AMBIENTE-EL SALVADOR: A natureza cobra seu preço

San Salvador, 11/11/2009 – Cruz Ayala, de 55 anos, chora a morte de sua mãe, Catalina Ayala, de 71 anos, e de sua sobrinha Carolina, de 15, nos arredores da igreja do povoado de Verapaz, no departamento salvadorenho de San Vicente. As chuvas da madrugada do último domingo provocaram um deslizamento de lama e pedras que sepultou parcialmente o povoado. Outra sobrinha de Ayala, Evelyn, de 14 anos, está entre a dezenas de pessoas dadas como desaparecidas. Éramos “cerca de 20 pessoas em cima de um telhado, acreditávamos que seríamos evacuados quando ouvimos os gritos, mas, eram gritos das pessoas levadas pela corrente que nos pediam ajuda e não podíamos ajudar”, disse Cruz , chorando, à IPS.

Outros cinco cadáveres jazem na igreja, envolto em cobertores sujos de lama. No total morreram 12 pessoas em Verapaz, mas em todo o país o número chega a 124 mortos, sobretudo nos departamentos mais afetados pelas chuvas: San Vicente, San Salvador, La Paz, La Libertad e Cuscatlán, no centro e sul do país, na costa do oceano Pacífico. Há 1.570 casas danificadas, mais de 60 desaparecidos e 7.500 desabrigados. O que aconteceu no domingo foi a maior catástrofe vivida por este pequeno país centro-americano desde os terremotos de janeiro e fevereiro de 2001.

A magnitude dos danos materiais e econômicos ainda não foi contabilizada. As chuvas foram produto de um sistema de baixa pressão atmosférica no Pacífico vinculado à tempestade tropical Ida, que está causando instabilidade em extensas zonas do mar do Caribe e do Golfo do México, do lado do Atlântico. O presidente Mauricio Funes disse em rede nacional de rádio e televisão, no domingo à noite, que a catástrofe é a conjugação da vulnerabilidade do país com a precariedade em que vive a população salvadorenha.

“O drama que vimos é produto da precariedade em que estão amplas zonas do país por falta de áreas de mitigação e prevenção de riscos que há anos são exigidas mas nunca realizadas”, disse Funes, em referência aos governos que o antecederam, conduzidos pela direitista Aliança Republicana Nacionalista (Arena), derrotada nas eleições de março. Funes tomou posse em junho como primeiro presidente de esquerda de El Salvador, após a vitória da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional. “É uma história que se repete a cada inverno, mas que tem de ter um ponto final, de uma vez por todas”, acrescentou Funes. O mandatário decretou estado de emergência para mobilizar os recursos do Estado em ajuda às vitimas e aos trabalhos de reparação.

O ambientalista Angel Ibarra, presidente da Unidade Ecológica Salvadorenha (Unes), afirmou que, segundo estudos do Banco Mundial, 90% do território de El Salvador estão em níveis de vulnerabilidade entre moderado e leve. Ibarra afirmou que o efeito dos desastres naturais se magnífica porque há uma grave deterioração ambiental, e não existem políticas para ajudar a superar a pobreza e a exclusão social, de modo que quase sempre as vítimas são pobres que vivem perigosamente em moradias precárias à margem de rios ou ao pé de morros. Tampouco existe uma correta prevenção dos desastres, e sempre se age depois. “Os problemas nos atingem como se fosse a primeira vez. Aqui temos uma política de ‘levanta-mortos’, não agimos enquanto as coisas não acontecem”, acrescentou.

El Salvador sofre constantes desastres naturais, após os quais aparecem informes e estudos assinalando a necessidade de melhorar, por exemplo, um sistema de alerta. Mas esse sistema quase nunca funciona quando é necessário. “Também temos, além da vulnerabilidade sócio-ambiental, a vulnerabilidade institucional”, acrescentou Ibarra, em alusão à pouca coordenação que há entre diversas instâncias estatais. As previsões meteorológicas avisavam desde a quarta-feira anterior que haveria fortes chuvas no último final de semana, e o governo decretou “alerta verde”. Mas o “alerta laranja” não foi adotado até a manhã do domingo, quando já se informava sobre mortos em várias partes do país.

O Serviço Nacional de Estudos Territoriais, escritório do governo que produz os relatórios sobre clima, havia previsto chuvas de cem milímetros. Mas na madrugada de domingo caíram 355 milímetros em apenas quatro horas, e o aguaceiro foi comparavelmente mais forte do que o produzido em 1998 pelo furacão Match, cujos níveis de chuva atingiram os 400 milímetros em quatro dias.

Um informe da Mesa Permanente para a Gestão de Riscos, datado de maio, diz que 75% do país estão expostos a algum tipo de ameaça natural, e acrescenta: “Nos últimos 20 anos, El Salvador registrou 12 desastres de grande magnitude, que significaram mais de 4.332 mortes, 2.760.659 desabrigados e US$ 3,953 bilhões em prejuízos. A população mais afetada foram as mulheres e as meninas, devido às condições de vulnerabilidade”.

Ricardo Navarro, diretor do Centro Salvadorenho de Tecnologia Apropriada, diz que El Salvador fica mais vulnerável no social do que no ambiental porque “no país predomina o interesse econômico, e não o social nem o ambiental”, disse à IPS. “O que temos são as consequências da destruição de florestas para dar espaço a mais urbanização e até para construir campos de golfe. Agora, a natureza está nos entregando a conta”, disse Navarro.

Tanto Navarro quanto Ibarra criticaram, em separado, o fato de o governo ter baixado substancialmente o orçamento para o Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais, quando o necessário era fortalecê-lo, o que passa por injetar-lhe mais recursos financeiros. “Isso significa que nem este governo está apostando no ambiental”, disse Navarro. (IPS/Envolverde)

Edgardo Ayala

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