SANTIAGO, 20/10/2009 – (Tierramérica).- A consciência ecológica desponta em uma nova geração de designers de objetos e moda.
A convocação anual, que essa agência realiza desde 2007, deu certa visibilidade a designers com propostas sustentáveis. Porém, ainda são poucos os que se atrevem a criar empreendimentos em certa escala, já que o mercado local é muito pequeno. A empresa Modulab, que surgiu do casamento dos designers industriais Felipe Ferrer e Pámela Castro, foi apresentada em 2006, com bolsas, gorros e botas fabricadas com lonas de PVC (policloreto de vinila) impressas com publicidade da indústria cinematográfica.
Inspirada no trabalho da empresa suíça Freitag, a Modulab associou-se às distribuidoras de cinema para ficar com os cartazes depois de usados. Em seguida, começou a confeccionar carteiras, cintos e outros acessórios com borracha reciclada de pneus usados. Agora, experimenta materiais plásticos. Seus criadores trabalham sob encomenda, distribuem em pequenas lojas e exportam para Estados Unidos, Holanda, Grã-Bretanha e Japão. “Geramos negócios inclusivos a partir do design e da reciclagem”, já que todos os produtos são elaborados por pessoas de escassos recursos, que “são bem pagas e no prazo”, disse Ferrer.
Outra empresa de design que chama a atenção é a Duotipo. Seus responsáveis reciclam e transformam em botões as peças centrais dos disquetes de 1,44 megabytes. Até agora produziram várias centenas de botões azuis, vermelhos e amarelos que vendem às lojas. A escolha dos disquetes foi feita após “a análise de produtos obsoletos que não eram utilizados nas casas, foram substituídos por outros de melhor desempenho e estavam se acumulando”, disse Francisco Véliz, da Duotipo. “Nossa premissa fundamental é gerar produtos de consumo em massa”, afirmou.
A artista plástica Consuelo Riedel confecciona acessórios com materiais descartados pela indústria têxtil, e a designer Paula Vidal faz jaquetas reutilizando feltro industrial. Sob a marca Mantis, Alexandra Guerrero e Ricardo Cheuquiante confeccionam gorros, vestidos, boleros e mantas com filtros das pontas de cigarro. Primeiro, separam o filtro do papel e depois retiram as substâncias tóxicas, como nicotina e alcatrão, em uma autoclave a vapor, pressão e alta temperatura. A fibra purificada é desembaraçada para ser misturada à lã natural. Com o novelo final, que contém cerca de 10% de baganas, os produtos são tecidos à mão.
À estudante Camila Labra ocorreu fabricar coloridas botas femininas com sacos plásticos, e Betzabé Ortiz decidiu produzir colares com o resto de garrafas PET (tereftalato de polietileno). Outro grupo tece boleros e cintos usando fitas cassete. Giovana Altamirano confecciona carteiras, cintos e outros acessórios com tiras de radiografias médicas, enquanto Pámela Jerez criou joias a partir de rolhas em desuso.
Apesar de seu atrativo, a conjunção moda-ecologia não está isenta de tensões e contradições, mais ou menos expostas pelas fontes entrevistadas. Confeccionar e vender produtos é mais ou menos poluente do que deixar no lixo os dejetos que lhes dão vida? Que magnitude de resíduos é reutilizada?
Alguns designers consideram que é mínima a contribuição que a moda de autor pode dar ao ambientalismo, por isso são necessárias alianças com empresas. “As três mil bolsas, que vendi para Londres para um Natal, não são uma diferença substancial para o meio ambiente. Evitamos que muitos metros quadrados de PVC fosse para o lixo e geramos trabalho local. Entretanto, agora buscamos nos aliar com empresas e tentar gerar pequenas diferenças em produtos de consumo maciço”, disse Ferrer, da Modulab. Eles optaram “por trabalhar com os resíduos das empresas para que voltem a elas” na forma de presentes corporativos, por exemplo.
Esse também é o enfoque da Remade, criada pelo governo da Lombardia, norte da Itália, para estimular as companhias na geração de novos produtos a partir de seus resíduos, com a finalidade de cumprir a rígida legislação europeia em matéria de reciclagem. O projeto se multiplicou por Portugal, Argentina e Chile. Nesse aspecto, tanto Ferrer como Heiremans, da Remade, questionam as pobres normas chilenas em matéria de reciclagem.
Para a designer argentina Laura Novik, analista de tendência de moda e fundadora e diretora da Raiz Diseño, sustentável não é apenas sinônimo de reutilização e reciclagem. “Também é sustentável permitir que em seu produto trabalhem comunidades emergentes e conseguir que seu produto permita que determinadas tradições artesanais persistam neste mundo contemporâneo. Tudo isso é sustentabilidade: cultural, social, ambiental”, disse Novik, que vive no Chile há seis anos.
Nesse contexto, destaca-se o trabalho dos designers Ronaldo Fraga (Brasil), Martín Churba e Alejandro Sarmiento (Argentina), Ana Livni e Fernando Escuder (Uruguai), Juana Díaz (Chile), entre muitos outros, e lojas independentes que difundem o “design consciente” e a “slow fashion”. Em 2008, a Raiz Diseño organizou, em Santiago, uma feira internacional de ecodesign, que se repetiu entre 17 e 18 deste mês sob o lema Vida Simples.
Este ano, Novik convocou, especialmente, designers que usam fibras naturais e dão trabalho a artesãos indígenas, como as chilenas Andréa Onetto, María Paz Vaodivieso e María Inês Solimano, considerando que 2009 foi escolhido pela Organização das Nações Unidas como Ano Internacional das Fibras Naturais. No âmbito do resgate das tradições, também há controvérsias. Por exemplo, alguns designers “puristas” defendem a conservação fiel das práticas indígenas, embora não sejam sustentáveis. O trato justo que é dado às comunidades empregadas como mão-de-obra é outro tema em constante debate.
“Se a sustentabilidade é uma porta tão estreita pela qual podem entrar uns poucos eleitos, nunca mudaremos nada”, disse Novik. “O design é uma ferramenta muito poderosa, que pode transformar consciências”, acrescentou. “A ideia é abrir muitas portas a partir de diferentes pontos: daquele onde se trabalha com fibras naturais até o que trabalha reciclando. Porém, também do que se permite tomar Coca-Cola além de reciclar”, concluiu.
* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).


