Nações Unidas, 12/03/2010 – “O Islã é mal interpretado. Nenhuma lei islâmica diz ‘reprimam as mulheres e violem seus direitos’”, afirmou a iraniana Shirin Ebadi.
Por mais de 35 anos, Ebadi, Nobel da Paz em 2003 e cofundadora da Iniciativa das Mulheres Prêmio Nobel, trabalha como advogada e ativista dentro do Irã e no mundo, em defesa dos direitos de mulheres, crianças, refugiados, minorias religiosas e prisioneiros políticos em seu país.
Desde as disputadas eleições presidenciais iranianas do ano passado, foi obrigada a ficar no exterior. “Mas, apesar do uso da força e da violência para dispersar multidões, e das terríveis imagens de abusos que todos vimos em Teerã, as mulheres estiveram presentes em grande número nas ruas, porque querem ser ouvidas”, afirmou.
A IPS conversou com Ebadi por ocasião da 54ª Sessão da Comissão sobre o Status da Mulher, que termina hoje na sede da Organização das Nações Unidas.
IPS: Nos últimos anos, as ativistas pelos direitos das mulheres trabalharam duramente para conseguir a igualdade perante a lei iraniana. A enorme presença feminina nas ruas é parte desta batalha?
SHIRIN EBADI: Cerca de 63% dos estudantes universitários no Irã são mulheres, e uma enorme quantidade de professores universitários também. Muitas mulheres são médicas, advogadas, presidentes de empresas e engenheiras no Irã. As mulheres têm direito ao voto há cerca de 50 anos. Integraram o parlamento. Entretanto, depois da Revolução (Islâmica de 1979) foram aprovadas leis muito ruins, discriminatórias contra as mulheres. Darei alguns exemplos. A vida de uma mulher vale metade da de um homem. Isto significa que se uma mulher e um homem saírem à rua e forem feridos por qualquer motivo, os danos que serão pagos a ela serão metade do que se pagará ao homem. O testemunho de duas mulheres em tribunais equivale ao de um único homem. Um homem pode casar com quatro mulheres e se divorciar quatro vezes, mas para uma mulher é muito difícil se divorciar. Estas leis geraram insatisfação entre as mulheres e com o governo, e por isso protestam cada vez que há oportunidade. E uma dessas ocasiões que surgiram para que o povo se opusesse foi o resultado eleitoral. Nos vídeos e nas imagens dos protestos são vistas muitas meninas e mulheres nas ruas. O vídeo do assassinato de Neda (Agha Soltan de 27 anos, vítima da violência posterior às eleições presidenciais de 12 de junho) se converteu em um símbolo destes movimentos. Neda significa “voz” em persa, e isto é como a voz deste movimento que sai da garganta desta mulher.
IPS: É possível reconciliar o progresso social e político das mulheres com a doutrina islâmica?
SE: Sim, as muçulmanas podem ser líderes, e não digo isso sozinha. Vários clérigos de alto nível no Irã reiteram isto, como por exemplo o aiatolá Sane. E não esqueçamos os exemplos dados por outros países islâmicos, como Indonésia, onde há 25 anos houve uma presidente, ou Bangladesh, ou Paquistão com Benazir Bhutto (duas vezes primeira-ministra, 1988-1990 e 1993-1996). Essa não é a situação no Irã, onde, segundo a lei, o presidente e também o líder supremo têm de ser homens.
IPS: Em comparação com seus vizinhos, o movimento feminista do Irã parece muito vibrante.
SE: O movimento feminista é mais forte no Irã do que nos países vizinhos, e o motivo é a atividade social histórica das mulheres no Irã, e o trabalho da sociedade civil. O movimento feminista está nas casas de todos os iranianos que acreditam na igualdade. A grande quantidade de mulheres que vão às universidades mostra que elas estão melhor educadas do que os homens. Você acredita que nesta sociedade as mulheres podem aceitar o fato de sua vida ser considerada metade da de um homem?
IPS: Algumas mulheres que vieram a Nova York para participar da Comissão sobre o Status da Mulher para depor sobre a violência e os abusos que ocorrem em seus países – como as que vieram da Birmânia – colocam suas vidas em perigo para isso. A senhora está fazendo o mesmo. Qual a maior motivação?
SE: Tudo tem um custo. E a liberdade e a democracia têm seu próprio preço. Se uma mulher pensar apenas em sua própria segurança ou na de sua família, então não teremos sociedades democráticas.
IPS: A senhora clama incansavelmente por uma ação internacional para frear a ofensiva do governo contra a oposição em seu país, inclusive no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Quais suas expectativas?
SE: Que os direitos humanos não sejam ofuscados pela questão nuclear no Irã. IPS/Envolverde


