AMBIENTE: Vítimas têm voz em tribunal sobre o clima

Bangcoc, 08/10/2009 – Shorbanu Khatun chegou à capital da Tailândia para relatar o sofrimento causado à sua comunidade pelo ciclone Aila, que em maio arrasou a costa de Bangladesh. “Não temos comida nem água potável”, contou Khatun, de 36 anos e mãe de quatro filhos, procurando conter as lágrimas. “Vim aqui para contar que não restou nada de nossa aldeia depois do ciclone”. Por essa razão, sua família foi obrigada a permanecer na intempérie durante quase cinco meses. “Nossa aldeia continua submersa”, acrescentou ao relatar as consequências do ciclone que matou mais de 200 pessoas e deixou mais de 500 mil sem ter onde morar na Índia e em Bangladesh.

Khatun foi apenas uma das inúmeras vítimas de desastres naturais que deram seu depoimento em uma simulação de julgamento, criada para compreender as consequências que tem o rápido aquecimento do planeta na vida de milhões de pessoas pobres na Ásia. O pescador filipino Pablo Rosales também testemunhou perante o tribunal internacional que tentou “analisar a responsabilidade das nações industrializadas no aquecimento global e as consequências” desse fenômeno.

O Tribunal Climático da População Asiática aconteceu no salão de jantar de um hotel próximo ao local onde representantes de países ricos e pobres mantém as últimas negociações antes da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que acontecerá de 7 a 18 de dezembro em Copenhague. A última instância de debate antes da conferência na capital dinamarquesa será em Barcelona, de 2 a 6 de novembro.

Na reunião de Copenhague a ideia é chegar a um novo acordo obrigatório sobre redução de emissões contaminantes que deve suceder o Protocolo de Kyoto, acordado em 1997 e em vigor desde 2005. Este instrumento obriga 37 países industrializados a reduzirem suas emissões de gases causadores do efeito estufa a níveis 5,2% inferiores aos de 1990, até 2012. Aproxima-se o vencimento do Protocolo de Kyoto e muitos países industriais ainda não cumpriram os objetivos de redução de emissões fixados para 2012. Além disso, os Estados Unidos negaram-se a ratificar esse convênio.

“A elevação do nível do mar nos causa muito sofrimento”, disse Rosales, de 50 anos, perante cerca de 500 ativistas e vitimas de desastres naturais que participaram do tribunal, na terça-feira. Por essa razão “temos menos pesca. Nossas fontes de água potável foram contaminadas e ficaram salgadas”, acrescentou. O processo, que aconteceu sob a direção de três juízes, um promotor e um advogado de defesa, faz parte de uma iniciativa promovida por organizações não-governamentais nacionais e internacionais e agências humanitárias para dar voz às pessoas mais pobres antes da conferência de Copenhague.

Estão sendo realizadas mais de cem audiências das quais “participam mais de meio milhão de pessoas em 17 países”, segundo a organização humanitária Oxfam, com sede na Grã-Bretanha, uma das principais promotoras desta iniciativa. “Esperamos que as audiências sirvam para que Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia entendam que a mudança climática afeta pessoas de carne e osso”, afirmou Shailendra Yashwant, diretor de campanha para o sudeste asiático da organização ambientalista Greenpeace. “Relatos como os de Khatun e Rosales são importantes para encaminhar o debate climático. No atual contexto das negociações não existe um espaço para as vitimas. Só há lugar para os burocratas”, disse Yashwant à IPS.

“O aquecimento global é um fato e uma injustiça para os pobres e os habitantes do Sul em desenvolvimento”, afirmou Absam bin Ahamed, em seu papel de testemunha especialista do tribunal, referindo-se à vulnerabilidade desses setores frente ao fenômeno. “A quantidade de desastres naturais e suas consequências se multiplicarão. Haverá escassez de água potável e a segurança alimentar estará ameaçada”, afirmou o cientista de Bangladesh que pesquisou sobre a vulnerabilidade climática para o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), o maior esforço científico dedicado a determinar os fundamentos deste fenômeno ambiental e suas perspectivas de médio e longo prazos, criado pela Organização das Nações Unidas.

O quarto informe de avaliação do IPCC, “Mudança Climática 2007: Impactos, adaptação e vulnerabilidade”, advertia para a gravidade de eventos meteorológicos extremos, como tempestades, inundações e secas, até o aumento do nível do mar, caso sejam mantidas as atuais emissões de gases de efeito estufa. Os riscos se fecham sobre o crescimento econômico e “a própria sobrevivência das populações mais vulneráveis”, diz o documento do IPCC.

Para milhões de pessoas pobres do mundo, um aumento de dois graus na temperatura global do planeta pode traduzir-se em um deslocamento contínuo, diz a secretária-executiva da Convenção sobre Mudança Climática. “Somente em 2008, mais de 20 milhões de pessoas tiveram que abandonar suas causas por causa de repentinos desastres climáticos. Estima-se que outros 200 milhões estarão na mesma situação até 2050”, acrescenta. Mas, conseguir que os países industrializados, e maiores emissores de gases de efeito estufa, ouçam e encontrem soluções, continua sendo uma tarefa titânica para os negociadores reunidos desde 28 de setembro – e até amanhã – em Bangcoc.

A discussão a portas fechadas do documento de 200 páginas reflete essa situação, segundo fontes próximas ao processo. “As nações ricas não ouvirão essas vozes porque teriam de assumir sua responsabilidade e adotar medidas para evitar outros desastres”, disse à IPS Saleemul Huq, de Bangladesh, um dos autores do informe do IPCC. “Os países pobres levam uma boa mensagem, mas suas vozes não são suficientemente fortes nestas sessões”, acrescentou. IPS/Envolverde

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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