ANÁLISE: Desigualdades fatais no império da ciência

RIO DE JANEIRO, 22/12/2009 – (Tierramérica).- Possivelmente seja necessária uma catástrofe de grande magnitude para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida.

 - Fabrício Vanden Broeck

- Fabrício Vanden Broeck

“O arquipélago do Japão afundará dentro de um ano”. O anúncio oficial aconteceu após uma violenta erupção do Monte Fuji, e depois os terremotos se multiplicaram por todo o país, desafiando o mundo a acolher 110 milhões de pessoas em poucos meses. Uma furiosa batalha diplomática conseguiu uma solidariedade dúbia para evacuar 65 milhões de japoneses. Vinte milhões afundaram com as ilhas, muitos deles voluntariamente, por amor à pátria ou para ceder lugar na fuga aos mais jovens. Os demais, supõe-se, morreram antes, vitimas de tremores, tsunamis e outros cataclismas.

Este é o relato de um romance publicada em 1973 no Japão, e traduzida na França quatro anos depois, “O afundamento do Japão”. O autor, Komatsu Sakyo, imagina a hecatombe a partir de fenômenos naturais possíveis, como intensificação e alteração dos movimentos da crosta terrestre sob o Oceano Pacífico. Contudo, fora da ficção, o mundo vive inundações cada dia mais frequentes e a iminência de múltiplos afundamentos de nações insulares e cidades costeiras, todos fatos provocados pela ação do homem. O perigo vem do ar, mais do que do subsolo, mas com consequências igualmente trágicas, só que menos impactantes devido à dispersão geográfica e temporal.

Possivelmente seja necessária uma catástrofe da magnitude narrada por Sakyo para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida. Certas transformações, especialmente contra a maré econômica, só se materializam depois de tragédias ou rebeliões excepcionais. A crise financeira do ano passado, por exemplo, foi insuficiente para promover mudanças estruturais. A magnitude não se limita apenas à quantidade de vítimas, mas à extinção total de uma nação rica como o Japão, que era vista por muitos, nos anos 70, como desafiante da hegemonia econômica norte-americana. O livro também é uma crítica à soberba nipônica na reconstrução do pós-guerra.

A probabilidade de os países tropicais, especialmente os pequenos e pobres, serem os que mais sofrerão os efeitos do aquecimento global, não tem a mesma capacidade de estimular uma cooperação que pareceria natural neste caso, por se tratar de uma ameaça que afeta a todos. A crise climática realça as múltiplas dimensões das disparidades entre nações, dificultando as negociações. Os principais temas, as metas obrigatórias de emissões e financiamento, dividem o mundo entre ricos e os demais, com uma classe média de nações cuja pretensão, de continuar revistando as fileiras dos pobres, é rechaçada pelos ricos.

É essa desigualdade que dificulta todas as negociações multilaterais, sejam comerciais, financeiras, de patentes ou sanitárias. Todas são oportunidades para que os países em desenvolvimento reduzam a brecha e obtenham mais ajuda para o desenvolvimento, agora com o inquestionável argumento do acúmulo histórico de gases-estufa na atmosfera, pelos países industrializados. Porém, os blocos construídos em outros fóruns carecem de consistência na questão climática.

O Brasil, por exemplo, é constantemente pressionado pelos ambientalistas a se dissociar do Grupo dos 77, a coalizão de mais de 130 nações em desenvolvimento, para contribuir com um acordo e recuperar a liderança que teve na negociação da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, de 1992, e do Protocolo de Kyoto, de 1997. Por suas facilidades específicas para reduzir emissões de gases-estufa – acabar com o desmatamento e aumentar a energia limpa que já desenvolve em abundância –, o Brasil poderia assumir metas ambiciosas em seu próprio beneficio, afirmam os ecologistas.

A China, associada ao G-77, tornou-se um corpo estranho, ao ficar ombro a ombro com os Estados Unidos em volume de emissão de gases, construir uma central termoelétrica movida a carvão por semana e dispor de mais de US$ 2 bilhões em reservas. Assusta imaginar seus 1,3 bilhão de habitantes em uma marcha acelerada para a industrialização e o consumo que hoje se reconhece como não sustentável. É muito diferente a posição objetiva de países ricos em combustíveis fósseis e dos dependentes do petróleo importado. Latitudes e altitudes, a abundância de florestas, a ameaça da desertificação ou a dependência de geleiras, são muitos os aspectos que marcam diferenças diante da mudança climática.

Os numerosos Estados insulares lutam pela sobrevivência e por isso, junto com os africanos ameaçados pela desertificação e perdas agrícolas fatais, reclamam um limite de 1,5 grau para o aquecimento global neste século. Passar esse nível pode representar a morte ou o deslocamento de povos inteiros. Entretanto, que força têm essas nações para enfrentar o limite de dois graus adotado para frear o aumento da temperatura? Aqui não se trata de imposições das nações ricas nem de uma luta de classes entre Estados. Estudos e avaliações científicas estão ditando os objetivos a serem cumpridos. A mudança climática consagrou um novo poder absoluto, o da ciência, cujas conclusões passam a determinar a vida de todos.

Alguns milhares de cientistas que participaram dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) concordaram que dois graus de aquecimento até 2100 são o limite possível e tolerável. Além disso, seria o caos. Os céticos não contam. São marginais e, em muitos casos, suspeitos de defender interesses do setor dos combustíveis fósseis, ou contrariados pela tentativa de evitar o grande desastre climático. Surgiram manifestações contra essa decisão dos pesquisadores do clima, reclamando maior participação da sociedade nas decisões, com sugestões inclusive de realização de referendos. Porém, esse é um campo onde as premissas estão fora do jogo “democrático”. A mudança climática é um dado, não um problema.

A política só pode decidir como manejar o fenômeno. Questioná-lo ou modificar seus dados é competência exclusiva dos cientistas. Esta nova dimensão do que muitos chamam de “era do conhecimento” ditará regras em muitas atividades, exigindo eficiência energética, e forçando mudanças de consumo e de hábitos, como já ocorre no campo da saúde com o tabaco, por exemplo.

* O autor é correspondente da IPS.

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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