PESCA-ZAMBIÂ: Doença ataca peixes no rio Zambeze

Lusaka, 13/11/2009 – Nas duas décadas em que navega pelo rio Zambeze, o pescador Darius Wamulume, de Zâmbia, nunca viu nada igual ao peixe decomposto, com profundas ulceras, que capturou este ano, que não pode vender nem comer. “A primeira vez que vi fiquei com medo até de tocá-lo. Nunca havia visto um peixe ao mesmo tempo podre e vivo na água. Seu aspecto me deixou horrorizado e desejei que fosse apenas um”, contou. Mas seu desejo não aconteceu. Wamulume não é o único pescador que pegou um peixe contaminado. Mais de 700 mil pessoas dependem do Zambeze para viver. Há anos, as comunidades pesqueiras observam uma redução de exemplares devido aos inadequados métodos de captura empregados.

Mas o surgimento da síndrome exulcerativo epizoótico (SUE), causada por um fungo, é uma nova ameaça que paira sobre este rio de 2.700 quilômetros que nasce em Zâmbia na fronteira com a República Democrática do Congo, entra em Angola e regressa ao território zambiano, onde é fronteira natural com Namíbia e Zimbábue, e segue até sua desembocadura no oceano Indico em Moçambique. Antes de surgir o SUE em Zâmbia, em 2008, Wamulume, pai de 10 filhos, ganhava mais de US$ 20 em um bom dia de pesca. Era rico neste país onde mais de 70% da população vivem com menos de um dólar por dia. Mas este ano a situação mudou.

Com a pesca já em queda, o problema da contaminação o impediu de mandar quatro filhos à escola secundária. Os três menores estão sob cuidados de parentes. Pela primeira vez na vida sua família “conheceu a fome”, lamentou. “No começo notei que teria de ir mais longe, em águas mais profundas para pescar. Além disso, os peixes são cada vez menores. Entendo que é pela pesca excessiva e por causa da mudança climática, mas essa doença é uma maldição”, afirmou.

Especulou-se que o SUE teria surgido por causa da temperatura mais alta da água, devido a mudanças ambientais. Foi observado pela primeira vez na Namíbia em 2006 e depois na bacia do Zambeze, onde surgiram peixes mortos e cerca de 20 variedades estiveram ameaçadas, entre elas a tilápia, alimento básico da população deste país. A doença também supõe uma ameaça para outros sete países da bacia: Angola, Botswana, Malawi, Moçambique, Namíbia, Tanzânia e Zimbábue, também membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

Mas, Zâmbia, onde o rio percorre um território maior, é o mais prejudicado pelo SUE. A alimentação de milhões de pessoas do vale do Zambeze está em perigo porque muitas comunidades rurais vivem da pesca, que também é uma fonte barata de proteínas, alertou a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). A pesca representa 2,8% da economia nacional e é o setor que gera mais emprego, depois da mineração, agricultura e exploração florestal.

A demanda por pescado há muito superou a oferta, segundo informe sobre o setor pesqueiro realizado pelo Centro Jesuíta de Reflexão Teológica. A produção ficou entre 80 mil e 85 mil toneladas ao ano entre 2000 e 207, muito abaixo do consumo estimado em 120 mil toneladas. O impacto devastador do SUE vai aumentar a brecha existente entre oferta e demanda, segundo esse documento, que reclama uma urgente intervenção do governo. Porém, a previsão não é boa. Primeiro, a pesquisa está limitada pelo pequeno orçamento dado à indústria da pesca. Funcionários do Ministério da Pesca disseram que várias vezes pediram fundos urgentes, mas nunca receberam. De fato, o orçamento caiu de US$ 1,9 milhão em 2008 para US$ 851 mil este ano. “É triste a maneira com se ignora a indústria da pesca apesar de seu grande potencial para combater a pobreza e a fome. Nunca há dinheiro suficiente para implementar políticas e leis que a protejam nem para mitigar as consequências da mudança climática”, afirmou Peter Mhango, funcionário aposentado do Ministério da Agricultura que tem um barco pesqueiro no Zambeze.

Além disso, controlar o SUE em grandes extensões de água, como rios, é praticamente impossível, afirmou o secretário permanente do Ministério da Pesca, Isaac Phiri. “Tentamos aplicar tratamentos, mas ainda não conseguimos. Como abarcar tanta quantidade de água?”, disse. “Se ocorresse na aquicultura seria muito mais fácil minimizar ou evitar a propagação porque é possível isolar o liquido para melhorar sua qualidade. Mas estamos falando da bacia do Zambeze”, ressaltou. O SUE é estacionário, costuma aparecer na temporada de chuva. Os pescadores devem ater-se a outro foco, alertou. Quando surgiu o primeiro pensou-se que o SUE aparecia quando os peixes nadavam nas águas profundas e frias, onde há menos oxigênio. “Mas é pura especulação. Agora pensamos que pode ter algo a ver com o aquecimento global, mas ainda é preciso investigar. Se nem mesmo podemos identificar a causa, como vamos esperar ter um tratamento”, ressaltou. É impossível erradicar a doença “agora que está em um ambiente natural”, afirmou o biólogo Bem van der Waal, do projeto de Gestão de Recursos Pesqueiros do sistema dos rios Zambeze-Chobe, quando o SUE surgiu em 2007. Vai demorar muitos anos para uma adaptação à doença e, enquanto isso, as perdas serão “descomunais”, alertou Waal, levando em conta o ocorrido na Ásia com o mesmo problema, onde demorou 20 anos para se sair do grau endêmico. Especialistas da SADC tentam criar programas para controlar a doença e mitigar suas consequências em função dos protocolos da comunidade sobre águas compartilhadas, explicoui Phiri. “Procuramos trabalhar com colegas da Namíbia e de outros países vizinhos afetados pelo SUE para encontrar soluções que contenham o impacto” da doença, acrescentou. Porém, a má situação da pesca se deve a outras razões, disse a veterinária Martha Ngumbo. “O SUE é apenas um dos problemas”, acrescentou Ngumbo. “Mais graves são o esgotamento do recurso, as práticas ruins, a mudança climática e o descumprimento das leis que regem a pesca”, explicou. “Temos de mudar o foco. Esperemos que a doença passe, mas enquanto isso vamos buscar outras alternativas de pesca”, disse a veterinária. Com um recurso natural tão importante, este país “pode se converter em um enorme exportador de pescado. Temos de aproveitá-lo”, insistiu Ngumbo, que propôs aumentar o investimento em aquicultura, reforçar a infraestrutura comercial para atender a demanda local, melhorar as técnicas de pesca artesnanal do cultivo e construir tanques. Wamulume afirma que os pescadores com ele deveriam receber empréstimos ou créditos para construírem tanques e sobreviverem durante a proibição que deve ser decretada. “Não posso esperar até que se encontre uma solução. Preciso comer agora e meus filhos têm de ir à escola agora”, afirmou. (IPS/Envolverde)

* Este artigo é parte integrante de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Zarina Geloo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *