INFÂNCIA-MALAWI: Miséria destrói a esperança das crianças

Limbe, Malawi, 13/11/2009 – Todas as manhãs, Thomson Genti, de 12 anos, e seu irmão Chifundo, de 7, saem, sujos e tristes, de seu mísero esconderijo, debaixo de marquises de comércios do povoado de Limbe, em Malawi. Assim começa uma jornada de mendicância, durante a qual apanharão de rapazes mais velhos e sofrerão insultos dos transeuntes. Mas este é apenas outro dia na vida dos irmãos Genti. Em busca de uma vida melhor viajaram com sua mãe desde sua casa em Nsanje, a cerca de cem quilômetros de Limbe.

Os irmãos começaram a pedir esmola nas ruas de Limbe muito antes da morte de sua mãe, uma mendiga cega, há dois anos. Cresceram aqui. Nunca foram à escola e, pelo visto, nada indica que no futuro terão essa opção. Os irmãos Genti ganham a vida graças ao seu engenho e à caridade de estranhos. Enquanto isso, o Departamento de Bem-estar Social regional é acusado de não fazer o suficiente para complementar a quantia que recebe por mês. O governo central entrega a esse organismo US$ 400 mensais, com os quais deve atender cerca de 40 mil crianças.

Se os irmãos Genti tivessem optado por voltar à sua casa em Nsanje após a morte de sua mãe, provavelmente não teriam uma vida melhor. O Ministério de Gênero, Infância e Desenvolvimento Comunitário tem três escritórios de bem-estar social nos 28 distritos de Malawi. Seu trabalho é velar pelas crianças que necessitam de educação. Também fornece roupa, alimento, teto e outros serviços. Em um país com mais de um milhão de menores de idade órfãos e vulneráveis, a importância desses escritórios é evidente. Mas estas dependências do Estado figuram entre as que recebem menos dinheiro.

No distrito de Nsanje, por exemplo, mais de 40 mil crianças precisam de ajuda, segundo os registros. O escritório local de bem-estar social recebe US$ 400 por mês do governo para pagar água, eletricidade, comprar artigos de papelaria e combustível para seu velho veículo e suas duas motocicletas. Mas isso não é tudo. Esse dinheiro também tem de dar para organizar atividades relativas ao bem-estar infantil, com funções sociais, clubes juvenis, serviços para conscientizar sobre a aids e de reabilitação em todo o distrito.

O escritório pediu ao governo US$ 21 mil para pagar as despesas escolares e atender as necessidades educacionais adicionais das crianças. Mas recebeu apenas um quarto da quantia. Assim, mais de uma centena interromperam os estudos. Cyrus Jeke, porta-voz do Ministério de Gênero, Infância e Desenvolvimento Comunitário, admitiu que os fundos destinados aos escritórios de bem-estar social não são suficientes. Mas acusou os escritórios locais de não tomarem a iniciativa para conseguir apoio em outras partes.

“Os escritórios são financiados diretamente pelo Tesouro, e como departamento estamos conscientes da escassez nesses órgãos do distrito, porque há muito trabalho por fazer. Mas os escritórios de bem-estar social também podem receber dinheiro de doadores”, disse Jeke. O escritório de Nsanje disse à IPS que enviou propostas a diferentes organizações, sem obter nenhuma resposta. “Falamos de um contexto cultural e social difícil”, disse o encarregado de bem-estar social do distrito, Richard Mzondola.

Nsanje não tem a sorte de outros distritos, onde várias organizações não-governamentais trabalham unicamente em questões de infância junto a esses órgãos. Isto se deve, em parte, à distancia da área, devido à má qualidade da rede viária. A isso se somam as temperaturas quentíssimas e os mosquitos, tudo o que faz de Nsanje um lugar difícil de se permanecer. Quase todos os anos em que Malawi recebe boas chuvas Nsanje sofre inundações. Em meados dos anos 80, foi lar para mais de 200 mil refugiados moçambicanos que fugiam de uma guerra civil. Eles superaram em número a população do distrito.

Nsajne é um lugar problemático. O escritório de bem-estar infantil informa aumento dos casos de exploração sexual, indigência e tráfico de crianças, mas não tem muitas possibilidades de combater esses fenômenos. “Com os poucos recursos que conseguimos, fica difícil dizer que estamos perto de ganhar a guerra contra os problemas da infância em Nsanje”, disse Mzondola. Neste distrito, a prevalência do HIV/aids é de 14%, o que se atribui a práticas culturais tradicionais, em particular sexuais. Gravidez, mortes, nascimentos e mesmo acidentes costumam ser acompanhados por ritos sexuais com os de iniciação ou os considerados “ferramentas de limpeza”. Por exemplo, no distrito há gente que ganha a vida como “limpadores sexuais”. As famílias os contratam para fazerem sexo com uma mulher cujo marido morreu, já que se acredita que após enviuvar a mulher fica impura. Esta prática é uma das principais causas de contagio do HIV/aids no distrito, o que levou o governo a tipificá-la como crime, segundo projeto de lei em análise. Mas até que seja aprovado, o costume continuará deixando órfãos um número cada vez maior de crianças em Nsanje, um dos distritos com maior mortalidade por aids.

Por isso nos últimos anos, segundo Mzondola, esse lugar sofreu um aumento das crianças que passam o tempo bebendo cerveja, em lojas de videogames e dormindo na imtempérie. A maioria tem entre 8 e 14 anos. O escritório de bem-estar social está sobrecarregado. “Estas crianças são nossa responsabilidade, mas temos menos recursos do que precisamos para lidar com a situação. Sem nenhuma outra organização trabalhando com crianças aqui. Isto significa que a responsabilidade recai totalmente sobre este escritório. Um ajuda significativa nos seria de grande valia. No momento estamos longe de poder cumprir a tarefa”, disse Mzondola. (IPS/Envolverde)

Charles Mpaka

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