GUAPINOL, Honduras, 24/11/2009 – (Tierramérica).- Apesar da crise política que sacode Honduras desde o golpe de Estado de 28 de junho, mulheres da costa sul lutam com unhas e dentes para recuperar a natureza.
Por isso é um local protegido dentro das sete zonas costeiras de 69.711 hectares que formam a porção hondurenha do Golfo de Fonseca, fronteira marítima compartilhada com Nicarágua e El Salvador, que é parte do Corredor Biológico, uma conexão de ecossistemas naturais dos sete países da América Central e o sul do México.
O sistema de mangues do sul de Honduras está compreendido na Convenção de Ramsar (assinada em 1971 e em vigor desde 1975), e nele predominam várias espécies de mangue. Contudo, estas terras úmidas estão em risco devido à deterioração e aos resíduos químicos do cultivo de cana-de-açúcar e à criação de camarão. Isto levou os paupérrimos moradores de Guapinol a tentar o resgate do mangue e a preservação dos recursos marinhos que sempre foram seu sustento.
Guapinol, de 2.768 habitantes, foi uma das áreas mais devastadas pelo Furacão Mitch, que em 1998 deixou vários milhares de mortos e milhares de milhões de dólares em perdas na América Central. Os moradores das quatro vilas, que se estendem na faixa costeira, suportam uma severa redução da pesca artesanal e estão entre os mais pobres deste país.
Honduras tinha, em 2007, 68,9% de pobreza e 45,6% de indigência, segundo o informe regional divulgado este mês pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). “Há cerca de dez anos, a pesca dava para alimentar mais ou menos a família e o mar era rico em espécies. Mas agora as coisas mudaram. O fogão da minha cozinha quase sempre está apagado, não tem comida”, disse ao Terramérica o pescador Heráclito Saavedra, de 52 anos. Todos os dias, Saavedra precisa caminhar dois quilômetros para ordenhar vacas, em troca de um litro de leite para alimentar sua família, de oito pessoas.
Em Guapinol, apenas um em cada 20 jovens consegue fazer o curso secundário. Suas casas carecem de latrinas, e as doenças respiratórias e a dengue são frequentes, conta Saavedra. Com outros grupos organizados locais, Saavedra participou de uma campanha de limpeza e reciclagem ao longo dos 15 quilômetros que separam sua comunidade da região de Monjarás, outro local costeiro de Marcovia, a três horas de Tegucigalpa.
“Queremos mostrar às pessoas que não se pode viver no lixo. Incentivamos muitas ações de capacitação ambiental, porque se não cuidarmos de nossos recursos e nossas casas, o mar engolirá a comunidade com suas ondas”, disse preocupada Isabel Quiroz, promotora do grupo feminino El Jordan. As 22 mulheres, com idades entre 19 e 45 anos, que integram esse grupo, são um exemplo de tenacidade e dignidade.
Há dois anos começaram a recuperar com as próprias mãos 15 hectares de mangue. “Reflorestamos e recuperamos espécies como o camarão titi (Protrachypene precipua), e semeamos os moluscos bivalvos piangua (Anadara tuberculosa) e bacucu (Mytella guyanensis)”, disse ao Terramérica Wendy Reyes, de 22 anos, nova presidente do El Jordan. As mulheres dessa organização e os moradores de Brisas do Sul e El Venado, duas vilas de Guapinol, são apoiados pelo Programa de Pequenas Doações (PPD) do Fundo para a Mudança Climática Mundial, coordenado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
“Antes, quando cruzávamos a nado para ir limpar o mangue, as pessoas diziam: lá vão as loucas de El Jordan. Agora que o PPD nos doou uma lancha a motor e ajudou a construir a sede da nossa cooperativa, as pessoas nos olham e comentam: vejam essas mulheres, agora se superaram”, conta Reyes com orgulho. Ela se conscientizou para o problema quando o Furacão Mitch deixou Guapinol semidestruída, e ninguém quer que a história se repita, contam as mulheres. Em El Venado, pescadores e pescadoras constroem um hotel rústico para incentivar o ecoturismo, além de um criadouro para proteger as tartarugas marinhas e preservar o habitat de milhares de aves ameaçadas.
Entre setembro e outubro, os moradores de El Venado soltaram mais de cinco mil tartarugas pequenas (Lepidochelys olivacea). Uma em cada cem retorna à praia de origem, em um período médio de 15 anos, explicam. Sua desova é um dos espetáculos mais impressionantes do litoral sul de Honduras. Na vila, desde o amanhecer até o pôr do sol, sulcam o céu pássaros carpinteiros (família Picidae), gaivotas (Laridae) e tuiuiús ou jabirus (Jabiru mycteria). “Muitas destas aves estão em risco de desaparecer e só podem ser encontradas nas regiões do sul de Honduras”, disse ao Terramérica o biólogo Carlos Cerrato, presidente do comitê diretor do PPD.
Para receber ajuda do PPD, uma comunidade hondurenha “deve colaborar na elaboração de sua proposta, cumprir o compromisso de não corrupção e ter vontade de defender o meio ambiente, que é nossa orientação principal”, explica Cerrato. Quiroz, de 48 anos, expressa sua alegria com a voz entrecortada. “Embora sejamos pobres, vamos cuidar destas florestas de mangue porque são nossa vida. Queremos que nossos filhos conheçam as tartarugas, as aves e as riquezas do mar, para que não saibam sobre elas apenas nos documentários”, afirmou.
* A autora é correspondente da IPS.


