Ramala, 12/02/2010 – A pressão exercida sobre a Autoridade Nacional Palestina (ANP), por personalidades da região e do mundo, evitou no último minuto, ainda que temporariamente, que os moradores de Gaza ficassem na escuridão e sofrendo com a queda da temperatura. “A emergência foi detida de forma provisória, após a liberação de fundos urgentes pela ANP, para financiar a entrada de dois caminhões transportando combustível para Gaza no domingo”, explicou Osama Dabou, da Autoridade da Central Elétrica desse território palestino. “Esperamos a chegada de vários dentro em pouco. Mas é apenas uma medida provisória e vai durar pouco, depois s situação voltará a ser crítica”, disse Dabou à IPS.
“Isto significa que os serviços essenciais de Gaza, que dependem da eletricidade, vão parar de funcionar se o combustível terminar. Entre eles, hospitais, centros de saúde e estações de tratamento de esgoto”, disse à IPS Jamas Hamad, porta-voz da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina. As telecomunicações também serão prejudicadas. A Autoridade de Energia de Gaza divulgou, no sábado, um comunicado urgente anunciando que sua única central elétrica teve de desligar um dos geradores.
O órgão também advertiu que o gerador restante tinha combustível para funcionar apenas até domingo pela manhã e que operava com capacidade reduzida para 30 megawatts. “Gaza ficará prejudicada. A central não pode fornecer energia para mais de 50% dos moradores e pode aumentar para 60% se continuarem as más condições climáticas”, dizia o comunicado. Há vários dias, uma frente fria fez baixar as temperaturas de forma abrupta abaixo da média.
“No domingo, estivemos sem energia até 11 horas da noite. E, na segunda-feira, novamente, quando acordei às seis da manhã não havia eletricidade”, disse Hamad à IPS. “Há anos temos cortes de energia. Os últimos meses foram graves e a última semana foi nefasta”, acrescentou. O embargo imposto por Israel a Gaza em 2007, quando o Hamas assumiu o controle desse território palestino pelas armas, diminuiu de forma drástica a eletricidade fornecida por uma das redes israelenses. A importação de combustível israelense para a indústria, do qual dependem os geradores de Gaza, também foi gravemente restringida.
Além disso, a rede de fornecimento de energia de Gaza, muito prejudicada após os ataques israelenses, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, não funciona plenamente porque o Estado judeu impede a importação de peças de reposição. A Operação Chumbo Derretido incluiu artilharia pesada, bombardeio aéreo e incursão de forças terrestres de Israel. Houve 1.400 mortos e mais de cinco mil feridos, boa parte deles civis. A falta de combustível obriga os moradores de Gaza a dependerem de um de má qualidade, que chega por contrabando pelos túneis que ligam Gaza com o Egito.
Mas a energia produzida pelos geradores domésticos é muito pouca e não serve para aquecer as casas, só pode ser usado por curtos períodos para cozinhar e recarregar os telefones celulares. A crise energética de Gaza atingiu seu pico em janeiro, após a decisão da União Europeia (UE) de deixar de pagar o envio de combustível a esse território palestino. O contrato venceu no final de novembro. A UE pediu à ANP, com sede em Ramala, que redigisse um novo rascunho e um plano de pagamento.
Isto se seguiu a uma decisão da UE de que o Mecanismo Palestino-Europeu de Gestão e Ajuda Socioeconômica (Pegase) ajudasse a ANP a implementar um Plano de Reforma e Desenvolvimento da Palestina (PRDP), de três anos, que deveria ser aprovado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional. No contexto do PRDP, a ANP deve financiar o déficit atual e implementar um programa de investimento.
Em janeiro, as autoridades de Ramala assumiram o assunto para salvar a brecha deixada pela UE, mas reduziram os fundos de combustíveis para Gaza com o argumento de que devia restringir o orçamento e que tinha outras prioridades, como pagar os funcionários da Cisjordânia, controlada pela ANP. A Autoridade de Energia de Gaza respondeu pedindo à comunidade internacional, aos países árabes e aos membros da Organização da Conferência Islâmica que responsabilizassem a ANP pela crise humanitária. Também acusou o ministro das Finanças da ANP de. em janeiro. agregar impostos ao pagamento do combustível, o que reduziu a sua contribuição de US$ 9 milhões para US$ 3,5 milhões.
Essa redução foi mais de 50% do custo do diesel, segundo a Autoridade de Energia. Mas a ANP negou as acusações. O desastre iminente foi evitado, mas de forma temporária. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação da Assistência Humanitária (Ocha) informou, em janeiro, que as importações de combustível de dezembro já haviam diminuído 10% em relação ao mês anterior e representavam apenas 63% do consumo, segundo a Autoridade da Cental Elétrica de Gaza.
“Segundo a Companhia de Distribuição Elétrica de Gaza, 95% dos moradores sofrem interrupções no fornecimento, com cortes programados entre seis e oito horas por dia, entre três e quatro dias por semana”, informou a Ocha. Por sua vez, a Empresa de Água para as Municipalidades Costeiras não recebeu um único carregamento com equipamentos de urgência como geradores e bombas para drenar esgoto e reconstruir e reparar os poços de água. Os cortes de energia interrompem a circulação de água e aumentam o risco de contaminação.
“A crise energética de Gaza avança aos trancos dia a dia. O perigo de não haver combustível por vários dias está presente, bem como o risco para a vida das pessoas”, disse à IPS Karl Schembri, do escritório da organização humanitária Oxfam nesse território palestino. “O último episódio só piorou uma situação que já era grave”, ressaltou. IPS/Envolverde

