Mudança climática: Novo motivo de choque entre Índia e Paquistão

Srinagar, Índia, 19/01/2010 – A redução da neve e o retrocesso das geleiras na disputada província da Caxemira, na cadeia montanhosa do Himalaia, poderiam renovar as hostilidades entre Índia e Paquistão, países vizinhos e rivais da Ásia meridional. Os dois Estados compartilham o Rio Indus, um dos mais longos do mundo. Sua corrente nasce no Tibete e flui ao longo do Himalaia. Cruza a disputada Caxemira, atravessando tanto a área administrada pelo Paquistão quanto a controlada por Nova Délhi. Os dois países mantêm há anos uma disputa territorial pela Caxemira, mas, com mediação do Banco Mundial, alcançaram o Tratado pela Água do Indus, que fornece mecanismos para resolver as diferenças sobre o uso da água. Qualquer diminuição drástica na disponibilidade de água na região tem potencial para desatar uma guerra entre estes dois vizinhos rivais, afirmam especialistas. A Caxemira fica na parte noroeste da Ásia meridional, e inclui o Estado indiano de Jammu Caxemira e no Paquistão a província de Azad Caxemira e outras áreas. Também há áreas ocupadas pela China.

Segundo descobertas científicas de dezembro passado, a cobertura de neve em Jammu e Caxemira está baixando, enquanto a temperatura aumenta. Estas conclusões são resultado de um estudo feito por um grupo de cientistas liderados por H. S. Negi e divulgado pela publicação bimensal indiana Journal of Earth System Sciences. O estudo se baseou em 20 anos de informação sobre condições climáticas na área, cobrindo os períodos entre 1988 e 1989 e 2007 e 2008, e foi realizado nas épocas de inverno entre novembro e abril de 2004/05, 2005/06 e 2006/07.

“O acompanhamento da cobertura de neve foi feito para avaliar os padrões de acúmulo e perda nas montanhas de Pir Panjal e Shamshawari, no Vale da Caxemira”, disse Negi. “O estudo mostra uma redução no alcance da cobertura de neve estacional e uma crescente tendência a uma temperatura máxima em três invernos para todo o vale da Caxemira”, acrescentou. Negi e sua equipe descobriram que o total de neve que caiu no inverno 2004/05 foi de 1.082 centímetros ao longo do Vale, mas esta caiu para 968 no período 2005/06 e para 961 entre 2006/07.

“Fevereiro, o segundo mês de máximas nevadas, mostrou uma rápida flutuação, com 585 centímetros no período 2004/05, contra 207 em 2005/06 e 221 em 2006/07”, disseram os cientistas, acrescentando que as temperaturas permaneceram acima de zero grau nos invernos, menos em 2004/05 e em 2006. Ao contrário dos rios do leste do Himalaia, como o Brahmaputra, que são principalmente alimentados por chuvas, a maior parte da água que vai para o Indus procede do derretimento de neve, incluindo a das geleiras. O aquecimento global afeta negativamente os padrões de derretimento dos gelos.

“O sistema hídrico do Indus é vital para o Paquistão, já que entre 75% e 80% da água que flui para esse país é a que derrete das geleiras do Himalaia”, explicou o diretor-executivo do paquistanês Centro de Estudos sobre Impactos da Mudança Climática, Irshad Muhammad Khan. “O derretimento desta geleira forma a coluna vertebral da rede de irrigação do Paquistão, com a qual são regados 90% de sua terra agrícola”, acrescentou. Qualquer transtorno no fluxo da água causaria um grave impacto na produção agrícola paquistanesa, disse o cientista. “Até gora, o Tratado pela Água do Indus funcionou bem, mas o impacto da mudança climática pode colocá-lo à prova”, afirmou à IPS o economista Parvez Amir.

Pelo tratado, assinado em 1960, os dois países também compartilham cinco afluentes do Indus: Jhelum, Chenab, Ravi, Beas e Sutlej. O acordo dá ao Paquistão direitos exclusivos sobre as águas do Indus e seus afluentes ocidentais, o Jhelum e o Chenab, enquanto a Índia utiliza o restante. Para Mohammad Sultan, professor de Geografia na Universidade da Caxemira, a temperatura na região mostra tendências preocupantes nas últimas décadas. “De 1950 a 1975, a temperatura apresentou tendência de baixa (0,2 grau abaixo que o normal), mas depois de 1975 vem crescendo (0,4 grau acima do normal), e isto continua”, afirmou.

Sultan disse ainda que as chuvas nas partes mais baixas da Caxemira caíram 1,2 centímetros nas altitudes menores e oito centímetros nas mais altas, a partir de 1975. “Esta perturbação causará impacto no acesso à água no futuro”, alertou. Fazer com que Índia e Paquistão compartilhem a água será uma “tarefa extremamente difícil, já que a água na superfície se tornará cada vez mais um bem escasso devido à redução das reservas nas montanhas”, ressaltou. IPS/Envolverde

Athar Parvaiz

Athar Parvaiz has been an IPS contributor since 2008. Based in Srinagar, Indian Administered Kashmir, he writes about environment, health, human rights and development issues.

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