COPENHAGA, 06/01/2010 – Um dos principais componentes da acção mundial sobre alterações climáticas serão as medidas de adaptação às mudanças que já são inevitáveis. A Aliança Mundial de Género e Alterações Climáticas (GGCA) defende que se deve prestar uma atenção especial às necessidades das mulheres.
“Com as alterações climáticas a afastarem a sua fonte de rendimento, devido aos padrões climáticos irregulares, o que as impede de se dedicarem à agricultura, as mulheres têm de encontrar uma outra forma de ganhar a vida,” disse Rachel Harris, coordenadora de comunicação da GGCA.
As mulheres constituem a maioria dos pequenos agricultores em África e noutros países em desenvolvimento. Em contraste com as opções abertas a muitos homens, poucas mulheres podem dar uma resposta às secas, por exemplo, indo para as cidades ou para outras zonas rurais para procurar trabalho. Muitas vezes as mulheres estão limitadas pela necessidade de cuidar dos filhos ou por obstáculos sociais que impedem a sua mobilidade; frequentemente, nem sequer possuem as mais pequenas poupanças ou os bens necessários que possam ser vendidos para superarem os tempos difíceis.
Rodney Cooke, Director da Divisão de Assessoria Técnica do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), admitiu que os mecanismos de financiamento anteriores negligenciaram as agricultoras. “Cometemos erros antes,” disse Cooke. “As mulheres representam 70 por cento dos pequenos agricultures, especialmente na África subsariana mas, por uma razão ou outra, os alvos do financiamento foram orientados para os homens de forma desproporcionada.”
A entidade patronal de Cooke, a FIDA, é a agência das Nações Unidas encarregada de apoiar financeiramente aqueles que vivem nas zonas rurais. A organização foi criada como resposta à crise alimentar dos anos 70. Cooke disse que não existiam directrizes claras integradas no financiamento anterior sobre a forma como as mulheres iriam beneficiar.
A aliança não está à espera que se chegue a um acordo para se queixar que o financiamento cego em relação ao género não está a chegar às mulheres que mais precisam dele. Em vez disso, apresenta propostas que assegurem que as mulheres sejam agentes de mudança, capazes de criar e adoptar novas opções agrícolas e explorar outras possibilidades empresariais de risco como adaptação às alterações climáticas.
Constance Okeletti, uma pequena agricultora no Uganda, afirma que as mulheres têm muitos conhecimentos úteis à adaptação, visto que trabalham com o meio ambiente através das suas obrigações em casa: ir buscar água, apanhar lenha e frutos, e também cultivar a terra.
“Temos tentado adaptar-nos desde que as alterações climáticas começaram a afectar-nos. Com dinheiro, podemos fazer mais,” disse.
Okelleti observou que a maior parte da ajuda ao desenvolvimento orientada para os países africanos não chega às mulheres ao nível das bases porque não existem disposições específicas sobre a quantidade de ajuda que deve ser atribuída aos pobres.
“Não sabemos se é consumida pelos políticos ou pelos trabalhadores nas cidades,” disse Okelleti, que representa uma rede de 40 grupos de pequenos agricultores no Uganda.
“As mulheres não responsabilizam as pessoas que ocupam cargos de autoridade porque nem sequer sabem quanto é que destinado para ajudar as mulheres,” acrescentou.
“Esperamos que o texto final da declaração sublinhe a percentagem do financiamento que se espera seja usado para ajudar os projectos das mulheres para que elas se adaptem às alterações climáticas,” referiu Okelleti.
A GGCA, em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimentro (PNUD), criou uma Iniciativa de Negócios Verdes destinada às mulheres, visando promover as oportunidades empresariais das mulheres no âmbito da mitigação e adaptação às alterações climáticas, com vista a captar uma parte do financiamento destinado às alterações climáticas.
“Por exemplo, através desta iniciativa, um grupo local de mulheres no Ruanda usa uma subvenção de crédito de carbono voluntária para implementar um projecto de bambu que visa produzir receitas e proteger o meio ambiente,” afirmou Lucy Wanjiru, da secção do género e alterações climáticas do PNUD e da GGCA.
Acrescentou que, com o financiamento do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e do Fundo de Adaptação, assim como o novo dinheiro que advirá dos planos de redução de emissões dcorrentes da desflorestação e degradação (REDD), as mulheres podem ter acesso a fundos para iniciarem projectos ecologicamente sustentáveis – quer seja a plantação de árvores ou a gestão de empreendimentos ligados ao eco-turismo – e, dessa forma, ganharem a vida.
“A agricultura é o sector mais vulnerável às alterações climáticas,” disse Cooke. “Mais dois milhões de pessoas na África subsariana vão ser afectadas pelas faltas de água, e a maioria destas pessoas são mulheres.”
Se o acordo da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas atingir os seus objectivos, adiantou, terá de integrar uma perspectiva sensível ao género.
* Este artigo aparece no diário da IPS TerraViva em linha publicado para a Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas em Copenhaga.

