ZÂMBIA: Pescar em áuas agitadas

LUSAKA, 10/11/2009 – Em duas décadas de pesca no Zambeze, Darius Wamulume nunca viu nada assim. Apresentando lesões profundas e tecidos decompostos, o peixe que apanhou recentemente é muito pouco apetitoso e o seu consumo é duvidoso. “A primeira vez que vi este peixe até tive medo de tocar nele; nunca tinha visto peixe a apodrecer equanto ainda estava vivo na água. Tive medo da sua aparência e rezei para que fosse a última vez que via tal coisa.”

Não foi.

Wamalume não é o único pescador a apanhar peixe contaminado. Mais de 700.000 pessoas dependem do Zambeze para seu sustento. As comunidades piscatórias ao longo do rio assistiram ao esgotamento das populações de peixes ao longo dos anos devido a métodos de pesca errados, mas o aparecimento de uma doença mortal causada por um fungo, o síndroma ulceroso epizoótico (SUE), é uma nova ameaça para a vida ao longo deste rio com 2.700 quilómetros.

Wamalume, pai de dez filhos, ganhava perto de 20 dólares num bom dia antes do SUE aparecer na Zâmbia, em 2008. Num país onde mais de 70 por cento da população vive com menos de um dólar por dia, era rico.

A situação mudou este ano. Com as populações de peixes a diminuirem, a contaminação levou-o a não ganhar o suficiente para enviar quatro filhos para a escola secundária. Mandou os três filhos mais novos para casa de familiares para que estes tomassem conta deles. Pela primeira vez na vida, a família “aprendeu o que era a fome”,

“Primeiro, notei que tinha de ir mais longe e mais fundo na água para apanhar peixe. Os peixes começaram a ficar mais pequenos; compreendi que o excesso de pesca e as mudanças climáticas são a causa desta situação, mas esta (doença) é uma maldição.”

Síndroma ulceroso epizoótico

Acredita-se que o SUE é causado por águas mais quentes devido a mudanças climáticas. Foi visto pela primeira vez na Namíbia em 2006 e, desde então, tem estado a infiltrar-se na bacia do rio Zambeze, matando os peixes e ameaçando dizimar 20 variedades de peixe, incluindo a tilapia, alimento básico na Zâmbia. A doença também constitui uma ameaça noutros sete países da SADC que partilham a mesma bacia, como Angola, Namíbia, Botswana, Zimbabwe, Tanzânia, Malawi e Moçambique.

A Zâmbia, onde estão localizados dois terços da bacia do rio Zambeze, é o país mais afectado pelo SUE. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) já avisou que milhões de pessoas que vivem no vale do rio Zambeze se encontram em risco de insegurança alimentar, visto que o peixe não só é a única fonte de rendimento em muitos distritos rurais, mas também a fonte proteica mais barata.

O sector das pescas contribui 3.8 por cento para a economia nacional, sendo o quarto maior empregador na Zâmbia, depois dos sectores da exploração mineira, agricultura e recursos florestais.

De acordo com um relatório recente sobre o sector das pescas publicado pelo Centro Jesuíta para Pesquisa Teológica (JCTR), a procura de peixe há muito que ultrapassou a oferta. A produção anual de peixe entre 2000 e 2007 variou entre 80.000 e 85.000 toneladas métricas, muito abaixo da procura anual nacional, estimada em 120.000 toneladas métricas por ano.

O relatório afirma que o impacto devastador do SUE vai aumentar ainda mais o fosso entre a oferta e procura e pede uma intervenção urgente por parte do governo.

Resposta limitada

O prognóstico não é bom. Em primeiro lugar, a pesquisa é dificultada pela pequena dotação orçamental concedida à indústria da pesca. Funcionários do departamento de pescas afirmam que, apesar dos seus repetidos e urgentes pedidos de financiamento adequado, isso não tem acontecido. As dotações atribuídas ao departamento de pescas foram reduzidas de 1.9 milhões de dólares em 2008 para 851.000 dólares em 2009.

