AGRICULTURA-TANZÂNIA: É um jogo de azar

Dar-es-Salaam, Tanzânia, 12/03/2010 – As chuvas e as secas ficaram tão imprevisíveis na Tanzânia que os agricultores se sentem cada vez mais como apostadores em um cassino.

 - Julius Mwelu/IRIN.

- Julius Mwelu/IRIN.

As prolongadas secas e as inundações complicam muito a vida dos pequenos agricultores que carecem de sistemas de irrigação. Segundo o Ministério da Agricultura, este setor representa 60% do produto interno bruto do país, onde mais de 80% dos cerca de 41 milhões de habitantes são camponeses, e compreende mais de 60% das exportações nacionais.

A Tanzânia tem duas décadas para adaptar sua agricultura à mudança climática ou corre o risco de sofrer importante redução de seu PIB, segundo um informe elaborado em 2009 pelo independente International Institute for Environment and Development (Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento). O PIB pode cair cerca de 1% nos próximos 20 anos e entre 5% e 65% nos 75 anos seguintes, disse Muyeye Chambwera, um dos autores do estudo. Para evitar graves consequências econômicas, é necessário mudar as práticas agrícolas, segundo numerosos especialistas da área.

“A única forma é ensinar melhores práticas agrícolas aos camponeses, já que muitos usam métodos arcaicos, enquanto outros cultivam em áreas onde as chuvas não são adequadas”, explicou Marc Baker, diretor-executivo da organização não governamental Carbon Tanzania, que ajuda agricultores da aldeia de Arkaria, 35 quilômetros a oeste da cidade de Arusha. O governo tanzaniano se deu conta da necessidade de agir com rapidez e criou o Programa Nacional de Ação para a Adaptação (Napa), para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa e ajudar os camponeses a adotar novas tecnologias e práticas agrícolas.

A iniciativa inclui ensinar práticas alternativas, como rotação de cultivos, suprimir o pastoreio e usar sementes que exijam pouca água, como milho e sorgo. Também promove o uso de um tipo de milho resistente às secas. “O objetivo do Napa é melhorar as possibilidades de adaptação das comunidades vulneráveis, já que a economia da Tanzânia depende em grande parte da agricultura”, confirmou Abubakar Rajabu, secretário permanente da vice-presidência.

A temperatura média do país pode aumentar entre dois e quatro graus até 2100, segundo o Ministério da Agricultura. Parece distante, mas é um sinal de que chegará um momento em que haverá necessidade de substituir os cultivos perenes, com milho comum e feijão, por variedades anuais, como milho miúdo e sorgo. A previsão é que a produção de milho, alimento básico na Tanzânia, diminua um terço nas próximas décadas por exigir muita água, segundo o Ministério. Nas áreas mais secas do centro do país, a colheita pode ter queda superior a 84%.

A safra do ano passado é um bom indicador de que as previsões estão sendo cumpridas, talvez, inclusive, antes do esperado. Agricultores da província de Iringa informaram ao Ministério que colheram entre três e cinco sacas de milho em cada 0,4 hectare no ano passado, bem abaixo das 15/18 sacas colhidas há alguns anos. Os camponeses também observam as mudanças nos padrões de chuvas. “O milho já não rende”, disse Mama Mrema, camponesa de Arusha. “Agora vivo de outros cultivos como mandioca e batata-doce, que não precisam de tanta água”, acrescentou.

Os moradores da aldeia de Mwitikilwa, também em Iringa, disseram que nos últimos 30 anos houve mudanças drásticas no clima. O fenômeno impede que os camponeses de Mwitikilwa cultivem feijão, café, ervilha e batata-doce, confirmou Emma Lwenga, do Instituto de Avaliação de Recursos, da Universidade da cidade de Dar-es-Salaam, que fez estudos nessa aldeia no ano passado. Sua pesquisa também constatou maior quantidade de pragas devido à elevação da temperatura.

“A década passada foi muito ruim em matéria de produção de alimentos, especialmente em nossa aldeia porque não usamos fertilizantes químicos. Cada vez colhemos menos, porque a temporada de seca se estende e fica mais severa, e a das chuvas é irregular”, contou Maimuna Hamadi. As poucas chuvas que costumam cair entre abril e julho são cada vez mais esporádicas, enquanto as temperaturas entre abril e agosto são inusitadamente altas, disse a camponesa.

“Já não sabemos quando preparar a terra nem quando começar a plantar. É como apostar com a natureza. O clima já não é previsível como era há 10 ou 15 anos”, lamentou Mwanaisha Mwampamba, camponesa de Mwitikilwa. “Às vezes as chuvas não são suficientes e em outras ocasiões são excessivas. Inundam e destroem plantações”, disse. “Se a situação permanecer, a maioria dos que têm pequenas áreas de cultivo será cada vez mais pobre, porque dependemos da agricultura para subsistir”, acrescentou. IPS/Envolverde

Denis Gathanju

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