Pittsburgh, EUA, 22/09/2009 – Milhares de manifestantes de todo o país se reunirão em Pittsburgh para protestar contra a cúpula do Grupo dos 20 esta semana, que contará com quatro mil policiais para proteger os participantes.
“Os pacotes de ajuda financeira que os governos do G-20 concederam às empresas durante a crise beneficiam as maiores corporações. Os que acabam pagando são os cidadãos comuns”, afirmou Melissa Minnich, diretora de comunicações do Thomas Merton Centre desta cidade, onde uma aliança de organizações pela paz e a justiça organizam uma marcha contra a cúpula para o meio-dia de sexta-feira.
A aliança, que inclui ativistas sindicais, pacifistas, ecologistas, socialistas, critica os líderes do G-20 e o capitalismo mundial, especialmente pelas consequências das políticas que beneficiam as multinacionais acima da população trabalhadora e de baixa renda. Nos últimos 25 anos, por exemplo, esta cidade norte-americana sofreu a decadência da indústria do aço, recessão e queda da população. “Pittsburgh em especial sofreu as políticas defendidas pelo G-20, muito afetada pela perda de empregos e pela desindustrialização da globalização. As pessoas consideram responsáveis por isso governantes e empresas internacionais para as quais trabalham”, disse Carl Davidson, escritor sindical que pertence ao grupo local Beaver County Peace Links.
A cúpula é organizada pela Associação do G-20 de Pittsburgh, derivada da Conferência sobre Desenvolvimento Comunitário do Condado de Allegheny, espécie de “subsidiária” da Câmara de Comércio de Pittsburgh e outros grupos empresariais da região, segundo seu vice-presidente, Bill Flanagan. “O grupo inclui muitos dos maiores interesses empresariais ativos na área. Está integrado por empresas manufatureiras, financeiras, de saúde, informática e energia”, explicou o coordenador de relações públicas da associação, Philip Cynar.
Flanagan acrescentou que a cúpula do G-20 é uma ótima oportunidade para integrar-se mais ao mercado internacional. “Aprendemos que os capitais precisam fluir livremente. Por isso queremos que Pittsburgh se destaque no mapa e atraia os investidores internacionais”, disse à IPS. Grandes interesses comerciais participaram da coordenação da cúpula. “Nos comunicamos diariamente com a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Serviço Secreto, preparando as operações de comunicação e planejamento das recepções nos 145 hoteis onde se hospedarão delegados e jornalistas”, disse Flanagan.
Outras dezenas de organizações participarão de forma paralela à cúpula, como o grupo G-6 Billion, com uma marcha ecumênica, uma marcha pelo emprego no empobrecido distrito Hill, e uma cúpula popular a favor da justiça econômica e ambiental. David Hoskins, integrante do Bail Out the People, explicou à IPS que “vamos ter uma marcha pelo emprego, exigindo um programa federal de empregos como o do New Deal, no distrito Hill”.
Pittsburgh fica no Estado da Pennsylvania, único dos Estados Unidos sem orçamento próprio. Sem dinheiro para pagar a totalidade das aposentadorias, a cidade vendeu vagas de estacionamento para arrecadar fundos. Com bairros fantasmas na periferia e numerosas comunidades sofrendo os efeitos da degradação ambiental, os ativistas afirmam que o desenvolvimento foi um processo pouco democrático concentrado no centro da cidade.
O sul de Pittsburgh possui ricas jazidas de carvão, onde são aplicadas técnicas de extração nocivas que secaram um lago próximo da cidade e geraram enormes acúmulos do mineral, com vazamento de mercúrio para o rio Monogahela. A cidade tem dezenas de grandes geradores elétricos que funcionam a carvão, e uma usina nuclear, no rio Ohio, que fornece eletricidade a grande parte da costa leste do país.
“É absurdo a câmara de comércio local e empresas como o banco PNC dizerem que são ecologistas apenas por construírem edifícios ecológicos”, protestou David Meieran, integrante do grupo ambientalista Three Rivers Climate Convergence. “Essas empresas mantêm consideráveis investimentos em companhias de carvão que praticam técnicas extrativas nocivas, lucrando com a morte e a devastação ambiental”, afirmou. Em 2008, a Associação de Pneumologia Norte-americana alertou que Pittsburgh ocupa o primeiro lugar entre as cidades dos EUA com contaminação por partículas, em um “coquetel mortal de cinzas, pó, resíduos de diesel, produtos químicos, metais e aerossóis”.
Para proteger a cúpula, o governo reuniu quatro mil policiais, inclusive muitos do interior do Estado. Também estarão presentes dois mil homens da Guarda Nacional e um número não divulgado de agentes do serviço secreto com vigilância de alta tecnologia. Diane Richard, funcionária de comunicações da policia local, explicou que haverá policiais a cavalo de outros órgãos do Estado. Um morador do centro da cidade disse à IPS que grande parte da população “é tão velha e conservadora como a de Miami e não quer ver pichação nem bandeiras queimadas”. Acredita que a polícia usará táticas rigorosas contra os manifestantes.
O reverendo Thomas E. Smith, da Igreja Monumental, ofereceu o prédio do templo e os lugares no estacionamento aos manifestantes. “Teremos uma cidade-tenda de campanha simbolizando a necessidade de um salário digno, e um movimento nacional e internacional de trabalhadores semelhante à campanha de pessoas pobres que Martin Luther King organizava antes de ser assassinado em1968”, explicou o reverendo. IPS/Envolverde


