Santiago, 13/10/2009 – Para combater a desigualdade, os países da América Latina devem redobrar sua contribuição financeira destinada ao cumprimento de seus compromissos internacionais, disse à IPS Marcela Suazo, diretora na região do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
Na capital egípcia foi projetado investimento de US$ 21,7 bilhões até 2015 para quatro componentes do Plano de Ação: planejamento familiar, saúde reprodutiva, doenças sexualmente transmissíveis com HIV/Aids e coleta e análise de dados. Mas, uma recente revisão feita pelo UNFPA revelou que no total são necessários US$ 69,810 bilhões. Juntado o gasto de governos, cidadãos e organizações não-governamentais, as nações da América Latina contribuíram com quase US$ 3 bilhões, mas são necessários mais de US$ 6 bilhões para cumprir os objetivos, disse Suazo à IPS. Enquanto isso, os países industrializados contribuem com menos do terço comprometido.
Suazo, de origem hondurenha, dirige desde 2007 o Escritório Regional para a América Latina e o Caribe do UNFPA. Ela conversou com a IPS em Santiago, durante seminário de dois dias na sede da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) dedicado a analisar o Plano de Ação na região, 15 anos depois de sua aprovação.
IPS- Como avalia o cumprimento na América Latina do Plano de Ação da Conferência do Cairo?
Marcela Suazo – A avaliação é bastante positiva. Houve avanços importantes, não apenas no contexto legislativo e de políticas públicas, mas também no acompanhamento financeiro. Porém, há desafios importantes. O primeiro é a luta contra a desigualdade. Nem todos gozam dos avanços de maneira eqüitativa. O tema da desigualdade passa por contar com a informação necessária – manter os censos e as pesquisas e analisar toda esta informação – e por redobrar o financiamento.
É certo que a região fez um importante esforço. É certo que está cumprindo mais ou menos 50% dos dois terços do financiamento do Plano de Ação com os quais se comprometeu. Mas, também é certo que devemos redobrar o compromisso para garantir esta outra metade.
IPS- Quais são à áreas em atraso?
MS- Há diferentes avanços e desigualdades. Não poderia dizer que existem áreas totalmente relegadas. Por exemplo, falemos de reduzir em três quartos até 2015, em relação a 1990, a maternidade materna. Já sabemos que é um dos Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio que não será cumprido, e que também está no coração do Cairo. Temos índices médios de cem a 150 mortes maternas para cada cem mil nascidos vivos, e em uma área geográfica há alguns quilômetros de distancia tem quatro vezes mais. Em alguns casos a mortalidade materna aumenta 100%, 200%, 300%, 400%. Este desafio é importante.
Por outro lado, é preciso ver o contexto que havia em 1994, o de hoje e o que teremos em 2025. Hoje existe uma população jovem muito importante, cerca de 109 milhões de pessoas entre 14 e 24 anos, que pode incorporar-se à população economicamente ativa. Para a região é fundamental tomar decisões de investimento, de política pública e de programas que garantam que esses jovens contem com as ferramentas necessárias para se incorporarem nos processos de desenvolvimento produtivo, e que tenham uma plataforma de informação, conhecimento e acesso a esses serviços para o exercício de seus direitos. Em 2025, teremos menos população jovem e mais população envelhecida.
IPS- A mortalidade materna e a fecundidade adolescente figuram entre os principais problemas da região. Por que não se avançou mais nestas áreas?
MS- Já se sabe quais setores apresentam altos índices de mortalidade materna, já se conta com bastante conhecimento e experiência sobre quais são os pilares fundamentais para reduzi-la e já sabemos que a maior parte dela é previsível. Os três pilares fundamentais são planejamento familiar, cuidados de qualidade durante a gravidez, o parto e os 40 dias seguintes, e os serviços de emergência obstétrica. Há conhecimentos, mas necessitamos de investimento específico, focado e diferenciado nesses três pilares para termos um avanço real.
IPS- E a gravidez de adolescentes
MS- A gravidez entre adolescentes vem crescendo na região. Os jovens e as jovens não estão tendo necessariamente possibilidades de acesso à informação, à educação formal, a conhecimento, a insumos e a serviços de prevenção da gravidez. Isto é um tema muito importante porque existe uma relação direta entre uma gravidez precoce e as possibilidades de adquirir as ferramentas necessárias para romper o círculo da pobreza. A região deve dar atenção ao problema.
IPS- A região também mostra progressos importantes na luta contra o HIV/Aids. Mas, muitas vezes as médias regionais costumam esconder disparidades nacionais.
MS- Há um grupo populacional tradicional, o dos homens que fazem sexo com homens, onde temos o maior número de infecções por HIV(vírus da deficiência imunológica humana, causador da Aids), mas temos uma infecção crescente em mulheres. E, segundo o último informe do Programa Conjunto das Nações Unidas contra HIV/Aids (Onusida), aumentou entre 40% e 45% a prevalência em jovens. Esse é um alerta, em uma região onde estamos obtendo um avanço significativo para estabilizar a epidemia. Mas, temos populações onde a prevalência está aumentando.
IPS- Onde a região deve colocar seu foco, com vistas a temas emergentes como a mudança climática?
MS- Por um lado, imediatamente, deve-se focalizar o investimento em juventude. E, por outro, temos de tomar rapidamente ações até 2025, que está virando a esquina, quando contaremos com 190 milhões de maiores de 60 anos. A população da região está envelhecendo rapidamente. Além disso, devemos incorporar os novos contextos, como o crescimento da população urbana e todas as “condicionalidades” que surgirão por causa da mudança climática.
IPS- Qual é o chamado para os governos neste seminário de avaliação do Plano de Ação do Cairo?
MS- O mais importante é que neste contexto de crise econômica temos de garantir o investimento em juventude e assegurar que os êxitos obtidos no contexto social não se percam, para que no futuro não tenhamos de analisar esta crise como a anterior, que nos custou 25 anos em recuperação. IPS/Envolverde


