Puerto España, Trinidad e Tobago, 26/11/2009 – A última chance de chegar a Copenhague com um acordo mínimo sobre mudança climática parece estar na cúpula da Comunidade de Nações, que a partir desta sexta-feira (27/11), e até domingo, reunirá nesta capital os líderes da Grã-Bretanha e suas antigas colônias, desta vez com os governantes de Brasil, Espanha e França. A cúpula é vista por observadores como um momento-chave para antecipar o sucesso ou o fracasso da XV Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 15), que acontecerá de 7 a 18 de dezembro na capital dinamarquesa.
Essa percepção também foi expressa pelo anfitrião, o primeiro-ministro de Trinidade e Tobago, Patrick Manning. Esta será “a última cúpula internacional antes dessa reunião-chave (na Dinamarca) e será extremamente importante para o processo”, destacou. “Nosso país está no centro de uma atividade quase frenética entre as principais nações do mundo industrializado e em desenvolvimento enquanto buscamos garantir a posição mais forte possível em preparação para a reunião de Copenhague”, afirmou Manning em uma mensagem transmitida em cadeia de rádio e televisão na semana passada.
Além dos líderes dos 53 países que integram a Comunidade de Nações, a cúpula terá as presenças dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy, da França; além do chefe de governo da Espanha, José Luiz Rodríguez Zapatero. Além disso, Manning confirmou a participação do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e do primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen.
Os meios de comunicação também especulam com a chegada a este país para a cúpula dos presidentes Barack Obama, dos Estados Unidos, e Hu Jintao, da China, embora suas respectivas representações diplomáticas não tenham confirmado essa possibilidade. Os 15 países integrantes da Comunidade do Caribe (Caricom) lançaram uma campanha pública para promover a posição única da região sobre a mudança climática antes da reunião da COP-15.
A campanha, cujo lema é “1,5º para sobreviver”, tem o propósito de apoiar e “dramatizar uma estratégia regional comum para mitigar os efeitos da mudança climática na região”, que se articulará em Copenhague e na reunião da Comunidade de Nações, disse o secretário-geral da Caricom, Edwin Carrington. O plano inclui uma exposição digital sobre os efeitos prejudiciais dos gases-estufa nos pequenos Estados insulares e várias apresentações de vídeo sobre as consequências da mudança climática para os seres humanos, a fauna e a flora do Caribe.
Os gases-estufa são responsáveis pelo aquecimento planetário conhecido como mudança climática. O último informe do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), de 2007, prevê em seu cenário mais benigno aumento da temperatura média anual de dois a 2,5 graus até 2050. a mudança climática “afetará grande parte das bases de nosso turismo, nossa agricultura e nossa pesca. Causará estragos na flora, nas florestas e, mais ainda, deslocará nossa gente. Devem ser tomadas medidas corretivas imediatas se queremos evitar esta destruição generalizada’, disse Carrington.
O último convênio entre Guiana e Noruega sobre um programa de desenvolvimento de baixo consumo de dióxido de carbono, um dos gases-estufa mais prejudiciais, que proporciona ao país caribenho incentivos para a preservação de suas florestas, “é um sinal importante para o resto do mundo”, destacou. “A geração futura não merece menos. Demorar é jogar com o próprio futuro da humanidade”, afirmou Carrington, acrescentando que a região buscará consolidar sua posição na Aliança de Pequenos Estados Insulares (Aosis), o Grupo dos 77 (aliança de 132 países na ONU) e a China, bem como com os países industrializados.
A Aosis rejeita a postura de alguns governantes que pretendem adiar um resultado legalmente vinculante na conferência de Copenhague e insiste na necessidade de proteger “os mais vulneráveis, e não os mais poderosos”. A Aosis “insiste e mantém que existem todos os ingredientes para alcançar um resultado internacional legalmente vinculante em Copenhague no mês que vem e essa continua sendo nossa posição”, disse o ministro do Meio Ambiente de Granada, Michael Church, ao final da Consulta Previa à COP-15, realizada terça-feira na capital dinamarquesa. “Devemos sair de Copenhague com a segurança de que os ministros puderam apresentar as inquietações de nossa gente à plataforma da COP-15, para integrá-las ao acordo principal”, disse Sherry Ayittey, ministro de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia de Gana. A agência de noticias France Presse (AFP) informou na semana passada que o interesse de Sarkozy em participar da cúpula surge de uma política sobre mudança climática que a França adotou com o Brasil.
Está previsto que Sarkozy utilize a visita a Trinidad e Tobago para defender o objetivo final de uma redução de, pelo menos, 50% até 2050 dos gases-estufa. Tanto o mandatário francês quanto o Presidente Lula disseram que lançaram uma campanha internacional para que outros países apóiem o texto de seu acordo. “Agora, com o presidente Lula, vamos fazer de tudo para reunir o maior número de países que apóiem o texto”, disse Sarkozy à AFP. Teme-se que os Estados Unidos não assinem um novo tratado internacional sobre mudança climática devido à sua política interna, o que pode impedir a adoção de um acordo mundial antes de 2012, quando expira o Protocolo de Kyoto.
Além da mudança climática, os líderes da Comunidade de Nações também analisarão o impacto da atual crise econômica e financeira em seus países. “Somente a ação concertada de todos pode restaurar a economia mundial em níveis satisfatórios de crescimento e gerar a riqueza e o emprego que todos necessitamos”, disse Manning. Também se tratará dos direitos humanos.
As organizações não-governamentais Caribbean Centre for Human Rights (CCHR), com sede em Porto Príncipe, e Commonwealth Human Rights Initiative (CHRI), da Índia, pediram a retirada do convite para a cúpula feito ao presidente de Gâmbia, Yahya Jammeh, depois que este ameaçou, em setembro, “matar qualquer um que tentasse desestabilizar meu país”. Em uma breve declaração, a chancelaria informou que a delegação de Gâmbia será liderada pelo ministro das Relações Exteriores, sem dar explicações pela ausência de Jammeh. (IPS/Envolverde)

