Berkeley, EUA, 05/01/2010 – O governo do Irã intensificou nos últimos dias sua pressão sobre ativistas políticos e defensores dos direitos humanos, prendendo importantes figuras e seus familiares, como da advogada e defensora dos direitos humanos, a iraniana Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz de 2003, que deu entrevista exclusiva à IPS.
Agentes do Ministério de Inteligência também detiveram familiares de ativistas pelos direitos humanos, incluindo a filha de Ezzat Shabi, destacado crítico do governo, e Noushin Ebadi, irmã de Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz. Em entrevista à IPS, Shirin Ebadi, atualmente fora do Irã, afirmou que sua irmã foi feita refém para impedir que ela continue sua luta pelos direitos humanos.
IPS – Alguns dias antes da prisão de sua irmã, a senhora publicou um artigo sobre a morte do dissidente aiatolá Montazeri, a quem chamou de “pai dos direitos humanos no Irã”. Considerando a sensibilidade do governo iraniano a respeito deste sério crítico religioso, é possível que a detenção de sua irmã esteja relacionada a isto?
Shirin Ebadi – A prisão da minha irmã está diretamente relacionada com minhas atividades pelos direitos humanos no Irã, como defender presos políticos, presidir o Centro de Defensores dos Direitos Humanos, escrever uma carta em memória de Montazeri e outras coisas. Todas estas atividades têm o objetivo de defender os direitos humanos e, repito, vão em linha com as leis da República Islâmica do Irã. Creio que algumas dessas atividades não foram bem vistas por certas autoridades no Ministério de Informação, o que levou à prisão da minha irmã. Ela já havia sido ameaçada de prisão caso eu continuasse com meu trabalho.
IPS – O que querem da senhora?
SE – O que disseram ao meu irmão e à minha irmã é que minhas atividades em defesa dos direitos humanos vão contra a República Islâmica do Irã e devo parar com elas. O fato é que tudo o que faço se baseia nas leis da República Islâmica, e devo cumprir meu dever de defender os direitos humanos.
IPS – Quais acontecimentos contribuíram para a detenção de sua irmã?
SE – Telefono para ela uma ou duas vezes por mês. O Ministério da Informação havia dito a ela que até isso era muito e que não poderia manter nenhum contato comigo. Ela lhes perguntou como poderiam esperar que não conversasse comigo, e eles disseram que essa desobediência poderia lhe custar uma prisão.
IPS – O que acontece com seu marido, que está no Irã, proibido de deixar o país?
SE – O Ministério da Informação havia suspendido minhas contas bancarias e inclusive minha aposentadoria, mas continuei com meu trabalho. Suspenderam as contas do meu marido, mas continuei. Agora fizeram minha irmã como refém, esperando que eu pare. Como todas minhas atividades em defesa dos direitos humanos estão baseadas nas leis da República Islâmica do Irã, não vejo razão para reduzir ou parar. As autoridades do Ministério da Informação devem entender que, neste momento-chave, as leis e o comportamento legal são as únicas coisas que podem restaurar a paz no país.
IPS – Quais argumentos o Ministério deu a ela ou à sua família pela prisão?
SE – Nenhuma. O marido dela e seus dois filhos estavam e casa. Eles lhes disseram: “A levaremos para algumas perguntas”. Seu marido disse que queria ir junto, mas disseram que não havia lugar no carro e que deveria segui-los, mas quando se dirigia ao seu automóvel eles partiram.
IPS – Qual sua principal preocupação em relação à sua irmã?
SE – Como muitas outras pessoas detidas desde 27 de dezembro, ela é inocente. Minha preocupação por ela é a mesma que tenho por todos os detidos inocentes. Não é uma pessoa com atividade política e não havia razão para ser presa. Não participou de nenhuma reunião política e sua carreira acadêmica de horário integral não lhe deixava tempo para essas atividades.
IPS – O que pensa das prisões em massa depois da Ashura?
SE – Lamento que a Ashura tenha levado a estes incidentes. A violência só faz exacerbar a situação e gerar crise. A violência cometida pelos funcionários do regime na Ashura é inaceitável. As fotos e os vídeos divulgados mostram que as pessoas foram vítimas de sérios abusos.
IPS – Estas ou outras detenções semelhantes poderiam ser o começo de uma campanha para pressionar os ativistas e suas famílias para que detenham suas atividades?
SE – Lamentavelmente, há imensa pressão sobre as famílias dos ativistas políticos. Um exemplo é a forma com foi tratada a mãe de Sohrab Arabi (que morreu durante os protestos após as eleições de 12 de junho), e as prisões de algumas mães dos que foram assassinados pelas forças iranianas após as eleições. Sempre que alguém pede por seus direitos, essa pessoa e sua família são vítimas de uma grande pressão.
IPS – Qual seu pedido ao governo iraniano?
SE – Pelo seu bem, que se comprometam a cumprir as leis que eles mesmos aprovaram. Deveriam saber que a lei é o primeiro passo para trazer paz a uma sociedade. (IPS/Envolverde)


