CIDADE DO CABO, 12/10/2009 – Sendo a África do Sul o único país africano com assento no Grupo dos 20 (G20), ao mesmo tempo que co-preside ao grupo de trabalho que visa reformar o Fundo Monetário Internacional, tem a “obrigação moral, perante o continente, de exigir uma gestão mais responsável do sistema financeiro mundial.” É isto que a filial sul africana do Apelo Global de Acção Contra a Pobreza gostaria que o Ministro das Finanças sul africano, Pravin Gordhan, avançasse durante a reunião de dois dias do G20 que começou hoje em Pittsburgh, nos Estados Unidos. O Apelo Global de Acção Contra a Pobreza (GCAP) é uma aliança internacional de organizações da sociedade civil.
O consenso geral é que a cimeira do G20 em Pittsburgh (Set 24 – 25) será dominada pelas conversações sobre a gestão do sistema financeiro comm vista a evitar outra crise económica.
O GCAP enviou uma carta aberta a Gordhan, onde aborda a questão da gestão prudente do sistema financeiro mundial. A carta insiste que o G20 deve centrar a atenção na melhoria da regulamentação empresarial, das informações financeiras e da banca, de acordo com Rajesh Latchman, porta-voz do GCAP.
“Ao promover este sistema, o senhor (Gordhan) irá garantir a detecção antecipada das pressões impostas pela recessão e ainda que os efeitos dominó sobre as economias emergentes no Sul sejam evitadas ou pelo menos minimizadas,” afirmou a carta.
O GCAP também pede aos países do G20 que disponibilizem recursos adicionais aos países mais pobres para que estes consigam lidar com a crise financeira sem a imposição de condicionalidades negativas. “Sabemos que o Senhor Ministro Gordhan vai ter de travar uma batalha difícil, mas esperamos que levante estas questões na cimeira,” disse Latchman.
Embora alguns tenham pensado que os países africanos estariam protegidos dos efeitos da crise financeira mundial, essa opinião veio a revelar-se errada, visto que os países africanos sentiram uma diminuição do seu produto interno bruto (PIB). A África do Sul também tem sido afectada, tendo milhares de pessoas perdido os seus postos de trabalho e as companhias reduzido custos.
“Apesar dos bancos sul africanos não terem sido arrastados tão profundamente para a crise mundial, estão empenhados numa economia global estável. Por isso, a África do Sul também está empenhada na regulamentação bancária mundial e na forma como são pagos as bonificações aos executivos,” afirmou à IPS Daryl Glaser, professor associado do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.
Segundo Glaser, uma das questões que a África do Sul devia promover é uma maior representação da África do Sul e de outros países africanos em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e ainda a criação de normas e regulamentos equitativos para todos os países no que diz respeito a questões comerciais.
“Os países do Sul querem uma melhor representação no planeamento económico mundial,” disse Glaser. “Os direitos de voto nestas instituições (FMI e Banco Mundial) estão distorcidos em favor do Norte. Estas instituições exercem muita pressão sobre os países do Sul para que estes abram os seus mercados. Mas os países do Norte não são tão abertos como a sua retórica sugere.”
“Fico com a impressão que o Presidente Jacob Zuma (da África do Sul) é mais protecionista do que o seu antecessor, Thabo Mbeki. A África do Sul levantou as barreiras de protecção do comércio demasiado rapidamente nos anos 90. Isto foi um dos factores que contribuiram para a elevada taxa de desemprego do país. Existe algum espaço para um grau de protecionismo moderado que impeça que o país se torne muito vulnerável.”
Deve exercer-se pressão sobre as instituições internacionais para que honrem os compromissos assumidos no sentido de ajudarem os países africanos a sair da pobreza. “Na África Sub-Saariana, a questão da ajuda continuará a ser relevante.”
“Já se referiu que, quando os países de Leste receberam apoio financeiro, o processo foi feito com menos exigências por comparação à ajuda financeira concedida aos países do Sul,” acrescentou Glaser.
Francis Kornegay, investigador associado na área das Relações Internacionais, disse à IPS não esperar “qualquer divergência importante entre o Norte e o Sul sobre o processo de regulamentação do sistema financeiro mundial” na cimeira de Pittsburgh.
“Acredito que a Cimeira do G20 vai criar mais consenso do que diferenças a esse respeito. Mas todos os países têm agendas de reformas individuais em relação à regulamentação dos mercados financeiros. A África do Sul tem a vantagem de os bancos locais não terem estado excessivamente expostos a produtos financeiros complicados.”
Entretanto, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) pediu à Cimeira dos G20 que aumentasse os recursos do banco de forma a poder responder às crescentes exigências de financiamento por parte dos países africanos.
Num discurso proferido via vídeo em Tunis, na Tunsia, o Presidente do BAD, Donald Kaberuka, pediu ao G20 que não abandonasse nem deixasse África e os países com baixo rendimento ficarem para trás, agora que a economia mundial “mostra sinais de retoma.”
O BAD espera que os seus investimentos em 2009 dupliquem, dos 5.8 mil milhões de dólares registados no ano passado para 11 mil milhões este ano. Este aumento de compromissos é, em larga medida, uma resposta à crise global.

