Caracas, 23/09/2009 – Governantes e outras autoridades de 54 países da África e 12 da América do Sul se reunirão na segunda cúpula birregional de sábado e domingo próximos na ilha venezuelana de Margarita, para impulsionar a busca de cooperação em cerca de 20 áreas com potencialidades para o intercâmbio. A África “se relacional regionalmente e buscou a cooperação de conjunto sobretudo com a União Européia, mas, nos últimos anos abriu-se para China, Índia, Rússia, Irã e, naturalmente, América do Sul, onde encontra as portas abertas pelos novos governos progressistas”, disse à IPS o vice-chanceler da Venezuela para a África, Reinaldo Bolívar.
Até agora, “realizamos cúpulas Norte-Norte ou Norte-Sul, mas junto com as cúpulas América do Sul-Países Árabes de 205 e 2009, as da África-América do Sul são as únicas cúpulas Sul-Sul que acontecem no mundo”, destacou Bolívar. A primeira cúpula entre africanos e sul-americanos aconteceu em Abuja entre 26 e 30 de novembro de 2006 e adotou uma declaração de coincidências gerais sobre 45 pontos.
Os temas desse documento seriam usados para reformar a Organização das Nações Unidas com relação a compromissos de educar homens e jovens sobre os direitos das mulheres e das adolescentes, passando por compromissos da América do Sul para investir na África e ajudá-la em seu desenvolvimento agrícola e na redução da fome. Criou-se um comitê de acompanhamento integrado por União Africana e Nigéria, de um lado, Unasul (União de Nações Sul-americanas), Brasil e Venezuela de outro, e foram criados oito “grupos de trabalho”, isto é, reuniões setoriais de funcionários de um e outro bloco, um objetivo cumprido apenas parcialmente.
Esses grupos, que dão idéia das potencialidades de intercâmbio e cooperação visualizadas por africanos e sul-americanos são; comércio, investimento e turismo, do qual devem se ocupar Marrocos e Venezuela; infraestrutura, transporte, mineração e energia, a cargo de Brasil e Nigéria; assuntos de paz e segurança, nas mãos de Argentina e Líbia, e agricultura e meio ambiente, aos cuidados de Guiana e Uganda. Educação e cultura ficaram com Senegal e Venezuela; assuntos sociais e esportes com Paraguai e Namíbia; ciência, tecnologia e comunicação, com Brasil e Camarões, e fortalecimento institucional e administração com Camarões e Chile.
As documentação coletada por estes grupos nutrirá a Declaração de Margarita, disse Bolívar, um contexto para que sejam impulsionados acordos setoriais, binacionais ou subrregionais enquanto os chefes de Estado e de governo discutirão durante o encontro sobre temas da atualidade política e a crise econômica global que acaba de completar um ano.
Os três países sul-americanos que mais projetaram sua relação com a África nesta década são do lado atlântico, Brasil, Argentina e Venezuela. A África já representa 7% do comércio exterior do Brasil, cujo intercâmbio com esse continente passou de US$ 5 bilhões em 2002 para quase US$ 26 bilhões em 2008, segundo o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, principalmente pela venda de alimentos e manufaturas. Desde que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu em 2003 o País investiu mais de US$ 4 bilhões na agricultura africana e convidou seus sócios desse continente para plantio e capacitação a fim de produzir biocombustíveis.
A Argentina, para quem a África representa 3,5% de seu comércio total, vendeu para a África do Sul Angola e norte africano produtos no valor de mais de US$ 3 bilhões ao ano, com uma balança amplamente superavitária após colocar mais de US$ 2 bilhões em bens agropecuários, principalmente, soja, óleos, cereais e lácteos. Em contrapartida, o jornal argentino Página 12 informou que um estudo da embaixada sul-africana em Buenos Aires segundo o qual o país africano poderia fornecer à Argentina 25 mil produtos se este país deixasse de comprar de outros fornecedores.
O comércio da Venezuela com a África é mínimo, porque exporta petróleo, que é encontrado a cada vez mais no subsolo africano, e importa máquinas, equipamentos e alimentos que são fornecidos sobretudo no hemisfério. Mas, a Venezuela, cofundadora da Organização de Países Exportadores de Petróleo, da qual fazem parte Angola, Argélia, Líbia e Nigéria, abriu suas portas para que as firmas argelinas e sul-africanas participem da prospecção de gás e petróleo em seu território, e Pretória convidou Caracas para participar do desenvolvimento de uma refinaria e um parque de armazenamento de combustível.
O agora ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki (1999-2008) afirmou em Abuja que os países da Unasul e da União Africana têm em comum o fato de “termos resistido ao sistema colonialista caracterizado por exploração, escravidão e abusos”. O presidente anfitrião do encontro em Margarita, Hugo Chávez, afirmou que entre africanos e sul-americanos “existe uma aliança natural que deve se fortalecer com decisões práticas. Nossos problemas são comuns, as causas e suas raízes se comungam. Queremos que como resultado da cúpula Caracas se converta no centro de chegada, atividades e conexões com a África”, disse Chávez. Bolívar recordou que Caracas aumentou, em 10 anos, de sete para 18 suas embaixadas na África e determinou que cada uma atendesse outras duas capitais, para que sua diplomacia alcançasse 54 países.
O Presidente Lula propôs uma aliança agrícola e energética com a África, bem como unificar posições, no âmbito da ONU, sobre a exploração do subsolo marinho no oceano Atlântico Sul. O Brasil, recordou o chanceler Celso Amorim, possui a segunda população de origem africana no mundo, depois da própria África. “isso influi profundamente em nossa cultura e queremos transformá-lo em realidade”, ressaltou. Brasil, África do Sul e Índia criaram um fórum de diálogo para tecer uma nova aliança de três importantes democracias do Sul; potencializar suas relações econômicas e a cooperação com terceiros países, com programas iniciais para Cabo Verde e Haiti, e unir forças em sua aspiração de ganhar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Bolívar disse que “cerca de 30” chefes de Estado e de governo estarão na ilha Margarita, a maioria deles antes ou após participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, mas não forneceu a lista, pois “ficou decidido que cada governo anunciará como será representado” no encontro. Chávez informou que estarão presentes, entre outros, o presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, e o líder líbio, Muammar Khadafi, presidente de turno da União Africana. Esta semana começaram a ser mostrados apresentados em Caracas atos culturais relacionados com a cúpula entre africanos e sul-americanos. IPS/Envolverde

