SUAZILÂNDIA: Namorar em tempo de VIH

MBABANE, 22/02/2010 – Jabulile Dlamini* é uma jovem de dezasseis anos e nunca foi beijada. E não espera ser beijada no futuro imediato. Está relutante em envolver-se numa relação devido às complicações que o facto de ser seropositiva lhe poderá trazer. Mas esta aluna da escola secundária admite não ser imune ao amor e que se sente atraída por alguém que vai com ela à igreja.

Tem um brilho nos olhos quando fala da pessoa por quem está apaixonada, um rapaz que já declarou o seu amor. Porém, o pensamento de lhe ter de revelar que é seropositiva impede-a de declarar os seus verdadeiros sentimentos.

“Estou preocupada que ele me envergonhe revelando que sou seropositiva a outras pessoas,” disse Dlamini.

“Penso que é justo revelar a nossa condição ao nosso namorado mas não tenho a certeza como é que ele vai reagir,” acrescentou. “Cada vez que ele declara o seu amor, digo-lhe que não consigo lidar com o facto de ir à escola e ter um namorado ao mesmo tempo.”

Segundo o Conselho Nacional de Resposta de Emergência para o VIH / SIDA, calcula-se que 15.000 crianças vivem com o VIH / SIDA. A maioria destas crianças já nasceu com o vírus: a monitorização pré-natal nas clínicas mostra que houve um aumento da seroprevalência nas mulheres grávidas na Suazilândia de 39.2 por cento em 2006 para 42 por cento em 2008.

A Suazilândia tem o nível de infecção mais elevado do mundo. Quase 26 por cento da população entre os 15 e 49 são seropositivos.

“Sempre fui uma criança doente, a minha mãe levava-me aos curandeiros tradicionais mas a minha condição não melhorava,” contou Dlamini. “Tinha uma grave erupção cutânea em todo o meu corpo, o que afectava a minha produtividade na escola, porque estava ausentee a maior parte do tempo.”

O pai de Dlamini, mineiro, morreu em 2001. Era seropositivo, mas a mãe de Dlamini acreditava que a morte do marido e a subsequente doença da filha eram resultado de bruxaria.

Em 2007, familiares convenceram-na a procurar assistência médica, e mãe e filha foram encaminhadas para o Colégio Baylor da Fundação Médica Para Crianças na Suazilândia (BCMCFS), para se submeterem a testes e a aconselhamento sobre o VIH.

Os exames de Dlamini revelaram que era seropositiva e a mãe, vendedora de alimentos no Mercado de Mbabane, também foi diagnosticada com VIH.

“Quando o médico me disse que tinha sido infectada com o VIH, chorei e perguntei à minha mãe onde é que tinha contraido o vírus. Ela disse-me que eu nascera com ele,” contou Dlamini.

Tinha apenas 13 anos na altura e foi-lhe imediatamente receitado medicamentos ART. Devido ao aconselhamento extenso que recebeu e ao facto de ter entrado para o Clube dos Adolescentes do BCMCFS (onde continua a receber ART gratuitamente), Dlamini conseguiu aceitar que ‘viver com VIH não é uma sentença de morte.’

Aberto oficialmente em 2006, o BCMCFS proporciona um refúgio seguro para crianças e jovens adultos que vivem com VIH. Actualmente, um total de 1.500 crianças fazem parte do programa, onde recebem aconselhamento e fazem testes, iniciando depois o seu tratamento e apresentados a um grupo de apoio.

Depois de chegar à conclusão que uma geração de crianças nascidas com VIH eram agora adolescentes, o BCMCFS iniciou o Clube dos Adolescentes.

Perto de 200 adolescentes em todo o país fazem parte do Clube dos Adolescentes, que tem dois centros na capital comercial e administrativa da Suazilândia. Outros dois centros estão a ser planeados noutras regiões do país.

“Quanto mais cedo as crianças receberem ajuda no sentido de compreenderem o facto de serem seropositivas, melhor lidam com o VIH / SIDA,” afirmou o Director do BCMCFS, o Dr. Hailu Sarero.

“Mas lidar com estas crianças representa um grande desafio, porque a maior parte delas são orfãs de um dos pais ou então de pai e mãe. A segurança alimentar e o problema dos familiares abusivos constituem um desafio ainda maior,” disse Sarero.

“Não são questões fáceis, e temos de nos associar a outras organizações para lidar com elas,” explicou Sarero. “Como organização, temos limites em termos daquilo que podemos fazer.”

Mas, para Dlamini, a organização trouxe uma grande diferença à sua vida. Uma vez por mês, encontra-se com outros adolescentes que vivem com VIH no centro. Aqui, os adolescentes que vivem com o vírus juntam-se para falarem das suas preocupações.

O Clube discute uma série de tópicos, incluindo como tomar os ARVs correctamente, a patologia do vírus, como é transmitido, como lidar com a revelação feita aos amigos e colegas, a relação entre a nutrição e o VIH e como continuar a concentrar-se nos seus sonhos.

“Tenho um amigo no Clube dos Adolescentes com quem me sinto confortável e com quem posso trocar confidências, especialmente sobre questões ligadas ao VIH / SIDA,” afirmou Dlamini.

Explicou ainda que o fazer parte do Clube a ajudara a conquistar uma certa dose de confiança e que deixara de ser tímida quando está com outras pessoas. Apesar de não estar preparada para namorar, diz que agora se relaciona muito melhor com o sexo oposto por comparação ao que acontecia no passado.

“A interacção com muitas crianças na minha situação no Clube fez-me comprender que não estou sozinha com este problema,” declarou.

De acordo com o coordenador do Clube dos Adolescentes, o Dr. Douglas Blank, as crianças seropositivas têm de lidar com questões intensas numa idade muito tenra, o que representa uma grande carga emocional para elas.

“O Clube dos Adolescentes oferece um ambiente sem estigma que as ajuda a lidar com este problema,” disse Blank.

Blank acrescentou que todas as crianças passam por uma fase volátil durante a adolescência, que é uma transição complexa da infância para a idade adulta.

Explicou ainda que, enquanto os adolescentes se debatem com mudanças emocionais e físicas, as exigências da cultura, género, globalização e pobreza forçam milhões de adolescentes a enfrentarem responsabilidades dos adultos.

“Estes desafios aumentam de intensidade nos adolescentes que vivem com o VIH / SIDA,” afirmou Blank.

Poucos dos membros do Clube dos Adolescentes parecem ter a idade que têm. Segundo Blank, a subnutrição é um grave desafio para as crianças seropositivas, porque o corpo exige uma maior energia para combater as constantes doenças que são frequentes nas crianças seropositivas.

“De facto, a maior parte destas crianças ainda não atingiu a puberdade devido ao VIH / SIDA,” disse Blank.

Mas Dlamini para lá caminha. Participou num recente acampamento de fim-de-semana odo Clube dos Adolescentes onde houve um debate sobre o desenvolvimento dos adolescentes.

“Depois dessa experiência, apercebi-me que sou igual a qualquer outra criança e qur vou passar por todas as fases que as crianças passam – e isso inclui o namoro,” disse com um sorriso maroto.

*O nome foi alterado para proteger a identidade da menor.

Mantoe Phakathi

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