel exerce sobre os territórios palestinos lhe permite frear unilateralmente o movimento de importações e exportações palestinas. O Protocolo confere ao Estado judeu o poder único de arrecadar impostos às importações da ANP, o que lhe permite frear ou suspender a transferência de pagamentos como meio de pressão ou castigo. O Protocolo também habilita Israel a gravar unilateralmente os produtos importados pelos palestinos, dando preferência aos seus próprios interesses econômicos.
Agora Israel limitou drasticamente a quantidade de operários palestinos que podem entrar em seu território para conseguir trabalho, apesar do desemprego e da pobreza existente na Cisjordânia. Dezenas de milhares de palestinos perderam seu sustento quando Israel limitou o número de autorizações de entrada alegando motivos de segurança, após uma onda de atentados suicidas cometidos há vários anos. Segundo o Banco Mundial, em 2000 a economia palestina era uma das que mais dependia do envio de dinheiro desde o exterior pro imigrantes, que constituía 21% da renda bruta nacional. “Também enfrentamos prolongados atrasos e revisões de segurança nas passagens de fronteira e nos portos, o que aumenta nossos custos com transporte”, disse Awdi.
Segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas, Israel estabeleceu mais de 600 pontos de bloqueios em estradas, postos de controle e barreiras em toda a Cisjordânia. “Isto implica que os produtos palestinos sofram perdas ou prejuízos durante o transporte”, explicou Awdi. IPS/Envolverde

