AMBIENTE-INDIA: Inundações em retrospectiva

Nova Déli, 20/10/2009 – “Passamos quase um dia inteiro desesperados, molhados e famintos. A casa e as ferramentas da fazenda, tudo flutuava, e nós olhávamos sem podermos fazer nada”, descreveu o indiano Ranja Angamutthu. Parte de uma família de três gerações de agricultores do distrito de Cudappah, no Estado de Andhra Pradesh, Angamutthu, é um entre dezenas de milhares de vitimas das devastadoras inundações causadas por uma profunda depressão atmosférica na baía de Bengala.

As chuvas fizeram estragos em Andhra Pradesh e no Estado de Karnataka, no começo deste mês. As perdas informadas pelos dois Estados em vidas humanas, comércio e agricultura são estimadas em 320 bilhões de rúpias, (US$ 6,937 milhões). Vastos setores de terras agrícolas ficaram alagados e houve prejuízo para a infraestrutura vital, como obras de irrigação, estradas e conexões elétricas e de comunicações. Algumas estimativas indicam que 150 mil hectares de terras agrícolas no norte de Karnataka ficaram totalmente submersas, enquanto aproximadamente 112 mil hectares tiveram o mesmo fim nos distritos de Kurnool, Guntur, Cuddapah e Mehboobnagar, em Andhra Pradeshk.

Plantações de algodão, arroz, milho, amendoim e legumes – sustento de milhões de agricultores – ficaram devastadas. Milhões ficaram sem casa, o que levou os governos estaduais a declarar “calamidade nacional”. Esta não foi a primeira vez que aÍndia sofre um desastre dessa magnitude. Na última década, um ciclone açoitou o Estado de Orissa em 1999, um terremoto atingiu o Estado de Gujarat em 2001 e uma tsunami afetou o sul do país em 2004 matando e deixando desabrigados milhões de pessoas.

Os meteorologistas dizem que os desastres naturais estão aumentando sua frequência devido à dinâmica mudança dos padrões climáticos, maior densidade populacional, urbanização não planejada, desmatamento e desertificação. Em uma entrevista à IPS, o pesquisador agrícola Prabhu Swaminathan disse que o rápido desmatamento é uma das principais causas das inundações na Índia. “As inundações ocorrem quando um rio ultrapassa sua capacidade máxima de transportar água”, explicou.

“Quando não há florestas, a água chega mais rapidamente aos rios, aumentando a possibilidade de inundações. O desmatamento indiscriminado aumenta asedimentação e erosão do solo e reduzi sua capacidade de suportar as pressões de uma população cada vez maior”, afirmou. Swaminathan acrescentou que quando já não há raízes de arvores para sustentar o solo este é arrastado pela chuva para os rios, engrossando os sedimentos dos canais fluviais. Assim, diminui drasticamente a capacidade dos rios de transportar água, o que os deixa mais propensos a transbordamentos. “Esta é uma das principais razões pelas quais em cada temporada de monções aumenta o risco de inundações na Ásia meridional”, acrescentou.

Segundo o Ministério de Recursos Hídricos, cerca de 60% da massa continental indiana são propensos a terremotos de variadas intensidades, enquanto aproximadamente 40 milhões de hectares são passíveis de inundações. A Índia conseguiu destacados avanços científicos na previsão e manejo de desastres. Porém, seus benefícios raramente se traduzem em prevenção de perda de vidas humanas e de propriedades.

Para os especialistas, o governo indiano carece de um enfoque integral e multidisciplinar, que leve em conta processos científicos, de engenharia e sociais, alem da necessidade de incorporar o conceito de redução de riscos nas estratégias para o desenvolvimento. Não é que a Índia não tenha uma estruturaorganizacional necessária para enfrentar as catástrofes. Existe o Marco Nacional de Desastres e também há um Comitê Nacional de Manejo de Crise e, ainda, um Grupo de Manejo de Crise. No plano estadual, existem grupos dedicados a esta tarefa e também um Fundo de Alívio de Calamidades.

Um alto funcionário da Comissão Central da Água, que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a falar com jornalistas, o Ministério de Recursos Hídricos emite previsões e alertas de inundações. “Mas, apesar disto, os pobres ainda são vitimas desses desastres, em razão de sistemas inadequados no âmbito local”, acrescentou. Na Índia, como no resto da Ásia meridional, as inundações continuam sendo uma ameaça. Um bom exemplo é o rio Meethi, perto de Mumbai, cujos depósitos de lama e transbordamentos que causam fazem com que em cada monção a cidade fique paralisada.

Práticas como práticas como eliminar regularmente o lodo, a areia e o mato das drenagens antes das monções são muito úteis para prevenir desastres. Outras medidas necessárias são os muros de contenção nos trechos mais vulneráveis dos rios. Além disso, se deveria desestimular a implantação de assentamentos humanos em áreas de captação de água e estimular a plantação de árvores. Também são necessários programas paraconscientizar e conseguir a participação da comunidade. Devem ser feitos exercícios regulares para ensinar ao público como evacuar edifícios, cidades e aldeias em pouco tempo. E as instituições locais devem ser treinadas em um melhor manejo hídrico, disse Swaminathan. IPS/Envolverde

Neeta Lal

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