MULHERES-COLÔMBIA: terra e dignidade se recuperam juntas

Natagaima, Colômbia, 11/11/2009 – Mulheres camponesas e indígenas colombianas no sul do departamento de Tolima dão uma ajuda à inóspita terra que as rodeia para recuperar, ao mesmo tempo, seu ecossistema e sua dignidade, em um esforço conjunto que mudou seu entorno e suas vidas.

 - Helda Martínez/IPS

- Helda Martínez/IPS

Mãos de Mulher é o nome da organização não-governamental que desde 2001 opera em Natagaima, uma localidade situada 114 quilômetros ao sul de Ibagué, capital do departamento, e onde 900 mulheres da comunidade pijao cultivam a terra usando sementes amigáveis com o ecossistema e sem aplicar agroquímicos.

“Há nove anos, a terra ao redor da minha propriedade era amarelada. Via-se apenas uma ou outra arvorezinha solitária”, recordou à IPS Claudina Loaiza, que participa do projeto desde seu início.

O projeto se desenvolve em 56 veredas (vilas rurais), municipalidades e reservas indígenas pijaos que formam seis municípios, com sede em Natagaima, 225 quilômetros a sudoeste de Bogotá.

A chamada região pijao é o habitat ao qual se viu reduzido este povo ameríndio que antes se espalhava por diferentes áreas do país. Além disso, o compartilha com moradores brancos e mestiços e, de fato, apenas parte das camponesas do projeto é de indígenas.

É um território que faz divisa com um vizinho invasor, o deserto de La Tatacoa, onde alguma vez houve uma grande floresta tropical, que Mãos de Mulher colabora para regenerar com variadas ações, a fim de deter o avanço do deserto e fazê-lo retroceder.

“Quando me afastei do pai dos meus filhos, por causa de seus vícios de beberrão e mulherengo, comecei minha horta caseira que me deu força”, assegura Loaiza com brilho nos olhos enquanto apresenta sua filha e uma sobrinha, que também trabalham na consolidação dos cultivos.

“Sou das que preferem estar sozinhas do que mal acompanhadas de um homem”, continuou Loaiza antes de descrever como cercou sua horta de um hectare com 144 metros com arame.

“Sentia, e continuo sentindo, muito orgulho porque plantávamos feijão, melão, banana, mandioca, milho, verduras… de tudo… e sem usar veneno, só o adubo que preparamos para fertilizar e recuperar a terra”, explicou.

“No verão (época seca no trópico) racionávamos a água e regávamos aos poucos, assim conseguimos belos melões”, disse, antes de se definir e pedir para ser definida como camponesa indígena. E continuou com vivacidade detalhando como, por exemplo, aprendeu a usar fezes de gado como adubo e a folha de mandioca e da bananeira para manter a umidade.

“Com a enxada confirmávamos que a terra estava úmida onde jogávamos adubo orgânico. Alegrava-nos e surpreendia. Comprovávamos também que onde havia lixo, mesmo quando chovia, a terra se mantinha seca”, recordou.

Loaiza é apenas um exemplo do entusiasmo que sentem muitas das integrantes da Mãos de Mulher pelas mudanças que causaram na terra e em sua produção, em um processo do qual no total até agora participaram 1.100 camponesas.

Por trás das mulheres há um homem

Em Natagaima, também mora Javier Múnera, gestor e coordenador da Mãos de Mulher, um economista que prefere ser reconhecido como ativista da seca. Múnera chegou à região para desenvolver um aqueduto em Coyaima, em uma época de seca devido ao fenômeno El Nino, em 1998.

Contava com recursos da organização não-governamental América Espanha, Solidariedade e Cooperação (Aesco), dirigida por Yolanda Villavicencio, colombo-equatoriana com ancestrais na região.

Villavicencio sabia da falta de água potável em sua região, por isso lutou por recursos para a construção de um aqueduto, graças ao qual conseguiu a cidadania espanhola em 1994. Desde 2008 é deputada pela regional Assembléia de Madri, na Espanha.

A gestão de Villavicencio e a ação de Múnera tornaram possível o aqueduto com economia em materiais equivalente a US$ 10.500 no câmbio atual, que “se converteram em diárias para 400 famílias”, recordou o ativista à IPS. Aquele projeto foi a semente que germinou pela Mãos de Mulher, que partiu do reconhecimento da importância de deter a erosão desde La Tatacoa, no limite de Tolima e no departamento sulino de Huila.

“Um deserto construído por seres humanos. Nos últimos cinco mil anos foi floresta seca tropical, com árvores de até 15 metros de altura”, explicou Múnera. “Não há deserto em La Tatacoa. É uma zona xerofítica muito seca e em acelerado processo de erosão com grandes sistemas de fossos”, insistiu.

