ISRAEL: Impassível diante de renovada pressão dos EUA

Jerusalém, 13/01/2010 – No passado, os nervos de Israel ficavam à flor da pele cada vez que havia algum sinal de pressão dos Estados Unidos. Mas agora tudo mudou. Há nove meses o clima ficou tenso consideravelmente quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, se enfrentaram na Casa Branca. A insinuação de que Washington pode estar renovando sua pressão começou com um informe segundo o qual o chefe de gabinete ministerial do governo de Obama, Rahm Emanuel, disse a um diplomata israelense que seu país está “farto” da falta de progresso nas negociações e advertiu que examina reduzir seu compromisso com os esforços de paz.

Emanule disse que seu país está cansado de Israel paralisar essas iniciativas e que somente se mostra disposto a adotar as ideias de Washington quando já não podem ser efetivas. Isto ficou exposto durante entrevista com o senador George Mitchell, enviado especial de Obama para o Oriente Médio, transmitida sexta-feira pela rede norte-americana PBS. Mitchell sugeriu a possibilidade de, no caso de se desbaratar sua política de paz, o governo reter as garantias de créditos concedidos a Israel. Os dois comentários pareceram improvisos, mas, provavelmente, foram bem estudados.

Isto lembra a época em que James Baker era secretário de Estado no governo de George Bush (1989-1993) e ameaçou dar as costas a Israel, para depois condicionar sua ajuda econômica a que o Estado judeu concordasse em participar da cúpula da paz do Oriente Médio de 1991 em Madri. A pressão funcionou. Esta semana, enquanto Mitchell volta a partir para a região, em Israel o estado de ânimo é, estranhamente, relaxado, desfrutando do incomum sol de inverno como se não soprassem ventos gelados desde Washington ou Europa.

“Examinei toda a transcrição duas vezes, e não há nem mesmo uma insinuação de pressão”, disse Dan Meridor, alto membro do gabinete de Netanyahu, desmerecendo a entrevista de Mitchell à PBS. Segundo o ministro das Finanças, Yuval Steinitz, “na realidade, Estados Unidos e Israel renovaram nosso acordo de garantias de empréstimos há apenas dois meses. De todo modo, não pretendemos usá-las no futuro próximo”.

Steinitz se referia à declaração do governador do Banco Central de Israel, Stanley Fisher, de que a economia “israelense não está absolutamente afetada por um clima político instável, como presumem alguns no exterior”. De fato, “essa estabilidade contribuiu com um clima positivo em matéria de investimentos, permitindo a Israel passar com bastante êxito pela crise mundial”, disse Fisher à Voz de Israel. Além disso, os senadores norte-americanos Joe Lieberman e John McCain, ambos de visita a Israel, disseram que “não há nenhuma maneira” de o Congresso de seu país negar apoio ao Estado judeu.

Assim, se não se contempla uma pressão real contra Israel, para onde se dirige a política dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio? Durante o final de semana, a secretária de Estado, Hillary Clinton, uniu-se a Mitchell ao assinalar a direção da nova ofensiva de paz norte-americana. Clinton e Mitchell se reuniram no Departamento de Estado com os ministros das Relações Exteriores do Egito, Ahmad Abulgheith, e da Jordânia, Nasser Judeh. Estes dois são os únicos países árabes que mantêm relações diplomáticas formais com Israel, e considerados cruciais para fazer avançar o processo de paz.

Hillary disse que o governo decidiu impulsionar as conversações paralisadas evitando o tema dos assentamentos, antes considerado crucial, centrando-se na delimitação de fronteiras em favor da solução de dois Estados. Segundo fontes do Departamento de Estado, espera-se que a nova campanha de Washington inclui a redação de cartas estabelecendo as áreas a serem abordadas em um acordo final. Também se espera garantia do apoio norte-americano para as duas partes na implementação de um plano de paz.

Chegar primeiro a um acordo sobre as fronteiras de um futuro Estado palestino servirá para abordar as preocupações palestinas em relação à construção de assentamentos, insistiu a secretária. “Resolver as fronteiras resolve os assentamentos”, acrescentou sobre a tentativa de renovar a iniciativa de paz dos Estados Unidos. “Precisamos elevar nossa vista e olhar a floresta em lugar da árvore”, disse após as reuniões. A “árvore” são os assentamentos e a “floresta” as fronteiras.

Israel é categórico em creditar a culpa pelo fracasso no reinício das conversações à outra parte. “Ninguém tem nem uma sombra de dúvida sobre quem é responsável”, disse o ministro da Educação, Gideon Saar, próximo de Netanyahu. “Os palestinos continuam apresentando condições. Nossa vontade sem precedentes de impor um congelamento das colônias mostra que falamos sério”, acrescentou.

Sabe Erekat, principal negociador palestino, respondeu ao chamado de Clinton para reiniciar as negociações “o mais rápido possível” e sem condições, reiterando a reclamação palestina de por fim a toda construção de assentamentos nos territórios ocupados. “Não se pode discutir sobre fronteiras enquanto o território no qual um quer estabelecer seu Estado é consumido pelos assentamentos”, disse Erekat à IPS.

Provavelmente, o governo de Obama não vai querer que lhe lembrem o fracasso de sua primeira incursão nos esforços de paz. Mas, embora os palestinos se centrem em reclamar um congelamento total das colônias, o chanceler jordaniano alinhou-se com o enfoque norte-americano: “Se for resolvida a questão das fronteiras, então não só se resolverá automaticamente os assentamentos em Jerusalém como também se identificará a natureza da base da solução de dois Estados”, disse Judeh.

E na semana passada, após reunião entre Netanyahu e o presidente do Egito, Hosni Mubarak, o chanceler desse país fez um raro elogio ao primeiro-ministro israelense. “Não posso dizer que tenha vindo com uma posição mudada, mas está avançando. Tudo está sobre a mesa”, afirmou. Devido à versatilidade do enfoque dos Estados Unidos – deixaram de insistir em um congelamento total das colônias – agora os palestinos enfrentam um risco real de serem rotulados como responsáveis pela nova tática de paz de Obama, de ir direto às negociações e fracassar novamente. (IPS/Envolverde)

Jerrold Kessel

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