POBREZA-AMÉRICA LATINA: Pobreza volta a crescer, em consequencia da crise

Santiago, 23/11/2009 – Nove milhões de latino-americanos e caribenhos cairão na pobreza este ano e cinco milhões serão lançados na indigência, afetados pela crise econômica mundial, concluiu o Panorama Social da América Latina 2009, estudo anual, apresentado na quinta-feira (19/11), na capital chilena. No informe, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) projeta que a pobreza aumentará 1,1% em comparação com 2008, passando de 180 milhões para 189 milhões de pessoas, e a indigência aumentará 0,8%, passando de 71 milhões para 76 milhões de pessoas. Desta forma, 34,1 da população latino-americana acabará este ano submersa na pobreza e 13,7% na indigência.

Estes números rompem a tendência de baixa que vinha se registrando desde 2002, quando começou um período de seis anos de crescimento econômico que terminou no ano passado com a débâcle financeira e econômica mundial. Entre 2002 e 2008, 41 milhões de latino-americanos e caribenhos saíram da pobreza.

A secretária-executiva desta agência da Organização das Nações Unidas, a mexicana Alicia Bárcena, informou que o produto interno bruto (PIB) da região diminuirá entre 1,5% e 1,8% neste ano. A turbulência econômica terá menor impacto sobre a pobreza regional do que conjunturas anteriores, como a crise mexicana de 1995, a asiática de 1997, das empresas “ponto.com”, de 2001 – quando se desfez a bolha especulativa gerada em torno de empresas da Internet – e a argentina de 2002.

Isto se deve à ausência de colapsos fiscais e de processos inflacionários e ao aumento sustentado do gasto público nos países nos últimos anos, o que permitiu levantar sistemas de proteção social. Entre 1990 e 2008, o gasto público social por habitante passou de 43% para 60% do gasto público total médio da América Latina, embora existam diferenças entre países, diz o informe. “É possível crescer e distribuir”, destacou Bárcena. Apesar disto, a Cepal alerta que haverá atraso no cumprimento do primeiro Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), de reduzir pela metade a pobreza extrema e a fome até 2015, em relação aos indicadores de 1990. Até 2008, a América Latina mostrava 85% de avanços nesta primeira meta, progresso que cairia para 78% neste ano.

Segundo a Cepal, devem ser fortalecidos os 17 programas públicos de subvenções assistenciais que funcionam na região, entre eles os de transferências condicionadas como Bolsa Família, do Brasil; Oportunidades, do México, e Famílias em Ação, da Colômbia, que beneficiam 101 milhões de pessoas. “Deve-se optar por um pacto fiscal que seja mais socialmente viável. Para isso, cada sociedade tem de estabelecer um diálogo social próprio e gerar um compromisso entre os diferentes setores”, exortou Bárcena.

“Não é possível” que uma região “bastante rica” como a América Latina não tenham um pacto social em que haja “mais solidariedade” para ir avançado “rumo a uma universalidade de benefícios”, insistiu Bárcena, que também exortou o empresariado a “dar maior valor social ao trabalho”. Isto “dependerá do pacto que fizer cada sociedade e de como vamos do individual ao coletivo”, enfatizou. É necessário um “compromisso social geracional, apostando na geração seguinte e não na lição seguinte”, afirmou.

Além de aumentar progressivamente a carga tributaria e expandir a cobertura e a qualidade das prestações dos sistemas de transferências monetárias assistenciais, a Cepal exorta no sentido de “incorporar-se modalidades solidárias não contributivas nos sistemas de pensões” e de expandir a cobertura dos sistemas de seguro-desemprego. Nas próximas décadas os países da região terão novas demandas relacionadas com o cuidado dos idosos pelo progressivo envelhecimento da população.

Segundo o Panorama Social da América Latina 2009, a pobreza é 17 vezes maior em menores de 15 anos do que em adultos, e 1,15 vez mais alta em mulheres do que em homens. No Uruguai, a pobreza é 3,1 vezes superior em crianças do que em adultos, enquanto no Chile é 1,8 vez mais alta e na Nicarágua 1,3 vez. No Panamá a pobreza é 1,3 vez maior em mulheres do que em homens, 1,3 na Costa Rica, 1,25 na República Dominicana, 1,24 no Chile e 1,21 vez no Uruguai.

O trabalho não remunerado e o cuidado com os idosos impedem a inserção das mulheres no mercado de trabalho, o que redunda na pobreza de seus filos, diz o estudo. “Não importa à região a que pertencem, os homens trabalham apenas por dinheiro”, deixando a carga não remunerada para as mulheres, resumiu Bárcena. “O Panorama Social apresenta os conceitos de pobreza de tempo e crise do cuidado, em um alerta mostrando que este tema não se pode ser apenas um pacto entre homens e mulheres, mas um assunto de políticas públicas”, disse à IPS Sonia Montaño, diretora da Divisão de Assuntos de Gênero da Cepal.

Montaño explicou que “o Estado tem de assumir a provisão do cuidado infantil e, junto com as empresas, tem de fazer parte da entrada dos homens no cuidado de crianças e idosos. A crise foi uma lupa para se enxergar as falhas estruturais de nosso modelo de desenvolvimento”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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