Paucará, Peru, 05/02/2010 – Na região mais pobre do Peru, Huancavelica, não há apenas carências e necessidades extremas. Também há mulheres que se valem de sua criatividade, esforço e conhecimentos ancestrais para alimentar melhor suas famílias, apesar dos altos índices de desnutrição.

Marina Huamaní em seu trabalho comunitário em Padre Rumi, nos Andes peruanos. - Milagros Salazar/IPS
Ela vive em Padre Rumi, aldeia do distrito de Paucará, em Huancavelica, departamento do centro-sul do país, onde a pobreza chega a 85,7% de seus 400 mil habitantes e cerca de 45% das crianças sofrem desnutrição.
Huancavelica, uma escarpada região da parte central da Cordilheira dos Andes, tem como capital uma cidade de mesmo nome, 457 quilômetros a sudeste de Lima. Dali até Padre Rumi um trajeto de três horas passa por uma difícil estrada.
Huamani não dá importância ao seu talento para a cozinha, mas graças a ele pode inventar uma série de receitas com todo tipo de produtos tradicionais de alto valor nutritivo, que são vitais para combater a fome em sua comunidade.
Sua engenhosidade foi premiada em um concurso gastronômico realizado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) para promover o consumo de alimentos nutritivos nas famílias camponesas desse combalido distrito.
A FAO considera que a situação da insegurança alimentar mundial piorou e continua representando grave ameaça para a humanidade. A organização calcula que o número de famintos pode aumentar em cem milhões esse ano, e assim passar de um bilhão no total.
“As mulheres são importantes no cuidado do gado, na preservação de variedades de cultivos e preparação de alimentos”, disse Hernán Mormontoy, engenheiro agrônomo e coordenador de um projeto de desenvolvimento que a FAO executa em quatro comunidades de Paucará.
“Sobretudo agora, com os impactos da mudança climática que agrava a situação de pobreza do ande (os Andes)”, acrescentou.
Huamaní, de 49 anos, é uma das beneficiadas por esta iniciativa, que procura fortalecer as organizações comunitárias, resgatar o consumo de alimentos tradicionais e conectar a produção agrícola com o mercado para que as populações melhorem sua renda e garantam sua segurança alimentar.
Os responsáveis pelo projeto reconhecem que o machismo é um dos aspectos que jogam contra. Nestas comunidades, ainda “se faz o que diz o homem”, pelo menos em 30% ou 40% dos casos, calcula Edwin Rivera, engenheiro agrônomo do não governamental Desco, aliado da FAO.
No final de 2009, nas quatro aldeias existiam 82 promotores camponeses do projeto, dos quais apenas 18 eram mulheres. Embora a participação das mulheres ainda seja fraca em todo o projeto, em uma das comunidades, Anchonga, há uma presença maior: de 25 promotores, 12 são mulheres.
“Buscamos reverter esta situação para que mulheres e homens assumam papeis equitativos”, disse Rivera.
Época e valor nutritivo
“Eu me apresentei ao concurso com um menu completo à base de chuño. Fiz um recheio de chuño com cebolinha e carne, também fiz sopa e café de chuño”, disse sorridente Huamaní em uma pausa em seu trabalho comunitário, onde a IPS a encontrou abrindo uma valeta com picareta e pá.
Assegurou que a infusão de chuño é fácil de fazer. “Primeiro se molha, depois se tosta na frigideira até ficar negro e em seguida joga-se água quente com canela, cravo e um pouco de funcho”. Como nasceu esta receita? “Saiu de dentro, de meu pensamento, de meu coração”, respondeu em quéchua, sua língua nativa.
O chuño é um produto baseado em uma técnica ancestral de desidratação, usada por séculos em Huancavelica, onde há 800 tipos de batatas nativas dentro das 2.500 variedades existentes no Peru, segundo a FAO.
Como o chuño, há na área outros alimentos que fornecem nutrientes como a quinoa, as batatas nativas, os tubérculos oca, olluco e tarwi, e a kiwicha (amaranto) que as mulheres começaram a resgatar neste rincão de Huancavelica não apenas para consumo próprio, mas também para venda.
Assim, além de melhorar a alimentação dos moradores, ocorre uma contribuição com a preservação da biodiversidade dos produtos agrícolas na região, que também é identificada como alto-andina e cuja população em mais de 90% é rural e indígena, segundo o projeto da FAO.
Nos festivais gastronômicos também são promovidos arbustos silvestres como o cochayuyo, de alta porcentagem de iodo, e o airampo, que cresce em abundância e que as mulheres usam para dar sabor à mazamorra (uma sobremesa) ou aos refrescos.
Porém, há alimentos que não são preparados por desconhecimento. É o caso do tarwi, um tubérculo que para os camponeses “tem sabor de veneno” por ser amargo devido ao seu alto conteúdo de alcaloides.
Pelo ensino de sua mãe, Huamaní, que alimentou sete filhos e quatro netos, contou que ela deixa o tarwi de molho por um mês em muita água, depois tira sua casca e prepara com atum e cebola.
A FAO começou a ensinar sobre sua preparação e melhorar sua produção nas fazendas dos milhares de beneficiados por seu programa.
Para isso, promoveu a visita de yachachis (mestres andinos) de Cusco a estas comunidades de Puacará.
Juvencia Oregón foi uma das participantes e agora alimenta sua família com tarwi. “Antes de cozinhá-lo tem de retirar o amargor deixando no rio por até oito dias para que vá embora todo esse gosto ruim”, explicou.
Florêncio Layme, um líder promotor, melhorou sua produção de tarwi com a ajuda de sua mulher e seis filhos. De 150 quilos de colheita inicial em um hectare, agora conseguiu produzir 650 quilos.
“Minha família ajuda a trabalhar a terra, fazer o adubo e plantar”, disse Layme, de 53 anos.
As mulheres costumam selecionar as sementes. “Isso meus avós me ensinaram”, contou Dionicita Carbaja, que tem uma horta orgânica de beterraba, alface e tomate para diversificar seu consumo familiar e melhorar sua alimentação.
“Já não compro verduras no mercado”, assegurou.
As mulheres também ajudam pisando o barro para a produção de adobe, do qual são feitas as casas na região. E são muito boas para a venda, como Máxima Silvestre, que tem um negócio de lácteos com sua família, que se chama Sementes de Vida.
Contudo, a escassez de água e a perda de cultivos pela mudança climática estão afetando as mulheres, responsáveis por assegurar o alimento para a família. “Às vezes, temos de caminhar longe para conseguir água”, disse Marina Wuispe, de Padre Rumi, onde a água encanada chega durante uma hora por dia e não existe serviço de esgoto.
Há mulheres que migram para as cidades em busca de novas oportunidades “Mães e filhas vão nos meses de férias, de janeiro a março, trabalhar como faxineiras”, disse Rivera, do Desco, um centro de estudos e promoção de desenvolvimento.
“Algumas voltam, mas outras não”, disse, reconhecendo que o maior desafio é envolver nestas iniciativas de desenvolvimento toda a família. IPS/Envolverde

