Peshawar, Paquistão, 16/10/2009 – “A vida debaixo do regime talibã foi um inferno. Destruíram minha escola e a loja de vídeos de meu pai. Agora avançamos em paz, mas, continuamos com medo”, disse a paquistanesa Ayesha, de 11 anos. Esta aluna da quinta série da cidade de Mingora, no distrito de Swat, é uma das 90 mil crianças que tiveram de interromper os estudos quando o movimento extremista Talibã demoliu suas escolas com explosivos em janeiro.
No total, as milícias talibãs destruíram em Swat 188 centros de estudo de meninas e 07 de rapazes entre fevereiro de 2008 e março de 2009. Os alunos tiveram de fiar em casa ou ir para outros povoados para poderem estudar. A situação mudou. “Hoje vamos à escola, todos felizes”, disse Ayesha. O Talibã, que controlou o Afeganistão com mão-de-ferro entre 1996 e 2001, é hoje, de fato, um movimento binacional com atividade nesse país e no Paquistão.
As milícias conseguiram ampliar seu campo de ação neste país da Área Tribal Federalmente Administrada, onde se instalaram após serem expulsas do Afeganistão por uma coalizão militar internacional liderada pelos Estados Unidos, para a Província da Fronteira Nordeste, em cujo território fica Swat. O movimento governo virtualmente o distrito de Swat entre abril de 2008 e maio de 2009, quando foi expulso após uma operação de aniquilamento empreendida em grande escala pelas forças do governo paquistanês.
Também a indústria do espetáculo em Swat sofreu as consequências da ação do Talibã, para o qual música, cinema e dança são expressões contrárias ao Islã. Portanto, destruiu cerca de 500 teatros e proibiu que se ouvisse rádio dentro dos automóveis. “Reabrimos nossas lojas de discos. As pessoas as visitam com entusiasmo. Nos sentimos muito bem”, disse Sher Dil Khan, presidente da Associação de Lojas Musicais. As ameaças aos membros desta entidade continuam, mas os temores se dissiparam em boa parte com o anúncio oficial da instalação de quartéis militares permanentes na região.
Entretanto, há motivos para continuar com medo. Em janeiro, talibãs assassinaram brutalmente uma dançarina popular cujo corpo foi pendurado em um poste de eletricidade, como advertência para quem gosta de dançar. Mas, alguns deixam essas mensagens no passado, pois preferem saborear suas liberdades recém-recuperadas. As ameaças levaram Kajol Begum, bailarina profissional de 18 anos, a fugir para Peswhawar junto com sua irmã, com quem forma dupla. “Mas agora voltamos para Swat”, disse por telefone à IPS. “À noite dançamos em um casamento em Mingora”.
Duas salas de cinema de Swat reabriram suas portas após mais de um ano de inatividade forçada. “Sofremos grandes perdas enquanto o Talibã controlou o distrito, mas gora vemos um raio de esperança após a operação militar”, disse à IPS Jamal Sher, gerente do Cine Swat. “Temos quatro sessões diárias porque as pessoas estão ávidas por filmes”, disse. O Hospital Saidu, com 400 leitos, também teve de fechar, porque não havia médicos, enfermeiros e nem paramédicos dispostos a arriscar a vida indo trabalhar. “O Talibã ameaçou de morte as médicas e enfermeiras”, disse o administrador do hospital, Lal Noor. Depois que as forças do governo derrotaram o Talibã, o pessoal do hospital voltou ao seu trabalho e hoje recebemos 500 pessoas por dia, disse Noor.
O Talibã também ameaçou os lojistas para que não atendessem mulheres. Os estabelecimentos comerciais experimentam agora uma alta nas vendas. “Tínhamos de colocar cartazes dizendo ‘Não se aceita clientes mulheres’. Isso reduziu nossas vendas pela metade”, disse Sherin Gul, da Câmara de Comércio de Swat. “Somos 400 mil mulheres e estamos aliviadas”, afirmou Kashmala Zameer, de 26 anos. Os mercados estiveram desertos enquanto o Talibã dominou Swat. Hoje, estão repletos de gente, especialmente depois que o exercito suspendeu o toque de recolher, no dia 30 do mês passado. A televisão nacional divulgou um programa especial para todo o país desde Mingora no dia 14 de agosto, dia da independência, o que marcou o início da era pós-Talibã em Swat. Os moradores foram às ruas cantar e dançar a noite toda. “Estávamos sob tremenda pressão para adiarmos o espetáculo”, disse à IPS em Peshawar o gerente-geral da Televisão Paquistanesa, Majeedullah Khalil. “Temíamos que o Talibã enviasse suicidas com explosivos, mas fomos adiante com o programado e foi um grande sucesso. Mas, a incerteza não termina. “Cremos que o Talibã pode ressurgir. Muitos de nossos familiares ainda resistem a voltar para Swat porque temem o movimento”, disse Begum, a bailarina. IPS/Envolverde

