INDIA: Agricultura melhora autoestima de mulheres com HIV

Thirunelveli, Índia, 10/09/2009 – Até há quatro meses, Mugil pouquíssimo saía da casa de seus país em uma aldeia deste distrito do sul da Índia. Preferia dedicar-se às tarefas domesticas. Mas, tudo mudou graças a um inovador projeto agrícola. “Não tinha nem ideia de como atravessar a rua e ficava aterrorizada só de ver um ônibus”, confessou Mugil, de 33 anos, sem filhos. Agora não só atravessa a rua como entra no ônibus, desce 12 quilômetros depois e caminha outros quilômetros até o campo onde trabalha plantando amendoim e tomate.

Junto com outras 19 mulheres, todas portadoras do vírus da deficiência imunológica humana (HIV) causador da síndrome da deficiência imunológica adquirida (Aids), Mugil trabalha duro com a esperança de conseguir boa colheita, com sorte em outubro, e obter seus primeiros dividendos. Uma organizações multinacional lhes cedeu o direito de usufruto sobre vários hectares, vizinhos à aldeia de Radhapuram, no distrito de Thirunelveli, no Estado indiano de Tamil Nadu. A Unidade de Responsabilidade Social Corporativa da Fundação Suzlon, com sede no Estado de Maharashtra, e a Rede Nacional de Mulheres Positivas (PWN+), com sede na capital de Tamil Nadu, levam adiante o inovador projeto “Cultivemos Radhapuram”, iniciativa única no país.

A PWN+ identificou várias mulheres nos arredores de Radhapuram a fim de contribuir no fortalecimento de sua organização e desenvolver capacidades para funcionar de forma democrática, realizar atividades coletivas rentáveis para poderem ganhar a vida e melhorar sua autoestima para poderem lidar com diferentes desafios. O esforço levou à criação da Rede de Mulheres Positivas de Thirunelveli (TPWN+), presidida por Mugil. A Fundação Suzlon cedeu a elas 18,5 hectares e outros insumos como 152 coqueiros, uma casa com eletricidade e bomba de água por três anos. O acordo foi assinado em 26 de abril deste ano e em seguida as mulheres já trabalhavam a terra.

“No mês passado cultivamos 1.700 coqueiros. Cada uma ficou com 10 arvores e vendemos o resto a cerca de US$ 0,06 cada um. Com o dinheiro que ganhamos abrimos uma conta bancaria”, explicou Mugil. O grupo demonstra grande coragem e resiliência, apesar serem rejeitadas pela sociedade por serem portadoras do HIV. “A maioria de nós nunca havíamos cultivado”, contou Gayartri, de 28 anos. “Costumávamos trabalhar com nossas famílias enrolando cigarro, como as crianças. Quando vimos a vasta extensão de terra nos assustamos, mas na medida em que começamos a trabalhar e recebemos capacitação, ganhamos força e demos tudo de nós. De fato, sentimos que nada nos é impossível”.

“Dissemos a elas para abusarem do adubo orgânico, nada de pesticidas, por causa do HIV”, explicou Ravikularaman Ramasamy, gerente da Unidade de Responsabilidade Social Corporativa, da Fundação Suzlon. “Também recomendamos que primeiro consumam o que produzirem para depois vender o que sobrar. É importante que estejam bem alimentadas para fortalecer seu sistema imunológico”. Cada uma das participantes chegou com um capital inicial de US$ 41 e a Fundação entrou com US$ 2.058 para este ano, entregues em cotas de US$ 514.

Os termos, as condições e os planos para os próximos dois a três anos serão revistos após um ano do início do projeto, explicou Ramasamy. “Nosso objetivo é identificar e facilitar a participação de setores menos favorecidos da sociedade, incluídas mulheres portadoras de HIV, e exceder os objetivos da Fundação para elaborar com o governo e organizações não-governamentais para melhorar a assistência”, acrescentou. “Desaconselhamos a monocultura porque é preferível diversificar as espécies para que tenham diferentes ciclos. É melhor para a terra”, disse o coordenador do projeto, S. Lekshmaan.

A iniciativa apenas começa, disse, e levará um tempo até que as mulheres possam obter lucro. Mas já ganharam em autoestima e confiança. “Pela primeira vez na vida temos a oportunidade de nos misturarmos com outras pessoas”, alegrou-se prema, de 39 anos. “Antes, tínhamos um grande complexo de inferioridade. Agora nos incentiva apenas ver o cepticismo dos homens sobre nossa capacidade para cultivar a terra”, acrescentou. A organização Sathi All for Partnerships (SAFP), com sede em Nova Déli, agiu como facilitadora entre PWN+ e a Fundação Suzlon.

“Nos aproximamos da Fundação Suzlon, de várias organizações estatais e da Unifem (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher) para melhorar os recursos disponíveis para as mulheres em três Estados: Déli, Tamil Nadu e Kerala”, disse a diretora da SAFP, Shivani Bhardwaj. “O projeto-piloto de Radhapuram é o primeiro acordo público-privado no sentido de fortalecer os recursos femininos na região”, afirmou.

“Suzlon estava disposta a melhorar o sustento das comunidades pobres. Para isso identificou as mais necessitadas mas capazes de assumir o desafio e decidimos trabalhar com PWN+”, contou Seemantinee Khot, da Unidade de Responsabilidade Social Corporativa da fundação. “Trabalhar ao ar livre é maravilhoso. Sinto-me saudável trabalhando a terra”, contou Gayatri,. “A próxima colheita nos deixa otimistas. Temos esperanças de uma boa colheita de amendoim”, disse. IPS/Envolverde

Nitin Jugran

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