Washington, 12/02/2010 – Uma campanha de ataques contra o New Israel Fund (NIF), uma organização progressista dos Estados Unidos que apoia grupos de direitos humanos no Estado judeu, questiona a influência que as entidades não governamentais têm sobre as políticas do governo israelense. O assunto atraiu a atenção dos meios de comunicação dos dois países. Mas uma pesquisa da IPS, nos registros tributários disponíveis para o público, lançou uma luz sobre a origem dos fundos usados para esses ataques.
A organização israelense Im Tirtzú (“Se quiserem”, em hebreu) liderou os ataques, segundo os quais o NIF financiou o apoio e a participação de vários grupos no Informe Goldstone. Argumentam que isto foi parte de uma campanha do NIF para desacreditar Israel.
O informe em questão foi elaborado por uma comissão da Organização das Nações Unidas dirigida pelo juiz sul-africano Richard Goldstone e encarregada de investigar a guerra que houve entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro de 2009 em Gaza. O informe, apresentado em setembro do ano passado, concluiu que tanto o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) quanto Israel cometeram crimes de guerra durante o conflito.
A campanha divulgou no jornal israelense The Jerusalem Post um anúncio de página inteira mostrando a presidente do NIF, Naomi Chazan, ostentando um chifre demoníaco na testa. Chazan foi demitida de sua coluna bissemanal nesse jornal depois que ameaçou iniciar um processo na justiça contra o anúncio.
“Isto não tem base. É desapiedado. Está ideologicamente motivado e capitaliza a indignação do público israelense em torno do Informe Goldstone. O vemos como parte de um padrão mais amplo para dar fim à comunidade de direitos humanos de Israel”, disse à IPS Naomi Paiss, diretora de Comunicações do NIF. O legislador israelense Otniel Schneller propôs criar uma comissão parlamentar que examine o papel do NIF e dos que o financiam na transferência de “informação falsa, exagerada e não crível ao juiz Goldstone, prejudicando, assim, o interesse nacional de Israel”.
No momento, a Comissão não parece estar avançando, mas já formou uma subcomissão parlamentar para examinar as doações que algumas organizações israelenses recebem do exterior. A Im Tirtzú, que se descreve como “um movimento extraparlamentar para fortalecer valores sionistas”, requer que os doadores enviem suas contribuições à organização norte-americana Central Fund of Israel (CFI), sem fins lucrativos, que financia vários grupos israelenses de direita.
Entre eles, a Amits, que financia milícias de colonos, a Magen Yehuda, que ajuda no treinamento militar dos colonos, e a Women in Green, uma organização de mulheres direitistas que se opõe a devolver os territórios capturados por Israel durante a Guerra dos Seis Dias de 1967 e promove a “transferência” de árabes para países vizinhos. O jornalista Akiva Eldar disse, no jornal israelense Haaretz, que o CFI apoia uma yeshivá (centro de estudos sobre judaísmo) cujo líder, o rabino Yitzhak Shapira, tentou justificar a matança de bebês “gentis” pelo “futuro perigo que se criará se for permitido que se convertam em pessoas malvadas como seus pais”.
“O que vemos em Israel é uma maior intolerância oficial com a distensão”, disse Sarah Leah Whitson, diretora da Human Rights Watch para o Oriente Médio. “Uma das forças destacadas de Israel foi sua vibrante sociedade civil e seu florescente debate público. Assim, estes acontecimentos são particularmente preocupantes”, acrescentou. A IPS investigou registros tributários e assim conheceu os nomes de vários dos principais doadores – os que concederam mais de US$ 300 mil – ao CFI desde 2005. Essas contribuições estão isentas de impostos.
A maior fonte de financiamento encontrada pela IPS é a C Funding, uma fundação dirigida por David Fishel que a partir desse ano contribuiu com US$ 2,25 milhões para o CFI. Fishel trabalhava como analista financeiro na firma Liquidity Solutions, e antes foi diretor do Norpac, importante comitê de ação política a favor de Israel. O Norpac apoia a ajuda dos Estados Unidos a esse país, a implementação de sanções contra o Irã e a legislação para bloquear a ajuda à Autoridade Nacional Palestina até que esta assuma certos esforços contra o terrorismo. Tanto a Liquidity Solutions como a Capital Investors – empresa que parece ter sua sede na casa de Fishel – contribuíram com o a C Funding. Fishel não respondeu aos telefonemas da IPS em busca de suas declarações.
A segunda maior fonte de doações são fundações relacionadas com a IDT, uma empresa de telecomunicações com sede em Nova Jersey, que no ano fiscal encerrado em 31 de julho de 2009 faturou US$ 1,5 bilhão. A IDT Charitable Foundtion doou ao CFI US$ 870 mil desde 2005. E a Jonas Foundation – dirigida por Howard Jonas, fundador e presidente da IDT – deu US$ 1,12 milhões. Diante dos telefonemas da IPS, um representante da companhia respondeu que a IDT Charitable Foundation já não opera mais e nenhum de seus membros trabalha mais na IDT. De fato, a fundação não registra devoluções de impostos após 2007, mas vários de seus diretores ainda aparecem listados no site da IDT como executivos da empresa.
Fundações vinculadas à DKR Capital, um fundo de alto risco com sede no Estado de Connecticut, e um de seus fundadores, Barry L. Klein, doaram US$ 640 mil ao CFI desde 2005. As contribuições foram feitas através da Chesed Israel Foundation e da Ner Tzion Foundation. Ambas listam Klein como presidente ou diretor. Antes de criar a DKR, Klein fundou uma divisão da firma de seguros e serviços financeiros AIG (American International Group), que depois se converteu no AIG Trading Group e mais tarde teve papel destacado na queda da empresa, sendo objeto de um resgate financeiro por parte de Washington. Mark Weinrib, vice-presidente do Morgan Stanley entre 2007 e 2008 e vice-presidente do DKR de 1999 a 2007, também foi listado como membro das fundações de Klein.
Os doadores, que representam aproximadamente US$ 5,5 milhões em contribuições isentos de impostos para o CFI e organizações vinculadas a ele, com a Im Tirtzú, desde 2005 tornaram disponíveis ao público seus registros tributários. Porém, há muitas outras contribuições feitas com cheques pessoais ou em dinheiro que são impossíveis de rastrear. Os doadores cujos nomes vieram à luz nesta investigação escolheram não dar declarações sobre sua decisão de contribuir com o CFI
Porém, outro deles, a organização Christians United for Israel (Cufi- Cristãos Unidos por Israel), do pastor John Hagee, reconheceu ter financiado a ImTirtzú e disse que as ações adotadas pelas organizações têm um impacto no processo de tomada de decisões da Cufi quanto a “quais grupos financiar”, disse no dia 2 à Jewish Telegraphic Agency o porta-voz da entidade, Ari Morgenstern. IPS/Envolverde

