Porto Príncipe, 26/01/2010 – Desde o terremoto do dia 12, que destruiu a capital do Haiti e arredores, as emissoras de rádio que ficaram em pé levam notícias e esperança contra todas as adversidades. A Rádio Solidarité 88.5 FM é uma das que sobreviveram à catástrofe. Dois dias depois do forte tremor, reiniciou suas transmissões a partir de um pequeno estúdio, em um prédio de dois andares no centro da cidade, depois que seus funcionários conseguiram combustível para colocar em funcionamento um gerador. “Procuramos dizer à população que seja forte, que apreciamos sua valentia”, disse o diretor da rádio, Georges Venel Remarais. “A imprensa internacional fala da violência, mas nós não vimos. A ajuda é lenta às vezes e as pessoas se irritam. Nosso trabalho é tentar manter a calma”, acrescentou. Ainda está difícil encontrar combustível para gerar eletricidade, mas o pessoal da Rádio Solidarité consegue fazer funcionar seu estúdio, que não sofreu danos.
A Rádio Metrópole, uma das maiores do Haiti, também começou a transmitir depois de conseguir combustível. Com centenas de discos espalhados no chão de sua discoteca, o restante do estúdio não foi afetado, mas o pessoal não se sente seguro. “Decidimos levar o estúdio para fora e permitir que a população venha livremente nos dizer ou nos informar o que desejar, e que conte a todo mundo o que está ocorrendo no Haiti”, explicou Jerome Richard, veterano jornalista da emissora.
O terremoto destruiu o prédio de três andares da Rádio Teleginen. O teto e uma das paredes desmoronaram. Os voluntários e jornalistas que atuam com as equipes de socorro não conseguiram resgatar o corpo de um jovem que trabalhava como câmera, a única vitima fatal da rádio. “Ajudamos a Rádio Teleginen porque gostamos dela, de toda sua programação e também nos ajuda”, disse Edner Jean enquanto saía do edifício em ruínas usando um capacete. “Estamos fazendo o possível para retirar essa pessoa, mas estamos por nossa conta. Ninguém veio nos ajudar desde o terremoto”, queixou-se.
A alguns metros dos escombros, diante de um acampamento improvisado, há uma grua de uma construtora haitiana. Jean Borge, proprietário da Rádio Teleginen, contou que ninguém sabe lidar com ela, mas acredita que sua emissora volte a transmitir nos próximos dias. “Temos um novo gerador, estamos ajustando nosso satélite e ficará em funcionamento o mais rápido possível. Nossos jornalistas já começaram a trabalhar, temos um pequeno estúdio aqui”, explicou.
No coração do bairro periférico Cité Soleil, a Rádio Boukman está no ar. A emissora tem o nome do sacerdote vudu que promoveu a revolta dos escravos do Haiti no século XVIII. Os restos de uma delegacia estão empilhados ao lado do edifício da emissora, que só perdeu alguns equipamentos que caíram das prateleiras. As autoridades estão preocupadas com a segurança na distribuição da ajuda no enorme assentamento precário, e Edwin Adrien, um produtor da emissora, afirmou que ninguém da Organização das Nações Unidas, nem dos Estados Unidos, se comunicou com eles para coordenar a ajuda.
“Não sei porque não se comunicaram com nenhuma entidade até agora, especialmente a Rádio Boukman, que transmite de dentro de Cité Solei. A informação que transmitimos ajuda a todos, inclusive a Minustah (Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti). Devemos manter a população informada”, disse Adrien. Afirma-se que a Signal FM foi a única estação de Porto Príncipe que permaneceu no ar durante o terremoto. Mario Viau, seu diretor, contou ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas que os 12 jornalistas da rádio trabalharam em turnos extras para não deixar de transmitir.
Em reconhecimento à importância do rádio no Haiti, a rede britânica British Broadcasting Corporation (BBC) anunciou, no sábado, que as emissoras haitianas poderiam retransmitir sem custo suas programações em creole, o idioma mais falado no país. Porto Príncipe sofreu novo tremor, de 4,7 graus Richter na noite de domingo, mas, apesar disso, algumas partes da cidade estão recuperando alguma aparência de normalidade. O som das canções em creole, o hip hop e as últimas notícias ajudam a aliviar a tensão que paira no ar da cidade. IPS/Envolverde

