ÍNDIA-CHINA: Dalai Lama aviva tensões

Nova Déli, 21/09/2009 – A prevista visita do Dalai Lama ao Estado indiano de Arunachal Pradesh preocupa a China, apesar de pessoas próximas ao líder espiritual tibetano afirmarem que se trata de uma simples resposta ao chamado de fieis budistas. “Sua santidade visitará Arunachal Pradesh em novembro a convite dos budistas locais. Apenas isso”, disse à IPS o assessor do Dalai Lama, Chhime Chhoekyapa, em entrevista por telefone desde a cidade indiana de Dharamsala, onde se estabeleceu o governo tibetano no exílio. Mas as coisas não são tão simples entre os dois gigantes asiáticos desde que há 50 anos o Dalai Lama fugiu de seu palácio em Lhasa, capital do Tibet, cruzou a região montanhosa e se refugiou em Arunachal Pradesh, após o maciço levante tibetano contra Pequim.

Não há nada de diferente com as outras visitas que o Dalai Lama fez a numerosos monastérios e centros lamaístas, ou budismo tibetano, que existem no Himalaia, destacou Chhoekyapa. Praticantes do lamaísmo, que defendem a total obediência ao Dalai Lama, se localizam no Himalaia: Butao, Índia, Nepal e Tibet. Chhoekyapa disse não ter conhecimento de uma disputa diplomática entre Nova Déli e Pequim por essa visita, e acrescentou que o governo tibetano no exílio não anunciou nem divulgou a viagem. Pequim afirma que essa viagem revela “a essência separatista e antiChina da camarilha Dalai Lama”, diz uma declaração divulgada pela porta-voz do governo central, Jiang Yu, no último dia 11.

A China chama de “Tibet Meridional” o Estado de Arunachal Pradesh. Cerca de 13% do milhão de habitantes praticam o budismo. Os seguidores do lamaísmo se concentram no vale de Tawang e no distrito de Kameng ocidental. “Arunachal Pradesh faz parte da Índia e o Dalai Lama, sua Santidade o Dalai Lama, tem liberdade para ir a qualquer parte” deste país, declarou na quarta-feira o chanceler indiano S. M. Krishna, em entrevista a um canal de televisão. Krishna se referia ao fato de o líder tibetano ter liberdade para visitar o monastério da localidade de Tawang, onde diz a tradição que nasceu o sexto Dalai Lama, Tsangyang Gyatso, no século XVII.

O templo é considerado o mais importante depois do palácio de Potala em Lhasa e abriga o que resta da cultura lamaísta, a maior parte destruída pela “Revolução Cultural”, do final dos anos 60, na China. Esse período foi de uma campanha de perseguição e morte de muitas centenas de pessoas no contexto de difamações de personalidades públicas e torturas, dirigida pelo então líder do Partido Comunista Mão Zedong (1893-1976).

“Realmente, creio que a visita do Dalai Lama a Arunachal Pradehs tem um conteúdo espiritual”, disse à IPS Pushpita Das, pesquisadora do Instituto de Análises e Estudos de Defesa, com sede em Nova Déli, e especialista em assuntos chineses. “Mas, como defende a causa tibetana, é natural que as autoridades de Pequim lhe atribuam uma conotação política”. Ao ser consultada pelas razoes que levaram o governo indiano a aceitar esta visita, quando no ano passado rejeitou pedido semelhante, Das especulou que pode estar relacionado com o mal-estar de Nova Déli em relação a certas ações de Pequim consideradas pouco amistosas.

“Nova Déli fez todo o possível para que não houvesse inconvenientes durante a passagem da tocha dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 por este país, mas a China frustrou a festa no encontro do Grupo de Fornecedores Nucleares” (GSN), disse Das, em referência à oposição chinesa a que a Índia participasse do comércio atômico, durante uma reunião em Viena no ano passado. O GSN reúne os países fornecedores atômicos, entre os quais estão China e Índia, a fim de conter a proliferação de dispositivos nucleares, com armas.

Ao abrigar 110 mil refugiados tibetanos, os que fugiram com o Dalai Lama e seus descendentes e os que chegaram depois, era previsível que a passagem da tocha olímpica fosse problemática. Mas, em 18 de abril de 2008, não houve incidentes graças ao forte cordão de segurança estabelecido ao longo de seus quase três quilômetros de percurso pelo centro da capital indiana e a detenção de alguns líderes da resistência tibetana.

Outra atitude pouco amigável da China foi sua decisão de bloquear um empréstimo de US$ 60 milhões do Banco de Desenvolvimento Asiático para este país para construir uma hidrelétrica em Arunachal Phradesh, disse Das. O empréstimo acabou saindo em junho, mas com oposição de Pequim. Em 2005, os dois países estabeleceram certos princípios reitores a fim de converter a linha que divide os dois países em uma fronteira internacional real, o que nunca aconteceu.

A imprensa local informou sobre frequentes incursões do Exército Popular de Libertação chinês em áreas sensíveis, como Arunachal Pradesh e Ladakh, importante localidade do Estado de Jammu e Caxemira. A consolidação da Índia como outra potência asiática não agrada Pequim, segundo Das, e “é o que parece estar prejudicando a concretização de um acordo fronteiriço amigável”, disse a especialista. As incursões realizadas pelo exército chinês em vários pontos dos 3.500 quilômetros de fronteira são sinais do mal-estar entre os dois países, acrescentou. Uma situação semelhante ocorreu em 1962, quando após uma reivindicação territorial da China houve uma breve, mas sangrenta guerra. Desde então, a China ocupa 38 mil quilômetros quadrados de Aksai Chin, em Ladakh.

Pequim melhorou a infraestrutura ao longo da fronteira e construiu redes de rodovias e vias férreas. Por sua parte, a Índia, com menos recursos, tenta seguir o vizinho, especialmente após as últimas incursões militares chinesas. Ao reforçar sua presença militar na fronteira, Nova Déli só conseguirá aumentar “a rivalidade entre as duas nações”’, alertou um editorial do jornal Global Times, reproduzido pelo influente jornal chinês em língua inglesa Diário do Povo. O governo indiano deve considerar “se pode enfrentar as consequências de um possível enfrentamento com a China”, ressaltou. IPS/Envolverde.

Ranjit Devraj

Regional editor Ranjit Devraj, based in Delhi, takes care of the journalistic production from the Asia and Pacific region. He handles a group of influential writers based in places like Bangkok, Rangoon, Tehran, Dubai, Karachi, Colombo, Melbourne, Beijing and Tokyo, among many others. He coordinates with the editor in chief and forms part of the IPS editorial team. Ranjit Devraj has been an IPS correspondent in India since 1997. Prior to that he was a special correspondent with the United News of India news agency. Assignments for UNI included development of the agency’s overseas operations, particularly in the Gulf region. Devraj counts two years in the trenches (1989-1990) covering the violent Gorkha autonomy movement in the Darjeeling Hills as most valuable in a career of varied journalistic experience.

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