POPULAÇAO-AMÉRICA LATINA: Avanços desiguais

Santiago, 13/10/2009 – Para combater a desigualdade, os países da América Latina devem redobrar sua contribuição financeira destinada ao cumprimento de seus compromissos internacionais, disse à IPS Marcela Suazo, diretora na região do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Marcela Suazo, diretora na região do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). - FNUAP

Marcela Suazo, diretora na região do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). - FNUAP

Com a finalidade de financiar o Plano de ação aprovado em 1994 pela Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, acordou-se que as nações do Sul entrariam com dois terços do total estimado, e o restante caberia à cooperação de países industrializados.

Na capital egípcia foi projetado investimento de US$ 21,7 bilhões até 2015 para quatro componentes do Plano de Ação: planejamento familiar, saúde reprodutiva, doenças sexualmente transmissíveis com HIV/Aids e coleta e análise de dados. Mas, uma recente revisão feita pelo UNFPA revelou que no total são necessários US$ 69,810 bilhões. Juntado o gasto de governos, cidadãos e organizações não-governamentais, as nações da América Latina contribuíram com quase US$ 3 bilhões, mas são necessários mais de US$ 6 bilhões para cumprir os objetivos, disse Suazo à IPS. Enquanto isso, os países industrializados contribuem com menos do terço comprometido.

Suazo, de origem hondurenha, dirige desde 2007 o Escritório Regional para a América Latina e o Caribe do UNFPA. Ela conversou com a IPS em Santiago, durante seminário de dois dias na sede da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) dedicado a analisar o Plano de Ação na região, 15 anos depois de sua aprovação.

IPS- Como avalia o cumprimento na América Latina do Plano de Ação da Conferência do Cairo?

Marcela Suazo – A avaliação é bastante positiva. Houve avanços importantes, não apenas no contexto legislativo e de políticas públicas, mas também no acompanhamento financeiro. Porém, há desafios importantes. O primeiro é a luta contra a desigualdade. Nem todos gozam dos avanços de maneira eqüitativa. O tema da desigualdade passa por contar com a informação necessária – manter os censos e as pesquisas e analisar toda esta informação – e por redobrar o financiamento.

É certo que a região fez um importante esforço. É certo que está cumprindo mais ou menos 50% dos dois terços do financiamento do Plano de Ação com os quais se comprometeu. Mas, também é certo que devemos redobrar o compromisso para garantir esta outra metade.

IPS- Quais são à áreas em atraso?

MS- Há diferentes avanços e desigualdades. Não poderia dizer que existem áreas totalmente relegadas. Por exemplo, falemos de reduzir em três quartos até 2015, em relação a 1990, a maternidade materna. Já sabemos que é um dos Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio que não será cumprido, e que também está no coração do Cairo. Temos índices médios de cem a 150 mortes maternas para cada cem mil nascidos vivos, e em uma área geográfica há alguns quilômetros de distancia tem quatro vezes mais. Em alguns casos a mortalidade materna aumenta 100%, 200%, 300%, 400%. Este desafio é importante.

Por outro lado, é preciso ver o contexto que havia em 1994, o de hoje e o que teremos em 2025. Hoje existe uma população jovem muito importante, cerca de 109 milhões de pessoas entre 14 e 24 anos, que pode incorporar-se à população economicamente ativa. Para a região é fundamental tomar decisões de investimento, de política pública e de programas que garantam que esses jovens contem com as ferramentas necessárias para se incorporarem nos processos de desenvolvimento produtivo, e que tenham uma plataforma de informação, conhecimento e acesso a esses serviços para o exercício de seus direitos. Em 2025, teremos menos população jovem e mais população envelhecida.

IPS- A mortalidade materna e a fecundidade adolescente figuram entre os principais problemas da região. Por que não se avançou mais nestas áreas?

MS- Já se sabe quais setores apresentam altos índices de mortalidade materna, já se conta com bastante conhecimento e experiência sobre quais são os pilares fundamentais para reduzi-la e já sabemos que a maior parte dela é previsível. Os três pilares fundamentais são planejamento familiar, cuidados de qualidade durante a gravidez, o parto e os 40 dias seguintes, e os serviços de emergência obstétrica. Há conhecimentos, mas necessitamos de investimento específico, focado e diferenciado nesses três pilares para termos um avanço real.

IPS- E a gravidez de adolescentes

MS- A gravidez entre adolescentes vem crescendo na região. Os jovens e as jovens não estão tendo necessariamente possibilidades de acesso à informação, à educação formal, a conhecimento, a insumos e a serviços de prevenção da gravidez. Isto é um tema muito importante porque existe uma relação direta entre uma gravidez precoce e as possibilidades de adquirir as ferramentas necessárias para romper o círculo da pobreza. A região deve dar atenção ao problema.

IPS- A região também mostra progressos importantes na luta contra o HIV/Aids. Mas, muitas vezes as médias regionais costumam esconder disparidades nacionais.

MS- Há um grupo populacional tradicional, o dos homens que fazem sexo com homens, onde temos o maior número de infecções por HIV(vírus da deficiência imunológica humana, causador da Aids), mas temos uma infecção crescente em mulheres. E, segundo o último informe do Programa Conjunto das Nações Unidas contra HIV/Aids (Onusida), aumentou entre 40% e 45% a prevalência em jovens. Esse é um alerta, em uma região onde estamos obtendo um avanço significativo para estabilizar a epidemia. Mas, temos populações onde a prevalência está aumentando.

IPS- Onde a região deve colocar seu foco, com vistas a temas emergentes como a mudança climática?

MS- Por um lado, imediatamente, deve-se focalizar o investimento em juventude. E, por outro, temos de tomar rapidamente ações até 2025, que está virando a esquina, quando contaremos com 190 milhões de maiores de 60 anos. A população da região está envelhecendo rapidamente. Além disso, devemos incorporar os novos contextos, como o crescimento da população urbana e todas as “condicionalidades” que surgirão por causa da mudança climática.

IPS- Qual é o chamado para os governos neste seminário de avaliação do Plano de Ação do Cairo?

MS- O mais importante é que neste contexto de crise econômica temos de garantir o investimento em juventude e assegurar que os êxitos obtidos no contexto social não se percam, para que no futuro não tenhamos de analisar esta crise como a anterior, que nos custou 25 anos em recuperação. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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