Peshawar, Paquistão, 06/01/2010 – Para as paquistanesas da Província da Fronteira Nordeste 2009 foi um ano especialmente duro e as previsões para 2010 não são animadoras. Em um esforço para negociar com o movimento islâmico afegão Talibã no vale do Swat, o governo permitiu a aplicação da shariá (lei islâmica), mas, longe de pacificar a região, os talibãs de Swat ocuparam o vizinho Buner e desataram uma maciça operação militar que obrigou milhares de civis a abandonarem suas casas.
Organizações da sociedade civil se esforçam para enfrentar o enorme fluxo de refugiados. A IPS entrevistou Ruskhshanda Naz, que desde 1993 luta para melhorar a situação das mulheres na Província da Fronteira Nordeste. Esta advogada de profissão trabalha com a Fundação Aurat, que ajuda a população feminina em zonas de conflito e guerras.
IPS – O governo afirma que assumiu o controle de muitas áreas que estavam sob controle de diferentes facções do Talibã. É verdade?
Ruskhshanda Naz – Não posso falar sobre algumas áreas, mas a cultura se desenvolveu pela talibanização e pelas políticas do governo. As pessoas precisam de tempo para se recuperar e confiar novamente nas autoridades.
IPS – O ano de 2009 começou com um acordo entre o governo provincial e Tehrik-e-Talibã em troca de vigorar a lei islâmica em Malakand, onde fica o vale de Swat, na fronteira com o Afeganistão. Qual a situação das mulheres ali?
RN – Não creio que haja muitas diferenças, a não ser por haver menos medo do Talibã. O trauma está generalizado. A humilhação por ter de deixar sua casa é muito grande.
IPS – Quem sofreu mais com os enfrentamentos entre combatentes do Talibã e o exército, que acabaram expulsando quase dois milhões de pessoas, as mulheres ou os homens?
RN – Vou responder com testemunhos obtidos por minha equipe de trabalho. “Há dois anos, às oito da noite, estávamos em minha casa conversando após o jantar quando chegaram entre 15 e 20 xiitas”, contou uma mulher. “Primeiro pegaram meu cunhado e o mataram na nossa frente. Depois levaram para fora de casa meu filho Moahammad de 15 anos e também o mataram. Ainda ouço seus gritos”, lamentou. “O medo me deixou paralisada. Mas, com força de vontade e minhas três filhas, dois netos e uma nora, fugimos”, acrescentou.
Uma mulher da agência de Parachinar Kurram (nas Áreas Tribais Administradas Federalmente) testemunhou que talibãs xiitas seqüestravam muitas delas para violentá-las. Eles crêem que se fizerem sexo com sunitas irão para o paraíso. “Estou contente com o nascimento de minha sétima filha”, disse outra mulher. “Mas me preocupa a pobreza. Uma delas perdeu o sapato, não posso comprar novos, e ela anda descalça por aí”, acrescentou.
Outra mulher, do distrito de Bajaur disse: “Um dia, uma mulher levava um frango quando um automóvel com talibãs parou. A obrigaram a entrar no veiculo e lhe pediram que trocasse o frango por um pouco de carne. Por medo ela entregou o frango, mas ao chegar em casa descobriu que a carne era, na verdade seios de mulher”.
IPS – Quais consequências tem para as mulheres abandar suas casas?
RN – As mulheres dessas áreas se acostumaram a viver na privacidade de suas casas, com ditam as normas culturais. E de repente se encontram em um espaço público e obrigadas a interagir com outras pessoas, o que lhes causa grande insegurança psíquica.
IPS – É essencial para as autoridades e a sociedade civil conseguir a paz para alcançar alguns dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, como igualdade de gênero. Qual é a resposta da sociedade civil?
RN – A sociedade civil implementa numerosas iniciativas. O governo maneja a avalanche de refugiadas graças à ajuda das organizações. Não só respondem rápido à necessidade imediata de reabilitação, mas também atendem várias questões por meio de programas de assessoramento.
IPS – Assim com escolas, professores e professoras sofreram ataques dos bandos em luta. Acontece o mesmo com voluntários e trabalhadores de organizações não-governamentais?
RN – Alguns trabalhadores foram mortos e seqüestrados. Às vezes, as famílias se aproveitam do terrorismo e da violência religiosa para acertar disputas entre elas e honrar casos de assassinato.
IPS – É preciso ter coragem para defender a democracia e os direitos humanos, entre outros assuntos, não?
RN – Não é difícil. Só é preciso acreditar e estar comprometido. Se for sincero consigo mesmo, é mais fácil. Nunca desanimo e isso me dá força e esperança.
IPS – A senhora acredita que a segurança melhorará em 2010?
RN – Não creio, mas tenho uma esperança, que haja mais resistência popular e mais luta pela paz e pelos direitos humanos.
IPS – A senhora crê que os programas do governo e as atividades das organizações não-governamentais poderão ser reiniciadas e ajudar as pessoas?
RN – De certa forma sim, mas será necessário maior compromisso de ambas as partes e terão de ser mais flexíveis para mudar de estratégia. (IPS/Envolverde)

