Leipzig, Alemanha, 16/10/2009 – Vinte anos depois da queda do muro de Berlim, persistem os desencontros entre o leste e o oeste da Alemanha. Os orientais têm preferências políticas diferentes, ganham menos dinheiro e são mais pessimistas do que seus compatriotas ocidentais. “Muitos orientais estão frustrados”, disse à IPS o ativista pelos direitos humanos Rainer Muller, um dos muitos cidadãos da cidade de Leipzig (a mais povoada do leste alemão depois de Berlim) que empreenderam a Revolução Pacífica que no final da década de 80 acabou com o regime comunista.
“Pensávamos que chegaríamos ao paraíso. Tudo parecia possível em 1989”, lembrou Muller. Desde a socialista República Democrática Alemã, onde se formavam longas filas nas lojas estatais para compra de produtos escassos como banana ou café, via-se a capitalista República Federal Alemã como uma promessa maravilhosa. “Mas, esperávamos muito”, lamentou Müller. Os visitantes que percorrem a Alemanha oriental encontram áreas urbanas remodeladas, centros comerciais lotados e modernos prédios de escritórios.
Mas, as aparências enganam. Os Estados da região ainda recebem ajuda financeira federal – ou seja, do bolso dos contribuintes do oeste – para cobrir seus orçamentos de 80 bilhões de euros apenas no ano passado. O desemprego afeta 12% da população economicamente ativa do leste e apenas 7% no oeste. Um trabalhador oriental médio recebe pagamento 30% menor do que a de seus compatriotas ocidentais. E essas brechas não diminuem com o tempo.
“A Alemanha oriental precisa das elevadas rendas das matrizes das grandes companhias”, disse à imprensa em Berlim o presidente do Instituto Halle de Pesquisas Econômicas (IWH), Ulrich Blum. Nenhuma ds 20 empresas cujas ações são a base do índice DAX da bolsa tem sua sede no leste da Alemanha, onde vivem 20% dos 82 milhões de habitantes do país. Mas, com sua Revolução Pacífica, a Alemanha oriental não só abraçou o capitalismo como também a democracia.
Em lugar da farsa eleitoral praticada pelo regime liderado pelo Partido Socialista Alemão (SED), os cidadãos da região têm hoje direito a votar em eleições livres. A temida Stasi (polícia secreta) foi extinta. Já não há opositores reprimidos ou presos. “Me alegra ver meus filhos crescerem em um país livre”, disse Müller. “Queríamos liberdade, e conseguimos. Ninguém disse que evitaríamos assumir as responsabilidades que a liberdade traz”.
O Partido de Esquerda, nascido das cinzas do outrora todo-poderoso SED, conquistou um terço dos votos do leste nas eleições federais de 27 de setembro. Mas, teve uma votação pequena nos Estados ocidentais. A abstenção no leste é muito maior do que no oeste. A firma de pesquisa Insitut für Demoskopie Allensbach (IFD) disse que dois em cada três alemães orientais ouvidos vêm mais diferenças do que semelhanças com seus compatriotas ocidentais. E que em sua maioria se vêm como “alemães orientais” do que como alemães apenas, ao contrário do que ocorre do outro lado do mapa. Pesquisa feita no mês passado pela seguradora Allianz Deutschland AG indicou que 55% dos alemães do oeste são mais otimistas quanto o seu futuro pessoal, contra 42% dos alemães do leste.
Há 20 anos, Rainer Müller esteve presente em um momento histórico. Cerca de 70 mil pessoas se reuniram no dia 8 de outubro de 1989 no centro de Leipzig para exigir paz e liberdade, e, contrariamente ao previsto, o regime do SED não mandou as forças de segurança reprimir a multidão. Costuma-se dizer que isso marcou a rendição do SED e da Stasi diante do povo da Alemanha oriental. “Tínhamos um sonho, e, no final das contas, valeu a pena”, afirmou Müller.
No dia seguinte, 9 de novembro, foi demolido pelas massas manifestantes o Muro de Berlim, que por 28 anos simbolizou a divisão da Alemanha. Em 22 de dezembro desse mesmo ano foi permitido aos alemães orientais chegarem até a Porta de Brandenburgo, na área ocidental de Berlim. No dia 3 de outubro de 1990, a República Democrática Alemã integrou-se à República Federal Alemã. A firma IFD calcula que dois em cada três alemães do leste entrevistados continuam satisfeitos com a reunificação. IPS/Envolverde

