POLITICA-TAILÂNDIA: Uma forma de dar golpes de Estado

Bangcoc, 05/02/2010 – O costume tailandês de começar a especular sobre a possibilidade de esta monarquia do sudeste asiático sofrer outro golpe de Estado está em sua máxima expressão. Artigos e análises jornalísticas alimentam o jogo de adivinhação sobre o poderoso Exército nacional estar, ou não, preparando o golpe de Estado número 19, desde que esse país se converteu em uma monarquia constitucional, em 1932. A conjuntura atual acontece três anos e meio depois do golpe anterior, de 19 de setembro de 2006, quando foi deposto o primeiro-ministro eleito Thaksin Shinawatra.

Naquela oportunidade ocorreu o mesmo que agora. A imprensa começou a especular, no começo do ano, sobre a possibilidade de acontecer um golpe, os comandantes negaram, até que os tanques retumbaram pelas ruas de Bangcoc. “Debate golpista se nega a morrer”, dizia, na segunda-feira, em letras garrafais a manchete do jornal tailandês em língua inglesa The Nation. O artigo fazia alusão ao inevitável. “Muitos observadores ainda veem no horizonte o golpe militar. A questão é quando será, mais do que se de fato acontecerá”, disse o editor-chefe, Thanong Khanthong.

Por sua vez, o Exército contribuiu para avivar as chamas com uma série de extraordinários episódios. Cerca de 20 caminhões com soldados armados circularam na noite de 25 de janeiro pelas ruas de Bangcoc, semelhante ao que aconteceu naquele 19 de setembro. Sua missão desta vez era mais de caráter mundano: trabalho de reparação e manutenção. Mas as desculpas dos comandantes por espalharem o pânico em um clima político delicado não conseguiram deter a onda de boatos. Pouco depois, o Exército consegui semear mais dúvidas com uma demonstração de forma mais típica de um partido político do que de uma força de combate profissional.

Centenas de soldados uniformizados deixaram seus quartéis, dentro e fora de Bangcoc, para dar uma demonstração pública de lealdade ao poderoso chefe do Exército, Anupong Paojinda. Essa demonstração de força “sem precedentes”, segundo jornais da capital, foi uma advertência para os soldados em atividade e os generais da reserva que apoiaram o movimento de protesto contra o governo atual, leal a Thaksin. O ex-primeiro-ministro mora no estrangeiro para evitar cumprir a sentença de dois anos de prisão por corrupção, emitida por um tribunal tailandês em 2008.

São poucos os analisas que se perguntam por que o governo liderado pelo primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva, que assumiu há um ano, teria motivos para temer o Exército. Afinal, a coalizão foi criada em dezembro de 2008 mediante acordo de bastidores com altos funcionários militares, mais do que por mando popular. “Não há nenhum conflito entre o governo e o Exército, por isso é pouco provável um golpe de Estado”, disse à IPS Panitan Wattanayagorn, porta-voz de Bangcoc. “Não há caos nem instabilidade, que são as condições normais para uma intervenção militar”, explicou. Essa análise deriva dos acontecimentos que precederam o golpe anterior.

O governo de Thaksin, que venceu as eleições de 2001 e 2005 por ampla maioria, foi assediado por meses por manifestantes em Bangcoc que reclamavam sua saída. A oposição a Thaksin, formada pelas classes acomodadas de Bangcoc, a elite conservadora e partidários da monarquia, criaram um clima de tensão política que, segundo alguns analistas, levou o Exército a agir como “curto-circuito” e evitar um possível banho de sangue.

Mas na rica história de golpes de Estado desta monarquia, alguns seguiram uma excepcional lógica com um típico “estilo tailandês”: autogolpes militares para redesenhar o cenário político. Em 17 de novembro de 1971, o ditador Thanom Kittikarchorn (1911-2004), derrubou seu próprio governo. Outra ação semelhante ocorreu em outubro de 1958 e novembro de 1951. Mas, esse ano, uma quebra institucional poderia agregar novo elemento à especialização que o Exército tem na realização de golpes de Estado.

Líderes da Frente Democrática Unida contra a Ditadura, movimento favorável a Thaksin, conhecido como “camisas vermelhas”’ por usarem essa peça de roupa, disseram que eles e seus partidários, importante força de oposição, poderiam ser alvo do Exército se este decidir intervir. “A intenção do próximo golpe não é derrubar o governo atual, mas eliminar a oposição que critica o sistema de elite burocrática e a aristocracia”, disse à IPS Jaran Ditapichai, ex-comissário de direitos humanos e líder dos camisas vermelhas. “Protestamos para desacreditar o sistema elitista”, disse.

Um possível ponto de inflexão reside na sentença que o Supremo Tribunal emitirá, no dia 26, sobre o destino de US$ 2,2 bilhões em ativos de Thaksin, que foram congelados pela junta militar que assumiu após sua expulsão em 2006. Partidários seus alertaram para um conflito com o governo antes do veredito. Os juízes que devem dar seu parecer também foram ameaçados, o que obrigou o governo de Abhisit a reforçar a segurança dos magistrados. A sentença ajudará a esclarecer o quanto eram sérios os boatos de golpe de Estado, disse Chaturon Chaisang, ex-ministro de Thaksin, à IPS. “O Exército não precisa fazê-lo agora. Mas não podemos dizer o que acontecerá depois do dia 26 deste mês”, afirmou.

Se houver o golpe número 19 será confirmada a crença tradicional do Exército de que enquanto “guardiões da nação” devem “intervir” e “salvar o país” do caos político, disse Michael Nelson, especialista alemão em política tailandesa. “Eles creem ter uma posição de privilégio como protetores do país. Esse é o ponto de partida de onde vem a política deste país”, explicou. “Segundo seu esquema, não importa a soberania popular. Trata-se de controlar a população, é uma forma de paternalismo”, acrescentou. IPS/Envolverde

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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