IRÃ: Cautela ocidental diante da virada de Teerã

Washington, 05/02/2010 – Os governos ocidentais reagiram com cautela diante da declaração do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, de que seu país estaria disposto a entregar urânio à França e à Rússia em troca de combustível nuclear para o funcionamento de seus reatores. Ahmadinejad disse, na televisão estatal iraniana, na terça-feira, que não haveria problemas para o envio. “Nossos colegas haviam proposto que a troca de combustível enriquecido a 3,5% por combustível a 20% aconteceria em três etapas, mas a opinião da parte estrangeira era que isso não é possível tecnicamente, e tinha razão”, afirmou.

As potências ocidentais fizeram uma proposta a Teerã no último outono, pela qual o Irã entregaria ao Ocidente 75% de seu urânio enriquecido a 3,5% e em troca receberia combustível nuclear com urânio elevado a 20%, um nível útil para alimentar um reator com fins médicos e experimentais, mas insuficiente para armar uma ogiva nuclear. Embora, na época, o Irã não respondesse positivamente à proposta, chegando a propor fazer isso por etapas, as declarações de Ahmadinejad desta semana foram consideradas uma aceitação da proposta ocidental.

O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Philip Crowley, exigiu ações concretas do Irã para cumprir as declarações de Ahmadinejad. “Não fica claro a que o presidente se referiu. De nossa perspectiva, pretendemos ações e não apenas palavras”, disse Crowley. “Esperamos que nos informem sobre a posição iraniana por meio da Agência Internacional de Energia (AIEA). Esperamos que a AIEA esclareça se Teerã mudou sua postura”, acrescentou.

O governo iraniano não se estendeu sobre os detalhes da proposta de Ahmadinejad, e ainda não está claro se é uma proposta oficial que o Irã apresentará à AIEA, órgão da Organização das Nações Unidas que supervisiona a atividade nuclear internacional. “Ninguém sabe se é sério. Creio que Ahmadinejad tenta é adiar outra rodada de sanções do Conselho de Segurança da ONU, e outras sanções unilaterais por parte dos Estados Unidos e dos europeus”, disse Barbara Slavin, especialista em Irã da organização de relações exteriores Council on Foreign Relations, durante uma conferência no centro de pesquisa New America Foundation, em Washington.

Os sócios europeus de Washington também reagiram com ceticismo. O chanceler francês, Bernard Kouchner, sugeriu que o Irã está “ganhando tempo”, e seu colega alemão, Guido Westerwelle, exigiu que Teerã cumpra suas palavras com ações. “Se isso não ocorrer, sendo apenas táticas, a comunidade internacional tomará novas medidas. As sanções não estão descartadas”, disse Westerwelle. Embora alguns tenham manifestado dúvidas de que Teerã tomará decisões efetivas sobre seu programa nuclear nas negociações com o Ocidente, as declarações de Ahmadinejad parecem obedecer em parte à necessidade de desafiar rivais em seu próprio país.

“Alguns no país” se queixaram de que o Ocidente “tomará combustível do Irã e não nos dará combustível nuclear em troca. Se eles não cumprirem seus compromissos, então ficará claro que suas palavras não eram verdadeiras e teremos as mãos livres para fazer o trabalho por nossa conta”, disse Ahmadinejad na televisão. O programa atômico iraniano é fonte de controvérsia para o Ocidente e países do Oriente Médio, especialmente Israel. Estes duvidam que as atividades nucleares iranianas tenham fins pacíficos e acusam Teerã de querer obter a bomba atômica.

O governo iraniano rechaçou sistematicamente as acusações e assegura que suas atividades têm apenas fins pacíficos, como a produção de eletricidade. A situação aumentou a tensão na região, já que os vizinhos árabes do Irã temem sua influência. Também teria desatado uma corrida armamentista, já que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos adquiriram armas no valor de US$ 25 bilhões nos últimos dois anos, se convertendo nos dois dos principais compradores de armas do mundo.

Enquanto a incerteza domina as negociações entre Irã e ocidente, os Estados Unidos pressionam a China para que aceite sanções contra Teerã. Ambos integram a lista de cinco países com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU, órgão com autoridade para decidir sanções multilaterais. Os outros são França, Grã-Bretanha e Rússia. Tudo isso acontece após a recente tensão entre Washington e Pequim pela venda de armas no valor de US$ 6,4 bilhões a Taiwan, que a China considera parte de seu território, anunciada na semana passada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Se o Irã não cumprir as condições do Ocidente, as sanções parecem ser a consequência mais provável. Embora no passado Washington e Israel ameaçassem com o uso da força militar contra instalações nucleares iranianas, muitos analistas consideram essa opção inviável. Henry Barkey e Udi Dadush, pesquisadores do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, com sede em Washington, afirmam que os Estados Unidos não atacarão o Irã porque qualquer ofensiva militar dispararia o preço do petróleo possivelmente até US$ 150 o barril, provocando outra recessão da economia internacional.

Também desataria conflitos no Oriente Médio, já que o Irã reagiria fomentando o ataque de seus aliados libaneses e palestinos, Hezbola (Partido de Deus) e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), contra Israel, acrescentam os dois especialistas. A gravidade das consequências de um ataque contra o Irã implica que Israel não pode se arriscar a desencadear uma represália dessa magnitude, ressaltam. IPS/Envolverde

Mohammed A. Salih

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