De fato, após a conquista espanhola, foram formadas na região fazendas de gado da ordem católica dos jesuítas. “Nada mais depredador do que a pecuária, empurrando os colonos selva adentro”, afirmou Múnera, que antes trabalhou na questão no departamento amazônico de Caquetá, no sudeste do país. Por essa razão, ele insiste em demonstrar o perigo da região imediatamente próxima a La Tatacoa, com extensão total de 330 quilômetros quadrados e crescimento anual de 1,5%.

Enquanto o fenômeno avança, Múnera sonha com dia em que se conseguirá “ter de volta a floresta em troca desta área desertificada” e o tamanho de seu desejo o faz sentir que o obtido em quase uma década de esforço é pouco. “Semeamos cerca de 600 mil árvores, mas, junto com o ambientalista Mario Mejía calculamos que são necessários 16 milhões para deter o avanço do deserto desde o sul de Natagaima, até Guamo na parte norte, passando Coyaima, Ortega, sul de Chaparral, oeste de Alpujarra, Dolores, Prado e Purificación”, descreveu Múnera.

Mas em Natagaima esses números não relativizam o compromisso das mulheres, para as quais vale mais o conhecimento adquirido e as melhorias concretas em seu entorno e em suas vidas. No dia em que a IPS acompanhou as atividades de uma dezena delas, não pararam de trocar conceitos e dados sobre agricultura e ecologias.

Mesmo assim, não faltam problemas. As hortas oscilam entre um, meio ou um quarto de hectare, o que representa grandes esforços em pequenas áreas, enquanto o governo está praticamente ausente da iniciativa até agora e não há sinais de que isso se modificará.

Na hora dos resultados que transcendem a produção, Múnera recordou com nostalgia Aracelly Botache, uma das pioneiras do projeto e uma líder nata, já falecida, que pouco depois de começar a funcionar a semeadura lhe disse convencida: “Aqui o clima mudou”. E estava certa, a plantação de árvores diminuiu a temperatura, em uma região onde oscila entre 30 e 40 graus centígrados.

Aos avanços para o meio ambiente soma-se a autoafirmação feminina. “Temas duros”, disse Múnera, enquanto citava casos como o de “uma senhora que nos contou como o marido lhe batia todos os sábados depois de tomar chicha”, uma bebida de milho fermentado de origem indígena.

“Disse-nos que quando o homem tomava o primeiro gole, ela já sentia a dor do golpe que receberia mais tarde. Até que um dia, já sendo sócia da Mãos de Mulher, pensou: quem poderá mais, o bêbado ou eu, sóbria”, disse Múnera.

“Então, o enfrentou, e foi o suficiente. É a autoafirmação que conseguem as mulheres que se atrevem a sair a campo, trabalhar por elas mesmas, saberem-se autossuficientes”, acrescentou.

Mãos de Mulher funciona atualmente com recursos das agências internacionais de cooperação da Igreja Católica na Irlanda e na Inglaterra e Gales, Trócaire e Cafod, respectivamente.

Na Colômbia encontra apoios pontuais em instituições estatais, com a Corporação Autônoma de Tolima, Corporação de Pesquisa Agropecuária ou a universidade regional. O apoio limita-se a “um intercâmbio de saberes: eles fornecem o acadêmico e nós a experiência, a vivência das pessoas”, disse Múnera.

Dentro do projeto, acontecem paineis a cada 15 dias, em média, onde se utiliza e discute material audiovisual relacionado com composição de solos, ciclos da água, nitrogênio, fósforo, carbono, agroecoelogia ou educação ambiental, entre muitos outros. É uma capacitação que motiva as camponesas a sonharem como o que disse à IPS Elcy Lozano, com cinco anos de participação na Mãos de Mulher.

“Mudar a consciência das pessoas. Pensarmos em construir, não em destruir. Esse é meu desejo diário. Porque a pecuária cria desertos e os desertos vão aumentando e isso nos afeta muitíssimo. Precisamos que não avance mais, e que, pelo contrário, possamos reviver a região”, disse enfática.

A queixa se concentrou no quase inexistente apoio do governo, que nem mesmo recolhe o lixo com regularidade. “Então, se queimamos é ruim, mas se vai acumulando acaba nos rios”, lamentou, antes de dizer, com um sorriso: “Mas, nem pensar em nos rendermos, não há nada como olhar à nossa volta e lembrar de como estávamos antes”. (IPS/Envolverde)

Helda Martínez

Helda Martínez escribe para IPS desde Colombia, en especial sobre desarrollo y sociedad. Se graduó en 1981 como comunicadora social y periodista. Ese mismo año obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar en la categoría Mejor Trabajo Social, modalidad radio. Trabajó para medios de comunicación masivos de su país, como el periódico El Espectador y la radio Todelar. También se desempeñó como investigadora y redactora de varias publicaciones. Entre ellas se destacan "La guerra: Una amenaza para la libertad de información", editado por Medios para la Paz en 2002; "Prensa, conflicto armado y región. Aprendizajes del diplomado - Periodismo responsable en el conflicto armado" - Medios para la Paz, 2006; "Colombia y las Sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos" - IIDH, 2010.

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