IRÃ: Uma central nuclear e várias versões

Washington, 18/11/2009 – Segundo novos dados divulgados pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), já em 2002 o Irã construía “centros de contingência” caso os Estados Unidos o atacasse, vários anos antes de começar a instalar a polemica central nuclear de Qom. Mas o último informe da AIEA sobre o programa nuclear iraniano parece rechaçar a versão de Teerã de como e quando decidiu construir a usina de Qom, sugerindo que o Irã escondia a construção de outras instalações atômicas. O relatório divulgado segunda-feira fornece novas evidências de que a central de Qom foi construída em um dos muitos locais onde já em 2002 foram preparados túneis para proteger instalações de um possível ataque aéreo norte-americano.

A aparente decisão iraniana de começar os preparativos para prevenir um ataque dos Estados Unidos foi posterior ao discurso de 20 de setembro de 2001 do então presidente norte-americano George W. Bush no Congresso, quando afirmou que qualquer nação que continuasse “abrigando ou apoiando o terrorismo” seria considerada “regime hostil”. Depois, em janeiro de 2002, Bush mencionou o Irã como parte do “eixo do mal”, junto com Iraque e Coréia do Norte.

A nova evidência contradiz a acusação de Washington de que Teerã passou vários anos construindo uma central oculta para enriquecimento de urânio, muito antes de março de 2007, quando anunciou que já não informaria a AIEA sobre novas usinas que decidisse construir. O argumento iraniano documentado no informe situa a decisão de construir a central de Qom em meados de 2007.

O documento cita uma carta de Teerã à AIEA datada de 28 de outubro que diz: “Devido ao aumento das ameaças de ataques militares contra o Irã, a Republica Islâmica do Irã decidiu estabelecer centros de contingência para várias organizações e atividades”. Não é mencionada nenhuma data para essa decisão, mas o informe da AIEA se refere às imagens feitas por satélites do local, indicando que a construção começou pelo menos em 2002.

A agência disse ter “informado o Irã que havia obtido imagens via satélite do local, comercialmente disponíveis, indicando que ali se construiu entre 2002 e 2004, e que as atividades foram reiniciadas em 2006 e continuado até aquela data”. Aparentemente, a AIEA tentou passar a ideia de que se tratava da construção de uma segunda unidade de enriquecimento de urânio. Diplomatas não identificados disseram que o Irã começou construir a central em 2002, que a interrompeu em 2004, porque havia suspendido o enriquecimento de urânio, e reiniciado abertamente em 2006.

Foi o que informou no último dia 13 – três dias antes de o documento ser enviado à Junta de Governadores da agência – o jornalista George Jahn, da Associated Press. Mas, uma análise independente das imagens de satélite mostrou que as primeiras fotos correspondiam à construção dos “centros de contingência” mais do que a uma central nuclear. Paul Brannan, especialista em imagens via satélite do Instituto para a Ciência e a Segurança Internacional, analisou as fotos do local entre 2004 e 2005 e, em um informe de 29 de setembro, concluiu que, provavelmente, se tratasse de um túnel destinado a objetivos alheios ao enriquecimento de urânio.

Brannan observou que o local de Qom era apenas um dos “muitos em todo o país” com características semelhantes. Contrariamente ao que descreveu a AIEA, disse que a construção prosseguiu entre junho de 2004 e março de 2005, mas em ritmo lento. A análise de Brannan coincide com a versão contida na carta iraniana de 28 de outubro. A carta citada pela AIEA diz que a Agência de Energia Atômica do Irã havia pedido um dos centros já construídos para instalar uma “usina de enriquecimento de contingência”, que garantiria a continuação do enriquecimento de urânio caso a central de Natanz fosse atacada. Segundo a carta, a unidade subterrânea de Qom começou a ser construída com essa intenção na segunda metade de 2007.

Mas, em contradição com a matéria de Jahn, o informe da AIEA diz que “vários estados-membros” argumentaram que o trabalho de desenho da usina começara em 2006”. Se realmente foi assim, as obras de construção vistas nos anos anteriores obviamente não podem ter sido a de uma central atômica. Um alto funcionário do governo de Barack Obama disse aos jornalistas no dia 25 de setembro, sobre Qom, que a construção real da usina começou antes de março de 2007.

A linguagem usada no novo informe diz pela primeira vez que os Estados Unidos adotaram um enfoque muito mais ameno em relação à história do local de Qom em suas comunicações com a AIEA. Em seu informe, a agência parece sugerir não acreditar na versão iraniana de que as obras começaram em 2007. A AIEA “disse que a declaração iraniana sobre a nova usina reduz o grau de confiança, na falta de outras instalações nucleares em construção, e cria perguntas sobre se no país houve outras instalações que não foram declaradas à agência”.

O Irã disse à AIEA que não tem outras instalações nucleares “atualmente em construção ou em operação que não tenham sido declaradas à agência”, segundo o informe. Mas, ainda não respondeu a uma carta de 6 de novembro na qual a AIEA pergunta se tem planos de instalar outras centrais. O informe, o último divulgado sob o mandato do diretor-geral Mohamed El Baradei, que está para deixar o cargo, parece refletir sua reduzida influência sobre a posição política da agência em relação ao Irã e ao diretor do Departamento de Salvaguardas, Olli Heinonen.

No último dia 5, após os inspetores da AIEA visitarem Qom, e discutirem o contexto em que foi construída a instalação, El Baradei disse que não encontrara nada com que se preocupar e que esse local funcionava como apoio à Natanz, com dizia o Irã. “É um buraco na montanha”, acrescentou. Entretanto, o informe adota um enfoque oposto e também parece refletir um ponto de vista comum no Ocidente, de que considerar Qom evidência de um programa secreto de armas nucleares é útil para aumentar a pressão sobre o Irã.

Nas conversações de 1º e outubro em Genebra, os governos ocidentais propuseram que o Irã concordasse enviar até 80% de seu urânio empobrecido para a Rússia, em troca de eventuais embarques de 20% de urânio enriquecido, para alimentar um pequeno reator médico em Teerã. Isso permitiria ao governo de Obama declarar uma vitória diplomática em relação à capacidade nuclear do Irã e calar as pressões israelenses para bombardear centrais nucleares iranianas.

Nas negociações do mês passado em Viena sob patrocínio da AIEA, El Baradei apresentou um projeto de acordo baseado nessa proposta ocidental. O Irã rechaçou e fez uma contraproposta que lhe permite administrar suas reservas de urânio empobrecido. “Estamos ficando sem tempo”, advertiu Obama ao Irã no domingo, referindo-se às negociações sobre o projeto de El Baradei. Os Estados Unidos e outros sócios nas conversações nucleares ignoraram a contraproposta de Teerã. (IPS/Envolverde)

* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005 e reeditado em 2006.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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