Fórum Social Mundial: O desafio de transformar sem conduzir

Rio de Janeiro, 26/01/2010 – O Fórum Social Mundial (FSM) é apenas “um instrumento”, que não deve ser confundido com o movimento intermundista, afirma Chico Whitaker, um dos fundadores deste encontro, que comemora seu décimo ano de vida com um seminário de balanço, iniciado ontem e que vai até o dia 29 em Porto Alegre, precisamente onde nasceu. Trata-se de uma metodologia, “um instrumento para unir. O Fórum não transforma o mundo, é a sociedade que o fará, em um multifacetário altermundismo”, acrescentou Whitaker, que rejeita a definição de “movimento dos movimentos” com um protagonismo próximo ao dos partidos políticos. Esclarecer a natureza do FSM, defendendo sua carta de princípios de 2002, é uma missão assumida por este arquiteto de formação, dedicado há mais de cinco décadas ao ativismo pela justiça social, representante da Comissão Justiça e Paz da Igreja Católica no Conselho Internacional do Fórum. Já em 2005 escreveu o livro intitulado “O desafio do Fórum Social Mundial, um modo de ver”, no qual explica os princípios e os procedimentos do grande encontro mundial da sociedade civil, sua evolução, sua horizontalidade na rede e as “tentações” de repetir caminhos políticos que historicamente mostraram suas ineficiências e perversidades.

A vocação maior, de abrir novos caminhos e construir a “unidade altermundista”, juntando toda a diversidade de ativistas, é pouco compreendida, lamentou nas respostas à IPS. As tensões dentro do próprio Fórum e de seu Conselho Internacional se devem, em boa parte, a grupos que defendem os velhos caminhos. Em seu balanço destes dez anos, o FSM, embora sem ser protagonista direto, contribuiu para muitos avanços, promovendo articulações entre movimentos. A morte da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), promovida pelos Estados Unidos, se deve a ele, bem como o aumento da consciência indígena na América Latina que, no caso da Bolívia, levou o aymara Evo Morales ao governo.

O pensamento dos norte-americanos mudou desde o surgimento do FSM, e isso se refletirá no segundo fórum nacional que acontecerá em julho na cidade de Detroit, um símbolo do modo de vida norte-americano. Além disso, acelerou o desenvolvimento de uma “economia solidária”, destacou Whithaker. Transformar o mundo é o objetivo do FSM, mas sem indicar “modelos acabados nem estratégias únicas”, exigindo mudanças “em todos os níveis, inclusive nas pessoas”, ressaltou. Para ele, os sucessivos e numerosos encontros permitiram estender uma “compreensão melhor desse longo processo, mais complexo do que se imaginava antes”.

A crise financeira internacional dos últimos dois anos, nascida exatamente nos Estados Unidos, abriu novas frentes de análise e educação política dos jovens, com novos argumentos para mostrar o quanto o capitalismo é trágico, prosseguiu Whithaker. Sem apontar um modelo de sociedade futura pelo qual se luta, e nem pretendendo a tomada do poder estatal para promover as mudanças, o FSM nasceu com um lema determinado e óbvio, “outro mundo é possível”. Tudo isso é pouco, mas ajuda para uma mobilização duradoura, pensando em termos tradicionais.

Entretanto, as edições globais anuais do FSM mobilizaram multidões, e multiplicaram-se as iniciativas de fóruns nacionais, locais e temáticos por todos os continentes, estabelecendo o diálogo plural como forma de fomentar movimentos e reflexões. Este ano, sem um encontro central, haverá pelo menos 27 fóruns descentralizados. No FSM mundial de 2009, em Belém, no Pará, entrada oriental da Amazônia, aumentou especialmente a presença de jovens. Dos 150 mil participantes, 64% tinham menos de 24 anos e 81% possuíam diploma universitário ou frequentavam universidades, segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Mas, em dez anos, também aumentou a insatisfação entre os militantes políticos que têm seus próprios projetos, suas utopias, seus movimentos ou partidos. Muitos falam de esgotamento e falência do processo, diante da falta de resoluções e programas de ação concretos do próprio FSM. Seus fundadores, especialmente os brasileiros, no entanto, resistem a isso por entenderem que estaria substituindo as organizações sociais e se convertendo em um ator como os partidos ou movimentos, negando a própria natureza do Fórum e sua carta de princípios, com objetivos e estratégias excludentes.

Estes ativistas criticam, por exemplo, o Fórum Social Mundial Temático, que acontecerá de 29 a 31 deste mês em Salvador, por considerarem que é uma iniciativa governamental e não da sociedade civil. Apoiado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governo da Bahia, este encontro busca promover o diálogo entre a sociedade e os governantes da África e da América Latina, além de reflexões e intercâmbios de experiências sobre temas derivados da forte influência africana nesse Estado, como a cultura e as religiões.

Um dos grandes temas a debater será a nova economia em desenvolvimento, que está baseada principalmente em bens “intangíveis” como o conhecimento, que “não são rivais” e cujo “uso não reduz as existências”, favorecendo a colaboração, disse Ladislau Dowbor, professor de Economia da Universidade Católica de São Paulo, que ajudou a programar os debates na Bahia. Empresas que produzem robôs, portanto de tecnologia muito avançada, decidiram estabelecer uma rede que compartilha conhecimentos, com software livre, porque viram que é “mais rentável a colaboração” do que monopolizar suas patentes, disse o economista.

Atualmente, “três quartos do valor de um produto não é físico, como matéria-prima e mão-de-obra, mas deriva do conhecimento”. Também o setor social tem um peso enorme na economia e, por exemplo, os serviços de saúde concentram 17% do produto interno bruto dos Estados Unidos, acrescentou. Tudo isso abre espaços para processos de colaboração e solidariedade, concluiu Dowbor. IPS/Envolverde

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *