DESTAQUES: Semeando o futuro

BERLIM, 02/02/2010 – (Tierramérica).- A necessidade de reflorestar seu território levou as autoridades da Alemanha à busca de espécies resistentes à mudança climática em diferentes partes do planeta, entre elas o Altiplano boliviano.

A cicuta canadense (Tsuga canadensis), uma das espécies cultivadas em Laufen. - Scott Detwiler

A cicuta canadense (Tsuga canadensis), uma das espécies cultivadas em Laufen. - Scott Detwiler

Jovens árvores importadas crescem junto a espécies nativas no povoado alemão de Laufen, em um campo experimental para recompor as florestas perdidas devido ao aquecimento global. A floresta do futuro, formada por abetos búlgaros (Abies borissi-regis), faias orientais (Fagus orientalis), tílias prateadas (Tília tomentosa), cedros do Líbano (Cedrus libani) e cicutas canadenses (Tsuga canadensis), mantém algumas características dos velhos abetos, faias e carvalhos autóctones alemães, como a resistência à mudança climática.

“Aqui estamos semeando o futuro”, disse ao Terramérica Randolf Schirmer, diretor do Escritório de Botânica Experimental do Serviço Florestal do Estado da Baviera, encarregado do campo de Laufen. Nos últimos 40 anos, a mudança climática e seus fenômenos associados dizimaram as árvores nativas na Alemanha, sobretudo o abeto vermelho (Picea abies), explicou. Esta é uma espécie que lança raízes pouco profundas, por isso precisa de chuvas regulares, além de não ser particularmente resistente às tempestades.

Os verões especialmente secos e com temperaturas mais altas da década passada, e a crescente frequência e intensidade de tempestades e borrascas no centro da Europa fizeram estragos no abeto vermelho. Segundo o relatório florestal de 2009 do governo alemão, mais de 60% destas árvores do país sofreram devido às secas e tempestades desde 1984. Os danos maiores, manifestados na secura e falta de crescimento das coroas das árvores, ocorreram em 1992, 2002, 2003 e 2004. A debilidade que a mudança climática provoca também deixa esse abeto propenso a doenças e parasitas.

Vários especialistas florestais alemães estimam que, até 2100, pelo menos metade da floresta atual de abetos vermelhos terá desaparecido. O relatório florestal governamental confirma também danos semelhantes em faias, pinheiros e carvalhos. Por isso, as autoridades tentam criar uma nova floresta, que se adapte melhor às novas condições climáticas. Além disso, a floresta do futuro deverá proteger a biodiversidade, garantir a continuidade do ciclo da água, evitar a erosão e fornecer de maneira sustentável os recursos econômicos que a sociedade precisa. A busca por novas árvores para a floresta alemã, iniciada em 2008, seguiu as pistas estabelecidas pela mudança climática.

As árvores a serem importadas devem já crescer em regiões onde imperam as condições climáticas previstas para a segunda metade do século XXI na Alemanha: temperaturas dois graus mais altas do que as atuais no centro da Europa, com 25% menos de chuva no verão, entre junho e setembro. As regiões a serem exploradas na busca dessas espécies incluem o Altiplano boliviano, zonas montanhosas do Canadá, China, oeste dos Estados Unidos, sudeste europeu, especialmente os Bálcãs, e o litoral oriental do Mediterrâneo, Turquia, Síria e Líbano.

As sementes das árvores importadas foram plantadas em Laufen na primavera de 2009, mas algumas, como a espécie imperatriz (Paulownia tomentosa), não sobreviveram à mudança de habitat. Originária da China, esta árvore cresceu normalmente em seu primeiro verão alemão, alcançando quase um metro de altura. Mas, com a chegada do outono, e sobretudo do frio do inverno atual, morreram todos os exemplares plantados em Laufen. Seu rápido crescimento foi uma das razões para importá-la como substitua dos abetos vermelhos, explicou Schirmer. Por outro lado, árvores de pinheiro austríaco (Pinus nigra) e carvalho na puberdade (Quercus humilis), originários da Turquia, bem como de pinheiro pesado (Pinus ponderosa), do oeste dos Estados Unidos, parecem ter se adaptado ao clima do lugar.

As espécies que nos próximos anos mostrarem resistência ao clima regional serão transplantadas para outras regiões do centro da Europa, onde reinem condições climáticas semelhantes às de Laufen, tanto na Alemanha como na Áustria e Suíça, para supervisionar sua adaptação geral ao novo habitat, disse Schirmer ao Terramérica. Mas, a importação de árvores pode ser um problema ecológico adicional, e não a solução para os derivados da mudança climática. As novas espécies podem destruir o equilíbrio do habitat, ou introduzir parasitas e doenças desconhecidas na região. É o caso do pinheiro de Oregon ou abeto de Douglas (Pseudotsuga menziesii), que por causa de sua madeira foi visto originalmente como o substituto ideal do abeto vermelho alemão. Porém, este pinheiro cresce muito rapidamente, chegando a até 60 metros de altura. Por isso, é considerado um invasor que desloca facilmente as espécies locais, menores.

“Nas regiões onde as previsões climáticas de longo prazo são muito incertas, as autoridades devem adotar uma estratégia de poucos riscos” em matéria de importação de árvores, disse ao Terramérica Andréas Bolte, do Instituto de Pesquisas Florestais, da Alemanha. O lento crescimento das florestas permitirá estabelecer apenas dentro de 40 ou 50 anos se as decisões de renovação florestal adotadas agora foram as corretas para mitigar a mudança climática.

* O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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