DESTAQUES: Fazendas de esponjas no oceano

CARAHATAS, Cuba, 24/11/2009 – (Tierramérica).- Em uma aldeia cubana castigada pela agitação das ondas e dependente de uma pesca cada vez mais escassa, a criação de esponjas desponta como alternativa de renda e desenvolvimento.

Neldys Vivero afirma que haverá trabalho para as mulheres - Patricia Grogg/IPS

Neldys Vivero afirma que haverá trabalho para as mulheres - Patricia Grogg/IPS

O mar castiga Carahatas cada vez que um furacão passa pela região. As águas se juntam com as de um rio próximo, sobem metro e meio, ou mais, pelas paredes das casas e levam até as lembranças. Porém, os moradores deste povoado cubano o amam desmesuradamente. “Quando estou vários dias sem ver o mar, me altero. Se vem um ciclone e derruba esta casa, enquanto restar uma parede e eu puder colocar nem que seja uma barraca, aqui ficarei. E como eu, muitos outros”, disse ao Terramérica Neldys Vivero, de 50 anos, nascida nesta localidade pesqueira da costa nordeste, na província central de Villa Clara.

Em 1985, o Furacão Kate deixou sem casa seus pais e muitos outros habitantes de Carahatas, que foram levados para Lutgardita, comunidade construída a cerca de quatro quilômetros. “Agora vou vê-los e não posso ficar mais do que 20 minutos, é tão pequeno, não é feito para mim”, afirma. Para Estrella Machado, de 88 anos, a razão de tanta paixão pelo mar é simples. “É o que mais há. Pelo menos em trabalho, o que mais há é a pesca”, afirma. “Única pescadora” da comunidade até 1985, quando deixou de trabalhar, esta senhora assegura que “antes havia mais peixes”.

Vivero constata o mesmo. Começou a pescar ainda criança com Machado e seu marido. “Recordo que carregávamos entre os três um cesto com 40, 50 e até 70 livras (18, 23 e 32 quilos) de pargo (Pagrus pagrus). Hoje, você encontra no máximo cinco ou seis pargos em um cesto”, disse. A maioria das 300 famílias de Carahatas conhece algumas das causas dessa redução da vida marinha. “Os chinchorros (redes de arrasto) acabam com os filhotes. Nunca as usamos; pescávamos com cesto ou com pita (fios) e anzóis”, afirma Machado.

Segundo Vivero, esse tipo de pesca, de impacto negativo na vegetação marinha e nas espécies (por capturar exemplares jovens) foi introduzido na região na década de 70. “Não tínhamos uma visão clara do dano que estávamos causando”, assegura. Líder natural da comunidade, e reeleita várias vezes delegada do Poder Popular de uma das duas circunscrições da localidade, Vivero afirma que a maioria dos pescadores reconhece o efeito agressivo da pesca de arrasto, atualmente regulada, embora continue sendo usada em águas mais profundas.

Em épocas de piracema, este tipo de pesca é utilizado para capturar os peixes que se agrupam em canais e entre plantas marinhas para emigrarem em cardume até os locais de desova. O resultado é que isso impede a reprodução comprometendo as produções pesqueiras futuras, explicam os especialistas. Porém, esse não é o único problema de Carahatas, vizinha do Refúgio de Fauna Las Picuás-Cayo Cristo, uma área protegida de 40.250 hectares marinhos e 15.720 hectares terrestres.

Os resíduos líquidos e sólidos que a população joga ao longo da costa, bem como o desmatamento, também afetam o habitat marinho e figuram entre os assuntos a serem corrigidos listados por um projeto financiado pelo Programa de Pequenas Doações do Fundo para o Meio Ambiente Mundial. Canalizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o projeto para o “Uso alternativo dos recursos naturais na comunidade costeira de Carahatas” apresenta, entre outras propostas, o cultivo de esponjas como opção de trabalho para os pescadores decididos a abandonar a pesca de arrasto.

Felisberto Rodríguez, de 45 anos, primeiro a se convencer dos benefícios dessa alternativa, conta que os pescadores locais nunca pensaram que a esponja pudesse ser cultivada, mas agora que viram os primeiros resultados, esperam apenas que aumentem as fazendas para se integrarem ao plano. Rodríguez trabalhou na semeadura experimental de dois hectares na iniciativa a cargo de Angel Quirós, especialista do grupo de Ecologia Marinha do governamental Centro de Estudos e Serviços Ambientais (Cesam) de Santa Clara, a 276 quilômetros de Havana.

O plano agora é cultivar 12 hectares que em um ano renderão uma tonelada de esponjas, que tem cotação de mais de US$ 15 mil no mercado internacional. Segundo os cálculos de Quirós, a região tem potencial para 15 fazendas, atendidas, cada uma, por duas pessoas. “Já tenho semeadas três áreas de cem metros quadrados cada uma. O próprio mar fornece a semente. Cada esponja pode ser desfeita em até 30 pedaços e isso deve ser feito na água. Gosto de estar nos fundos marinhos. O crescimento é lento, mas quando começarem as colheitas todos verão o resultado”, afirma Rodríguez.

Quirós defende este cultivo como uma alternativa sustentável, barata e amigável com o meio ambiente, pois não contamina, nem altera o habitat e tampouco cria desperdícios, nem sofre o impacto da mudança climática. Além disso, assegura que estes invertebrados têm um mercado seguro, principalmente na Europa. “As esponjas permanecem submersas independente de subir ou baixar o nível do mar. Como são criadas em áreas de muita circulação de água, também não são afetadas pelas oscilações de temperatura. Além disso, as fazendas criam refúgios para organismos pequenos e exemplares juvenis de organismos grandes”, afirma o biólogo marinho.

Vivero admite que no começo essa ideia não lhe causou “tanto impacto”. Agora se mostra convencida de que a região costeira de Carahatas “é muito propícia, com muitos lugares bons para esse cultivo”, que darão emprego a um grupo considerável de homens e mulheres “O interesse aumentará na medida em que se avançar e começar a comercialização”, acrescenta. Com produção estável, o processo industrial da esponja marinha passa a ser uma boa fonte de emprego feminino. Das mulheres do local, 67% trabalham em suas casas e, delas, “35% ou 36% estão pedindo emprego”, afirmou.

A iniciativa, coordenada por María Elena Perdomo, do Cesam, incluiu painéis de educação ambiental, reflorestamento e proposta para reduzir as descargas contaminantes, como instalação de um lixão nos arredores do povoado. Também inclui um guia para o cultivo de esponjas marinhas e um manual de boas práticas ambientais em áreas costeiras. “Conseguiu-se que as pessoas entendessem a importância de cuidar dos recursos e como usá-los melhor. Também nos deu muita informação. Agora, a gente se sente dona do que está fazendo”, resume Vivero.

* A autora é correspondente da IPS.

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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