PALESTINA: Mendigando a vida na cinzenta Gaza

Gaza, 22/09/2009 – Em Gaza há poucos espaços verdes, e os existentes estão abarrotados de gente faminta de ar livre. Dia e noite, pessoas de todas as idades se juntam em Joondi, ou na Praça do Soldado Desconhecido, no centro da cidade. Ali se instalam vendedores de noz assada, falafel, refrescos, chá e café. Mais a leste, o principal jardim de Gaza, cuja entrada custa um shekel (US$ 0,25), abriga cuidados arbustos, árvores e plantas decorativas. Embora não se compare com árvores de outras partes, é um pouco de verde em uma faixa de terra completamente cinza.

Na rua Omar Mukthar, a principal de Gaza, que vai de leste a oeste, funciona a área comercial de Rima, que atrai consumidores de roupa, perfume, eletrônicos e lembranças. O inventário inclui uma triste coleção de telas baratas e caros produtos eletrônicos. Os habitantes não têm outra opção, a menos que se dirijam ao mercado negro dos túneis de Rafah. De fato, a maior parte das mercadorias chega através desses mesmos túneis e acabam sendo muito caras.

Os que têm dinheiro para gastar vão às poucas cafeterias em Rimal ou no distrito do hospital de Shifa. Mas, as opções são as mesmas: café árabe, capuccino, jogos, lanches. E o entretenimento limita-se a usar o serviço de Internet sem fio, ouvir a música árabe dos alto-falantes do café e conservar com amigos, talvez se fume um cachimbo de água, o narguilé. Alguns escolhem estes cafés para comemorar o aniversário com um bolo que custa, em média, 70 shekels (US$ 19,00). Mas, tudo isso é para uns poucos privilegiados.

A maioria dos 1,5 milhão de habitantes de Gaza não pode se dar o luxo de frivolidades como estas, mas, tampouco têm dinheiro para pão, leite, roupa e livros escolares. A maior parte dos palestinos de Gaza não tem como fugir das limitações do sítio imposto por Israel com a cumplicidade do governo egípcio e da comunidade internacional. A medida se intensificou desde junho de 2007, quando o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) tomou ao poder em Gaza. Porém, na realidade, o sítio data de pouco depois de o Hamas vencer as eleições, em janeiro de 2006. Desde então, os palestinos vivem sob restrições cada mais asfixiantes sobre o que pode entrar e sair de Gaza.

Na área comercial de Rimal, abundam os mendigos. Entre eles há viúvas que tentam alimentar os filhos, e as próprias crianças pedindo esmola para ajudar a família. Uma presença cada vez maior de meninos e meninas vendendo qualquer coisa por um shekel domina boa parte das ruas de Gaza. As crianças, inclusive com 7 ou 8 anos, passam seus dias nos semáforos tentando convencer pedestres e motoristas a comprarem seus produtos.

Os jovens têm poucas opções de lazer. Nada de cinemas, shows musicais, clubes noturnos, nenhum dos passatempos da juventude do resto do mundo. Isto se deve, em parte, à cultura conservadora que reina em Gaza, mas, principalmente ao sítio e aos muitos ataques militares israelenses contra a zona. Um teatro com cenário de madeira no complexo hospitalar Al-Quds foi destruído por fogo de Israel na guerra contra Gaza entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro último.

Em todo caso, o principal obstáculo é financeiro: com 90% da população em extrema pobreza, segundo informe apresentado este mês pela Conferência das nn sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), a maioria dos palestinos de Gaza depende da ajuda alimentar e sobrevive com uma alimentação rica em carboidratos, sem dinheiro para luxos como uniforme escolar e livros.

Os adolescentes Ibrahim, Mahmoud e Mahdi, de Beit Hanoun, cursam o último ano do ensino secundário. Ainda não chegaram ao estado de frustração que sentem muitos universitários recém-formados diante da falta de trabalho. Para eles, a preocupação de um emprego em tempo integral ainda está a alguns anos de distância. Eles passam o tempo livre de maneira simples. “Jogamos futebol quatro ou cinco vezes por semana”, disse Mahdi. “Vou nadar quase todos os das, mas sempre tenho medo das lanchas israelenses equipadas com canhões. Já bombardearam a praia”, afirma Mahmoud. Ibrahim aponta para uma motocicleta estacionada próxima. “Se tivéssemos dinheiro, compraríamos uma dessas e viajaríamos pela estrada costeira”, diz.

Outra opção de lazer é aproximar-se domar para desfrutar da brisa noturna enquanto fuma um narguile. Muitos escolhem nadar, apesar do perigo representado pelas lanchas israelenses e pela grave contaminação do mar Mediterrâneo que banha Gaza, onde são jogados 80 milhões de litros de esgoto por dia. “Instalamos uma espécie de trampolim na beira do molhe. Todos os dias vamos nadar lá”, diz um guarda-costas. O porto de Gaza é uma das áreas mais contaminadas.

A economia local foi dizimada: 95% de suas indústrias fecharam. Os pescadores enfrentam a constante ameaça das lanchas de Israel, mas têm de levar comida para casa. Os comerciantes não podem importar produtos através de Israel, com fizeram durante anos, e então apelam para o contrabando através dos túneis. Hamsa al-Bateram, de 22 anos, é a imagem viva da indigência de Gaza. Mora em um quarto com teto de asbesto, junto com a mulher Iman e o filho de três meses.

Antes do beber nascer, ele percorria as ruas catando plásticos recicláveis, carregando o que encontrava em um carro puxado por cavalo. Às vezes, o alugava para outras pessoas. “Meu filho ficou doente e tive de vender o animal e o carro para pagar o hospital. Agora, não tenho como ganhar a vida”, disse. Tudo o que faz é pensar como ganhar dinheiro. A recreação é um conceito alheio para ele. “Inclusive pensei em trabalhar nos túneis. Farei qualquer coisa. Preciso ganhar dinheiro para alimentar minha mulher e o bebê”, disse. IPS/Envolverde

Eva Bartlett

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