RIO DE JANEIRO, 22/12/2009 – (Tierramérica).- Possivelmente seja necessária uma catástrofe de grande magnitude para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida.
Este é o relato de um romance publicada em 1973 no Japão, e traduzida na França quatro anos depois, “O afundamento do Japão”. O autor, Komatsu Sakyo, imagina a hecatombe a partir de fenômenos naturais possíveis, como intensificação e alteração dos movimentos da crosta terrestre sob o Oceano Pacífico. Contudo, fora da ficção, o mundo vive inundações cada dia mais frequentes e a iminência de múltiplos afundamentos de nações insulares e cidades costeiras, todos fatos provocados pela ação do homem. O perigo vem do ar, mais do que do subsolo, mas com consequências igualmente trágicas, só que menos impactantes devido à dispersão geográfica e temporal.
Possivelmente seja necessária uma catástrofe da magnitude narrada por Sakyo para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida. Certas transformações, especialmente contra a maré econômica, só se materializam depois de tragédias ou rebeliões excepcionais. A crise financeira do ano passado, por exemplo, foi insuficiente para promover mudanças estruturais. A magnitude não se limita apenas à quantidade de vítimas, mas à extinção total de uma nação rica como o Japão, que era vista por muitos, nos anos 70, como desafiante da hegemonia econômica norte-americana. O livro também é uma crítica à soberba nipônica na reconstrução do pós-guerra.
A probabilidade de os países tropicais, especialmente os pequenos e pobres, serem os que mais sofrerão os efeitos do aquecimento global, não tem a mesma capacidade de estimular uma cooperação que pareceria natural neste caso, por se tratar de uma ameaça que afeta a todos. A crise climática realça as múltiplas dimensões das disparidades entre nações, dificultando as negociações. Os principais temas, as metas obrigatórias de emissões e financiamento, dividem o mundo entre ricos e os demais, com uma classe média de nações cuja pretensão, de continuar revistando as fileiras dos pobres, é rechaçada pelos ricos.
É essa desigualdade que dificulta todas as negociações multilaterais, sejam comerciais, financeiras, de patentes ou sanitárias. Todas são oportunidades para que os países em desenvolvimento reduzam a brecha e obtenham mais ajuda para o desenvolvimento, agora com o inquestionável argumento do acúmulo histórico de gases-estufa na atmosfera, pelos países industrializados. Porém, os blocos construídos em outros fóruns carecem de consistência na questão climática.
O Brasil, por exemplo, é constantemente pressionado pelos ambientalistas a se dissociar do Grupo dos 77, a coalizão de mais de 130 nações em desenvolvimento, para contribuir com um acordo e recuperar a liderança que teve na negociação da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, de 1992, e do Protocolo de Kyoto, de 1997. Por suas facilidades específicas para reduzir emissões de gases-estufa – acabar com o desmatamento e aumentar a energia limpa que já desenvolve em abundância –, o Brasil poderia assumir metas ambiciosas em seu próprio beneficio, afirmam os ecologistas.
A China, associada ao G-77, tornou-se um corpo estranho, ao ficar ombro a ombro com os Estados Unidos em volume de emissão de gases, construir uma central termoelétrica movida a carvão por semana e dispor de mais de US$ 2 bilhões em reservas. Assusta imaginar seus 1,3 bilhão de habitantes em uma marcha acelerada para a industrialização e o consumo que hoje se reconhece como não sustentável. É muito diferente a posição objetiva de países ricos em combustíveis fósseis e dos dependentes do petróleo importado. Latitudes e altitudes, a abundância de florestas, a ameaça da desertificação ou a dependência de geleiras, são muitos os aspectos que marcam diferenças diante da mudança climática.
Os numerosos Estados insulares lutam pela sobrevivência e por isso, junto com os africanos ameaçados pela desertificação e perdas agrícolas fatais, reclamam um limite de 1,5 grau para o aquecimento global neste século. Passar esse nível pode representar a morte ou o deslocamento de povos inteiros. Entretanto, que força têm essas nações para enfrentar o limite de dois graus adotado para frear o aumento da temperatura? Aqui não se trata de imposições das nações ricas nem de uma luta de classes entre Estados. Estudos e avaliações científicas estão ditando os objetivos a serem cumpridos. A mudança climática consagrou um novo poder absoluto, o da ciência, cujas conclusões passam a determinar a vida de todos.
Alguns milhares de cientistas que participaram dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) concordaram que dois graus de aquecimento até 2100 são o limite possível e tolerável. Além disso, seria o caos. Os céticos não contam. São marginais e, em muitos casos, suspeitos de defender interesses do setor dos combustíveis fósseis, ou contrariados pela tentativa de evitar o grande desastre climático. Surgiram manifestações contra essa decisão dos pesquisadores do clima, reclamando maior participação da sociedade nas decisões, com sugestões inclusive de realização de referendos. Porém, esse é um campo onde as premissas estão fora do jogo “democrático”. A mudança climática é um dado, não um problema.
A política só pode decidir como manejar o fenômeno. Questioná-lo ou modificar seus dados é competência exclusiva dos cientistas. Esta nova dimensão do que muitos chamam de “era do conhecimento” ditará regras em muitas atividades, exigindo eficiência energética, e forçando mudanças de consumo e de hábitos, como já ocorre no campo da saúde com o tabaco, por exemplo.
* O autor é correspondente da IPS.


