DESTAQUES: Captura de carbono provoca controvérsia

BERLIM, 20/10/2009 – (Tierramérica).- Embora haja consenso mundial quanto à necessidade de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, a maioria dos métodos para se conseguir tal meta continua sendo controversa.

Central térmica-piloto Schwarze Pumpe, que utiliza a tecnologia de captura e armazenamento de carbono, ao sul de Berlim - Vattenfal

Central térmica-piloto Schwarze Pumpe, que utiliza a tecnologia de captura e armazenamento de carbono, ao sul de Berlim - Vattenfal

A captura e o armazenamento subterrâneo de gases que provocam o efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono, é um método duvidoso para reduzir a contaminação que leva ao aquecimento global, alertam especialistas. Cientistas, ambientalistas e comunidades continuam contestando esse método que consiste em comprimir e liquefazer o dióxido de carbono antes de enviá-lo para depósitos na litosfera terrestre, e que é aplicado há tempos para recuperar petróleo e gás em poços em extinção. O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) ocupou-se dessas técnicas em 2007, e especialmente em 2005, quando seu Grupo de Trabalho III publicou um estudo com 443 páginas.

Dessa forma, o governo alemão viu-se obrigado a frear, neste verão, o processo para aprovar uma lei autorizando a captura e o armazenamento de carbono no território nacional, diante do descontentamento manifestado pelas comunidades das regiões escolhidas para experimentar a técnica. Tais manifestações foram alimentadas por afirmações científicas e de organizações ecologistas. Já em 2006, a geóloga Gabriela von Goerne, da filial alemã do Greenpeace, alertou que essas técnicas poderiam ser usadas somente “como última solução” na luta contra o aquecimento global. “O objetivo prioritário para mitigar a mudança climática deve ser a redução de emissões de dióxido de carbono em sua origem”, disse ao Terramérica.

Isto significa reduzir sistematicamente o uso de combustíveis fósseis – principais emissores de dióxido de carbono – nas atividades humanas. “Ao reduzir o consumo de combustíveis fósseis, a demanda orienta-se naturalmente para fontes energéticas que não produzem esse gás, como as energias eólica, solar e hidráulica”, disse Von Goerne. Por outro lado, o uso maciço de captura e armazenamento de carbono seria um estímulo para a continuidade do uso de combustíveis fósseis, e também seria um obstáculo à expansão das fontes de energias renováveis e limpas. “Além disso, é cara e consome muita energia, o que reduz sua eficiência”, acrescentou a geóloga.

Os custos para capturar e armazenar carbono são variados. Nas geradoras elétricas a carvão ou outro combustível fóssil, a captura e compressão do dióxido de carbono é relativamente simples. No entanto, como os lugares previstos para o armazenamento do gás raramente estão perto dos geradores, é necessário instalar uma rede de tubulações para transportar o gás liquefeito da fonte até o depósito. “Só imaginar tal rede de tubulações atravessando a Alemanha é absurdo”, disse Von Goerne. O dióxido de carbono também pode ser extraído dos combustíveis antes da combustão, ou esta deve ocorrer em uma atmosfera na qual se injete oxigênio puro e que gere apenas dióxido de carbono e água.

Nos dois processos o dióxido de carbono deve ser comprimido e liquefeito para que seja possível o transporte. Em todos os casos, a captura deste gás consome muita energia, reduzindo a eficiência do processo. Em 2005, o IPCC estimou que a captura e compressão de dióxido de carbono aumentaria entre 25% e 40% o consumo de combustível em uma central térmica a carvão. Um terceiro argumento contra esta técnica é geológico: praticamente todos os especialistas, inclusive operadores de depósitos em teste, coincidem em afirmar que o armazenamento de dióxido de carbono pode provocar vazamentos de gases e movimentos de terra, com consequências ambientais imprevisíveis.

Um encontro sobre o assunto, realizado em fevereiro em Paris, com participações de especialistas franceses e britânicos, incluiu entre as dificuldades que enfrenta a captura e o armazenamento de carbono, “riscos ambientais e problemas de aceitação relacionados”. É possível que ocorram vazamentos de dióxido de carbono desses depósitos, que “podem contaminar ecossistemas e afetar a saúde humana”, disse ao Terramérica Sophie Galharret, do francês Instituto de Desenvolvimento Sustentável e de Relações Internacionais. “Atualmente, é muito difícil conceber uma forma de manejar tais riscos no debate público para apoiar uma aplicação em massa de captura e armazenamento de carbono”, acrescentou Galharret, que participou do debate.

O fato de o governo alemão não ter aprovado a lei específica constitui um exemplo dessas dificuldades. A Noruega, segundo produtor mundial de gás natural, fornece 17% do consumo europeu e dispõe, desde 1996, de um sistema experimental de captura e armazenamento de dióxido de carbono, com depósitos no Mar do Norte. Segundo Brian Bjordal, diretor da empresa estatal norueguesa Gassco, que coordena a distribuição de gás dos poços de seu país para o resto da Europa, a Noruega pode ser comparada a um trapezista, e o resto do continente ao público do circo. “No circo, a plateia incita o trapezista a saltar. Mas, se estivesse em seu lugar, o público não saltaria”, disse Bjordal ao Terramérica, ilustrando sua própria incerteza sobre a inocuidade destes métodos.

Segundo Galharret, há outro argumento contra: a possibilidade de fracasso. E isto está associado a um fator primordial: a pressão do calendário para reduzir as emissões contaminantes. “Se o uso comercial da captura e do armazenamento de carbono falhar por razões técnicas ou econômicas, somente ficaremos sabendo entre 2015 e 2020. No caso de fracasso, a Europa terá muito pouco tempo para readaptar sua estratégia de redução das emissões”, afirmou.

* O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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