Ramala, 13/01/2010 – Dois ataques com explosivos cometidos em cibercafés de Gaza fazem os especialistas de inteligência de Israel e dos Estados Unidos temerem que as organizações rebeldes nesse território palestino sejam mais poderosas do que o próprio Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que o governa. Os ataques no começo do mês em Khan Yunis antecederam uma advertência contida em um estudo do Washington Institute for Near East Policy cuja apresentação estava prevista para os próximos dias.
Nessa pesquisa se diz que as entidades palestinas rebeldes instaladas em Gaza podem estar operando próximas da rede fundamentalista Al Qaeda, liderada pelo saudita Osama bin Laden, que convoca uma guerra santa mundial. A agência Associated Press (AP) obteve uma cópia do estudo, feito por Matthew Levitt, especialista em antiterrorismo e inteligência que trabalha para o Washington Institute, e Yoram Cohen, ex-subdiretor dos serviços de segurança israelenses, conhecidos pela sigla em hebreu Shin Bet.
“É provável que a Al Qaeda não esteja convencida do compromisso ideológico de organizações como Jaish al-islam”, disse Levitt à AP. “A Al Qaeda também pode ter preocupações sobre a sobrevivência desses grupos, incluída sua suscetibilidade à infiltração por parte da inteligência israelense”, acrescentou. Sabe-se que em Gaza operam várias organizações. Presume-se que cada uma tenha entre 200 e 300 homens, o que as torna pequenas, mas, de todo modo, uma ameaça significativa.
O enfrentamento mais sério entre os grupos extremistas e o Hamas, que tenta controlá-los, eclodiu em agosto, quando o grupo Jund Ansar Allah declarou a localidade de Rafah “emirado islâmico” e escondeu seus combatentes em uma mesquita local. Um tiroteio entre as forças de segurança do Hamas e os rebeldes armados, que haviam colocado explosivos em pontos estratégicos desse templo, deixou 20 mortos, principalmente rebeldes. Na semana seguinte podia se ver policiais do Hamas revistando automóveis em barreiras instaladas por toda a cidade de Gaza, enquanto várias bombas explodiam no exterior de prédios do governo, em evidente represália pelo tiroteio em Rafah.
Antes que o Hamas assumisse o controle de Gaza em junho de 2007, houve vários seqüestros de ocidentais, entre eles o jornalista da BBC Alan Johsnton, que depois o Hamas conseguiu libertar. Acreditava-se que os seqüestros eram praticados por clãs de Gaza afiliados à Al Qaeda, que antes haviam administrado redes de extorsão e contrabando vinculadas à Autoridade Nacional Palestina, que governava na faixa antes do golpe do Hamas. Desde então, o Hamas as enquadrou para levar segurança às ruas de Gaza. Mas, a série de ataques contra cibercafés, salões de barbeiro e outros comércios continuaram esporadicamente.
Os extremistas consideram que esses locais são ocidentais e anti-islâmicos, e argumentam que o Hamas não aplica rigidamente a lei islâmica em Gaza. Também são contra a trégua do Hamas com Israel. Os serviços de segurança do Estado judeu dizem que dezenas de combatentes estrangeiros e extremistas islâmicos entraram em Gaza, mediante seus túneis subterrâneos utilizados para o contrabando, onde recebem mais enfrentamento na preparação de um confronto militar com Israel.
Presume-se que muitos combatentes seguiram por Gaza após deixarem o Iraque, enquanto as forças dos Estados Unidos continuam reduzindo suas operações ali e, por fim, se tornam um alvo menos interessante para os rebeldes. Estes são parte da Jihad (guerra santa) internacional. Muitos se identificam com a Al Qaeda e podem ter participado de uns poucos ataques contra Israel desde a faixa de Gaza.
Israel afirma ser provável que aumente o fluxo de combatentes, e afirma que embora o Hamas não consiga controlar os grupos como a Jihad Islâmica e a Frente Popular para a Liberação da Palestina, se esforça para dominar os combatentes estrangeiros. Porém, os israelenses acreditam que o Hamas não está interessado nos lutadores estrangeiros que entram em Gaza, já que estes operam independentemente do movimento de resistência baseado na faixa, e ameaçam provocar ataques em represália por parte de Israel.
Os autores do estudo do Washington Institute acreditam que a Al Qaeda ainda não tem vínculos firmes com organizações extremistas, devido à sua falta de compromisso na abordagem de um alvo ocidental, mas isto pode mudar. Samir Awad, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Birzeit, perto de Ramalá, considera improvável algum estabelecimento de laços fortes. “Estes grupos cindidos são pequenos e desorganizados, e constituem uma reação mais espontânea ao bloqueio israelense de Gaza e à falta de trabalho, esperança e futuro”, disse Awad à IPS.
“Estas pessoas estão desesperadas e desempregadas, e têm muito tempo livre. Nessas circunstâncias as pessoas começam a quebrar e se fixar em maneiras alternativas de aliviar a pressão social e econômica. Por isso o bloqueio de Israel é tão contraproducente e pode levar a uma violenta reação contra o Estado judeu”, acrescentou Awad.
Ahmed Yousef, assessor do líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, disse à IPS: “Manteremos a situação sob controle e nunca permitiremos que estas organizações voltem a levar a desordem para nossas ruas”. Enquanto isso, nos arredores do acampamento de refugiados de Burej, ao sul da cidade de Gaza, um grupo de combatentes mascarados e armados de Jaish al-Sunnah foi detectado realizando treinamentos. (IPS/Envolverde)

