Washington, 12/03/2010 – Durante semanas, o público norte-americano acompanhou de perto o que parece ser a maior ofensiva de suas tropas na guerra do Afeganistão, contra Marja, “uma cidade de 80 mil habitantes” e centro logístico do movimento islâmico Talibã, na província de Helmand. A ideia de que Marja tinha toda essa população era chave para fundamentar a impressão causada em fevereiro de que a localidade era um objetivo estratégico importante, muito mais do que outros distritos de Helmand.
No entanto, a imagem que os militares passaram de Marja, e que era reproduzida obedientemente pelos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos, é um dos exemplos mais dramáticos da desinformação de toda a guerra, que começou em outubro de 2001, aparentemente dirigida a apresentar a ofensiva como um ponto de inflexão histórico no conflito. Marja não é uma cidade, nem mesmo um povoado, mas um grupo de casas de produtores rurais ou uma extensa área agrícola que inclui grande parte do vale do Rio Helmand.
A localidade “não é urbana em absoluto”, reconheceu no domingo à IPS um funcionário da Força Nacional de Assistência em Segurança (Isaf), que pediu para não ser identificado. “Marja é uma comunidade rural. É um grupo de fazendas de aldeia, com típicas casas familiares”, afirmou o funcionário, acrescentando que as residências são relativamente prósperas no contexto afegão.
Richard B. Scott, que até 2005 trabalhou em Marja como assessor para Irrigação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), concorda que não há nada na localidade que a faça passar por um local urbano. É um “distrito rural” com uma “série de mercados agrícolas dispersos”, disse à IPS por telefone. O funcionário da Isaf afirmou que a população que se pode contar em poucas dezenas de milhares está dispersa em muitas aldeias e por quase 200 quilômetros quadrados.
Marja nem mesmo se integra em uma comunidade, segundo o funcionário, mas agora há planos para formalizar sua situação como distrito da província de Helmand. O funcionário reconheceu que a confusão sobre a população de Marja facilitou o fato de o nome ter sido usado tanto para a extensa área agrícola como para a localidade específica onde se reúnem os produtores rurais em seus mercados. Porém, a denominação Marja foi “associada mais estreitamente” com uma localidade específica, onde também há uma mesquita e algumas lojas.
Essa área tão limitada foi o objetivo aparente da Operação Moshtarak, para a qual foram enviados 7.500 soldados dos Estados Unidos, do Afeganistão e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e que se converteria na batalha mais divulgada desde o início da guerra em território afegão. Então, como começou a ficção de que Marja é uma cidade de 80 mil habitantes? A ideia foi divulgada à imprensa pelos fuzileiros navais no sul de Helmand. A imprensa começou a se referir à localidade como cidade com população grande depois de uma informação dada no dia 2 de fevereiro por fontes militares de Camp Leatherneck, a base norte-americana no local.
Um artigo da agência de notícias Associated Press (AP) desse dia citava “comandantes” dos “fuzileiros” que esperavam encontrar entre 400 e mil insurgentes “ocultos” na “cidade afegã de 80 mil habitantes”. O texto passava a impressão de que haveria combates de rua em um contexto urbano. O mesmo artigo caracterizava Marja “como a maior cidade sob controle do Talibã” e a qualificava como “eixo da rede logística e de contrabando de ópio dos insurgentes”. E acrescentava que 125 mil pessoas viviam “na cidade e em povoados vizinhos”.
No dia seguinte, a ABC News, uma divisão da rede de televisão ABC, se referiu à “cidade de Marja” e assegurou que esta e seus arredores eram “mais povoadas, urbanas e densas demograficamente do que outros lugares que os fuzileiros foram capazes de libertar e controlar”. O restante da mídia adotou a imagem de uma Marja urbanizada e barulhenta, em notícias posteriores, alternando os termos “população” e “cidade”. A revista Time escreveu sobre a “população de 80 mil pessoas” no dia 9 de fevereiro, e o jornal The Washington Post fez o mesmo no dia 11 desse mês.
Quando começou a Operação Moshtarak, porta-vozes militares dos Estados Unidos se referiam a Marja como um centro urbano. No dia 14 de fevereiro, segundo dia da ofensiva, o tenente Josh Diddams disse que os fuzileiros “ocupavam a maior parte da cidade neste ponto”. Seu discurso também evocava imagens de combates urbanos, com os insurgentes controlando algumas “vizinhanças”. Alguns dias depois do início da ofensiva, alguns repórteres começaram a falar da “região”, mas isto apenas criou confusão em lugar de esclarecer o assunto.
Em um mesmo artigo, em 15 de fevereiro, a rede de notícias CNN chegou a se referir a Marja em duas ocasiões como “região” e uma vez como “cidade”, sem explicação alguma pela aparente contradição. A agência AP reforçou a confusão em uma notícia do dia 21 passado sobre “três mercados da população que inclui 207 quilômetros quadrados”. Uma população ocupando uma área de 207 quilômetros quadrados seria maior do que as cidades de Washington, Pittsburgh e Cleveland nos Estados Unidos. Mas a AP não percebeu o grave erro dessa referência.
Muito depois de outros meios deixarem de se referir a Marja como cidade, o jornal The New York Times ainda a qualificava de “cidade de 80 mil” habitantes, em um artigo de 26 de fevereiro. A decisão de exagerar a importância de Marja como objetivo da Operação Moshtarak não teria sido uma ação independente dos fuzileiros de Camp Leathernek. Uma tarefa central das “operações informativas” neste tipo de guerra é “impor a narrativa Coin (acrônimo de contrainsurgência)”, segundo o Manual de Campo para a Contrainsurgência do Exército, revisado pelo general David Petraeus em 2006.
Essa tarefa costuma caber “aos quarteis-generais superiores”, diz o manual. A mídia “influi diretamente na atitude de públicos importantes para os rebeldes, suas operações e a insurgência”, segundo o manual. É uma “guerra de percepções, dirigida de forma constante através da mídia”, acrescenta. “Tudo isto é uma guerra de percepções”, afirmou o general Stanley A. McChrystal, comandante da Isaf, pouco antes de começar a ofensiva em Marja, em clara alusão ao manual de contrainsurgência.
O jornal The Washington Post informou em 22 de fevereiro que a decisão de lançar a ofensiva contra Marja tinha a intenção de impressionar a opinião pública com a eficácia das forças de seu país no Afeganistão, demonstrando que podiam conseguir “uma grande e chamativa vitória”. A ideia de que Marja era uma cidade importante era parte essencial dessa mensagem. IPS/Envolverde
* Garreth Porter é historiador e jornalista especializado na política de segurança nacional dos Estados Unidos. Seu último livro, Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam, foi editado em 2006

