Jerusalém, 03/12/2009 – O destino de um prisioneiro palestino em Israel pode liberar o moribundo processo de paz de sua própria prisão, desde que seja o momento correto. Uma importante fonte residual de tensões entre israelenses e palestinos pode estar a ponto de se resolver esta semana, se a mediação alemã finalmente superar as complicações de último minuto. Trata-se da troca de mil prisioneiros palestinos pelo soldado israelense Guilad Shalit, seqüestrado em 25 de junho de 2006 pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que o mantém cativo desde então.
Não é certo que a troque prospere. Tampouco está claro quais dos 10 mil palestinos presos em Israel serão parte do acordo. E, certamente também não está definido que um deles seja Marwan Barghouti, líder das forças militares do movimento palestino Fatah, condenado à prisão perpétua por um tribunal israelense há cinco anos. Se a troca ocorrer sem Barghouti, é improvável que tenha muito impacto para impulsionar a paz entre os dois povos. Nesse caso, o impacto político se limitará aos assuntos internos palestinos, centrando-se na reafirmação do Hamas à custa da Autoridade Nacional Palestina, liderada pelo presidente Mahmoud Abbas, do Fatah.
Por outro lado, a libertação de Barghouti pode ser um momento de definição nas relações palestino-israelenses. E uma prova da real intenção por trás do anúncio feito na semana passada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de um congelamento limitado e temporário da construção de assentamentos na Cisjordânia. Até agora a direção palestina evitou a moratória parcial dos assentamentos, por considerá-la um estratagema de Netanyahu projetado para aliviar a pressão dos Estados Unidos sobre Israel.
Estes têm seus motivos: o congelamento anunciado não é total. Exclui Jerusalém oriental, e a construção de colônias já aprovadas continuará. Além disso, há dúvidas, mesmo dentro de Israel, quanto ao governo de Netanyahu ter os meios técnicos para implementar esse congelamento. Já em julho de 2000, apenas semanas antes da segunda intifada (levante palestino), Barghouti, em declarações feitas desde seu modesto escritório em Ramala, expunha à IPS sua estratégia alternativa contra a ocupação israelense: “Levaremos nosso povo às linhas de 1967 e proclamaremos que estamos ali simplesmente defendendo nossas fronteiras contra a ocupação israelenses: sem armas, sem pedras, simplesmente com nossos corpos”, afirmou.
Muitos palestinos veem Barghouti como o líder ótimo para conduzi-los para um futuro Estado no caso de Abbas não se candidatar à reeleição nas eleições de janeiro, como já anunciou. Barghouti, de 50 anos, é considerado o verdadeiro herdeiro de Yasser Arafat (líder palestino que morreu em 2004), precisamente, talvez, porque ele também namora com a ambiguidade. Seu estilo enérgico com frequência o levou acima das pesquisas sobre quem os palestinos queriam para liderá-los contra Israel.
Desde sua cela em uma prisão israelense, nos últimos tempos Barghouti respondeu perguntas de um jornal árabe nas quais expôs sua estratégia: “Depender apenas de nossas negociações nunca foi nossa opção. Sempre defendi uma combinação construtiva de negociações, resistência e ação política, diplomática e popular”. Precisamente esta pode ser a fonte de receios israelenses. Mas agora, com a perspectiva de Abbas deixar o cenário, Israel tem outra preocupação: um vazio de poder dentro da ANP.
O futuro da ANP será ainda mais precário porque o Hamas conseguirá uma enorme credibilidade a partir da troca de prisioneiros. Há alguma oposição, mas fato destacável é que está silenciada e que os israelenses estão esmagadoramente prontos para aceitar a troca de presos, até o ponto de entregar palestinos que participaram de alguns dos ataques mais sangrentos contra civis. Alon Liel, conferencista sobre ciência política na Universidade Hebreia de Jerusalém e ex-alto diplomata de Israel, foi mais longe.
“A assombrosa disposição pública e política de pagar um preço sem precedentes pode se converter na influência necessária para dar ao acordo uma dimensão histórica”, disse. “Não é preciso ser um político brilhante para ver que a linha que liga uma troca técnica de prisioneiros com um avanço para um processo de paz passa por Marwan Barghouti”, acrescentou. Por isso a pergunta-chave ser “quando” – e não “se” libertar Barghouti, desde que, naturalmente, Netanyahu tenha em mente uma real agenda de paz.
Se estiver seriamente comprometido com a paz, Netanyahu poderá usar o atual impulso público que a troca de prisioneiros cobra entre a população israelense para criar um impulso diplomático. Mas, isso lhe exigirá desassociar o acordo da libertação de Barghouti. Se Netanyahu tivesse decidido libertá-lo antes de um acordo mais amplo de intercâmbio de prisioneiros, provavelmente o Hamas o teria boicotado. E isto porque se sentiria em risco de ter roubada sua recompensa política na luta de poder que enfrenta com a ANP.
A ala direitista do governo de Netanyahu também teria sabotado a libertação de Barghouti. Agora, porém, muitos israelenses exigem sua libertação. Netanyahu tem a oportunidade de tirar a primazia do Hamas, para mútuo benefício de Israel e da ANP. Isto só pode funcionar se a troca com o Hamas já estiver organizada e implementada. Se for concretizada, a libertação de Barghouti trará múltiplos benefícios para Netanyahu e a ANP. Israel será aplaudido por Washington. Para a ANP será uma maneira de sair de um vazio político potencialmente perigoso. Além do mais, para a céptica direção palestina isto será uma prova do autêntico desejo de paz de Netanyahu. E para Washington, um Barghouti livre que reafirme Abbas será o melhor início de uma paz futura, especialmente considerando os últimos nove meses de negociações falidas. (IPS/Envolverde)

