ECONOMÍA: Banco Mundial preocupado com os pobres

Washington, 18/09/2009 – A próxima cúpula do Grupo dos 20 não deve esquecer as necessidades dos países mais pobres, que foram severamente afetados pela crise financeira global originada nos Estados Unidos, segundo o Banco Mundial e Organizações não-governamentais. Em um informe apresentado em Washington, o Banco diz que a recessão mundial pode ter aumentado em 89 milhões a quantidade de pessoas que vivem na pobreza extrema, ou com menos de US$ 1,25 por dia, ate o final de 2010.

“Enquanto o mundo exibe sinais de recuperação, pelo menos no mundo rico, as nações mais desfavorecidas simplesmente não têm espaço fiscal para implementar políticas” contra a crise, disse Sam Worthington, presidente da InterAction, uma aliança de organizações não-governamentais internacionais com sede nos Estados Unidos. Alaém disso, a crise pôs em risco quase US$ 12 bilhões destinados a atender as necessidades de infraestrutura básica e de outra índole da população mundial mais pobre, diz o estudo elaborado pelo Banco Mundial para os governantes do G-20, que se reunirão nos próximos dias 24 e 25 deste mês na cidadenorte-americana de Pittsburgh.

O G-20 reúne Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia, os países mais industrializados que por sua vez formam o Grupo dos Oito, junto com Estados emergentes e do Sul em Desenvolvimento, como Brasil, Austrália, China, Dinamarca, Índia, Indonésia, México, África do Sul e Coréia do Sul. É um fórum para discutir a arquitetura do sistema financeiro internacional. “Os pobres e os mais vulneráveis são os que correm mais risco pelos reveses econômicos. As famílias caem na pobreza, a situação sanitária se deteriora, diminuir a frequência nas escolas e o avanço em outras áreas-chave paralisa ou retrocede”, disse o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. “Pode ser que os países mais pobres não estejam bem representados no G-20, mas não podemos ignorar os custos de longo prazo da crise mundial sobre a saúde e a educação de seus povos”, acrescentou.

Várias organizações da sociedade civil acrescentaram suas vozes à de Zoellick e destacaram que o G-20 deve cumprir a promessa que os governantes assumiram na Cúpula de Londres em abril, quando decidiram proporcionar US$ 50 bilhões aos países de baixa renda para ajudá-los a lidar com a recessão. Insistem que a ajuda futura do G-20 aos países em desenvolvimento deve ser agregada ao financiamento existente. “É fundamental que se agregue e não que seja deduzido dos orçamentos de ajuda vigentes”, disse o presidente da Oxfam America, Ray Offenheiser, em uma teleconferência na quarta-feira.

Na próxima semana, os líderes do G-20 vão analisar a reforma dos mercados e do sistema financeiro mundial, as gestões para concluir a demorada rodada de negociações comerciais de Doha para o ano que vem, o protecionismo de algumas das grandes economias e as medidas para reverter o aquecimento global com vistas àConferência sobre Mudança Climática marcada para dezembro em Copenhague. É provável que a cúpula, cujo anfitrião será o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também aborde assuntos de política externa, como as gestões para resolver o conflito árabe-israelense, a crescente intensidade da guerra no Afeganistão e os programas nucleares do Irã e da Coréia do Norte.

Com uma ordem do dia tão apertada, o Banco Mundial e as ONGs temem que as necessidades dos 43 países mais pobres do mundo, a maioria da África subsaariana, não recebam a atenção que merecem. A África do Sul é o único membro dessa região que integra o G-20. O informe do Banco apresentado quarta-feira diz que a crise financeira, que começou pelo colapso da firma de investimento norte-americana Lehman Brohters há exatamente um ano (esta semana), foi o ultimo de três reveses externos que afetaram os países pobres e sobre os quais estes não tiveram controle. No final de 2008, a alta dos preços dos alimentos levou à pobreza absoluta entre 130 milhões e 155 milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento, segundo o Banco Mundial.

“Um dos motivos pelo qual a segurança alimentar é tão importante é que os preços que subiram em 2007 e 2008 não voltaram a baixar. A população dos países em desenvolvimento paga 30% a mais pelos alimentos” agora, disse Ritu Sharma, presidente da Women Thrive Worldwide, que trabalha para melhorar a situação das mulheres pobres. “Para muitos nos países em desenvolvimento isso significa que comem menos do que antes”, acrescentou.

A crise financeira, que provocou crescimento negativo nas nações mais ricas, reduziu a demanda por minerais e outras matérias-primas e das indústrias têxteis, muito importantes para as economias dos países mais pobres. Em Zâmbia, por exemplo, a queda do preço do cobre causou desemprego de 25% dos mineiros do país. A recessão nas nações ricas também reduziu o volume das remessas de dinheiro enviadas por imigrantes para suas famílias nos países de origem e afetou fortemente o turismo.

Em abril, quando foi realizada a cúpula de Londres, ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiram que as nações pobres sofriam uma “emergência de desenvolvimento” que tornaria impossível o cumprimento de alguns dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), como ao de reduzir a pobreza extrema ate 2015, sobretudo na áfrica e Ásia meridional.

Para enfrentar a crise, o G-20 concordou em conceder US$ 750 bilhões ao FMI. Mas, grande parte desse dinheiro se destinou a países de renda média. Ao mesmo tempo, deu seu apoio ao aumento do credito dos principais bancos multilaterais de desenvolvimento, entre eles o Banco Mundial, em US$ 100 bilhões anuais ao longo de três anos. Também apoiou os planos do Banco Mundial de elevarconsideravelmente os empréstimos para projetos de infraestrutura para médias e pequenas empresas e para manter as redes de seguridade social.

Apesar destas medidas, o informe do Banco Mundial diz que os países pobres continuam com forte déficit de financiamento nessas áreas, da ordem de US$ 11,6 bilhões. “A menos que cubram esse buraco, serão prejudicadas as conquistas obtidas ate agora na redução da pobreza e em assentar as bases para o desenvolvimento de longo prazo”, concluiu o informe. “Será necessário muito mais para obter avanços adicionais em ADM”, que incluem objetivos como ensino primário universal e redução da mortalidade infantil e materna ate 2015.

Em particular, o Banco Mundial exorta o G-20 a apoiar e reforçar os US$ 20 bilhões que prometeu a cúpula do G-8 em L’Aquila (Itália) para fomentar o desenvolvimento agrícola nos países mais pobres e melhorar os esforços para ampliar os fundos para pequenas e médias empresas a fim de aumentar o emprego. IPS/Envolverde.

Eli Clifton

Eli Clifton is a national security reporter for ThinkProgress.org. Eli holds a bachelor's degree from Bates College and a master's degree in international political economy from the London School of Economics. He previously reported on U.S. foreign policy for IPS, where he served as deputy Washington, D.C. bureau chief. His work has appeared on PBS/Frontline's Tehran Bureau, the South China Morning Post, Right Web, Asia Times, LobeLog.com, and ForeignPolicy.com. Website: http://thinkprogress.org/author/eclifton Blog: http://thinkprogress.org/security/issue/

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