“A indústria pesqueira, apesar do seu enorme potencial para superar a pobreza e fome, é infelizmente ignorada. Nunca há dinheiro suficiente para fazer aplicar políticas e legislação destinadas à protecção das populações de peixes, nem vai existir dinheiro para mitigar os efeitos das mudanças climáticas,” afirmou Peter Mhango, funcionário do Ministério da Agricultura que se reformou recentemente, e que agora opera um barco de pesca no rio Zambeze, na província do Noroeste da Zâmbia.

Isaac Phiri, professor no campo da pecuária e Secretário Permanente no Ministério das Pescas, tem notícias ainda mais deprimentes. Diz que controlar o SUE em águas naturais, como os rios, é quase impossível.

“Tentámos fazer experiências com tratamentos, mas mesmo se encontarmos o tratamento apropriado para este problema, como é que vamos aplicá-lo nesta massa de água tão grande? Se se tratassem de operações de piscicultura, seria mais simples minimizar ou impedir o seu alastramento porque, nesse caso, poderia reduzir-se o volume de água e melhorar a sua qualidade, mas aqui estamos a falar da bacia do Zambeze.”

Acrescentou que o SUE é sazonal, ocorrendo normalmente na época das chuvas e, portanto, os pescadores devem preparar-se para uma nova ronda desta epidemia. Os cientistas não conseguiram definir exactamente o que causa o fungo nas águas. Quando o primeiro surto surgiu, pensou-se que o SUE se formava no tempo frio, altura em que o peixe se desloca para águas mais profundas, onde existe menos oxigénio.

“Mas isto é especulação; pensamos agora que é resultado do aquecimento global, mas ainda temos de verificar se é assim. Se nem sequer conseguimos identificar a causa, como é que podemos contar com um tratamento?”

Quando o SUE apareceu em 2007, Ben van der Waal, um biólogo marinho do Projecto de Gestão Integrada dos Recursos Piscatórios do rio Zambeze / Chobe, afirmou que a eliminação da doença era impossível “agora que estava num ambiente natural.”

Avisou que iria levar muitos anos para que houvesse uma adaptação à doença e que, entretanto, as perdas de peixe seriam “colossais”, avançando o exemplo da Ásia, onde decorreram cerca de 20 anos antes do surto baixar para níveis endémicos.

Reduzir o impacto

Phiri explica que os peritos da região da SADC estão a tentar formular programas de monitoria da doença e mitigar o seu impacto, em conformidade com os protocolos da SADC sobre águas partilhadas.

“Estamos a trabalhar com os nossos colegas na Namibia e países vizinhos afectados pelo SUE no sentido de encontrar soluções ou pelo menos mitigar o impacto.”

Uma investigadora no campo da veterinária, Martha Ngumbo, afirma que existem outras razões para uma indústria das pescas em declínio.

“O SUE constitui apenas um dos (problemas). Temos problemas mais graces como excesso de pesca, más praticas, mudanças climáticas e a impossibilidade de fazer aplicar a legislação que controla as pescas. Precisamos de mudar de foco. Vamos esperar que a doença desapareça e, entretanto, temos de encontrar formas alternativas de pescar.”

Ela explicou que 15 milhões de hectares na Zambia estão cobertos por lagos, rios, pântanos e riachos, e que o país é responsável por mais de 45 por cento de todos os recursos hidrícos da SADC.

Com um recurso natural tão grande, Ngumbo sugere que se deve aumentar o investimento na aquacultura, reforçando a infra-estrutura de marketing de forma a satisfazer a procura de peixe a nível local, e melhorando as capacidades técnicas dos pescadores que usam metódos de pesca artesanais, especialmente em áreas como aquacultura e construção de reservatórios para peixe. “A Zâmbia tem o potencial para se tornar um enorme exportador de peixe. Temos de desenvolver esta capacidade.”

Wamalume afirma que os pescadores como ele deviam ter acesso a empréstimos, subsídios ou crédito, permitindo-lhes construir reservatórios de peixe e sobreviver durante os períodos de proibição da pesca que se prevê que ocorram no futuro.

“Não posso esperar até que se encontre um solução para esta doença. Preciso de comer agora, os meus filhos precisam de ser educados agora.”

*Esta artigo faz parte de uma série de reportagens sobre desenvolvimento sustentável feitas pela IPS – Inter Press Service e IFEJ – Federação Internacional de Jornalistas do Meio Ambiente, para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Zarina Geloo

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