ENERGIA-ÁFRICA: Rússia corre atrás da China

Moscou, 02/03/2010 – Os esforços da Rússia para adquirir jazidas de petróleo e gás e explorar em busca de minerais na África tiveram pouco êxito na última década devido à falta de uma estratégia nacional coerente, segundo especialistas. O avanço da China também preocupa. Moscou se pergunta como Pequim realizou sua política de exploração de recursos na África, bem como projetos de infraestrutura e três cúpulas internacionais no continente desde o início deste século.

Andrei Petrov, presidente da organização não governamental New Africa Initiative, disse à IPS que a Rússia está muito atrasada em relação a China, Índia e alguns países da Europa ocidental na promoção de seus interesses na África. Parece faltar uma coordenação entre os ministérios, agências e empresas privadas russas no tocante à África, acrescentou.

“Enquanto se passou por alto quanto às vantagens competitivas sobre outros países, outros atores, especialmente China e Índia, se asseguraram fortes posições de domínio na região, buscando cumprir sistematicamente sua política econômica de longo prazo no continente. Essas políticas se voltaram principalmente aos setores estratégicos das economias africanas, particularmente transporte, energia, recursos naturais e telecomunicações”’, disse Petrov.

Em 2006, o então presidente e atual primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, liderou uma poderosa delegação econômica para selecionar países africanos ricos em recursos, mas o trabalho foi reiniciado apenas em junho pelo presidente atual, Dmitry Medvedev. Medvedev admitiu que demorou em ingressar na África em busca de acordos para a exploração de recursos naturais.

Tom Wheeler, pesquisador adjunto do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, com sede em Johannesburgo, acredita que a participação russa na exploração de recursos vai equilibrar o controle do petróleo e do gás africanos, atualmente exercido por empresas ocidentais, chinesas e indianas. “A Rússia, uma das principais fontes mundiais de petróleo e gás, busca fortalecer seus vínculos com dois dos maiores produtores de petróleo da África: Nigéria e Angola”, disse Wheeler à IPS.

Precisamente Angola ocupou, no ano passado, a presidência rotativa da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), agora exercida pelo Equador. “Se esta delegação conseguir criar um forte vínculo com a paraestatal da Nigéria, isso dará à Rússia outro peso em sua aspiração de controlar o acesso ao gás de calefação para a Europa ocidental e central”, acrescentou.

“Por acaso toda esta atenção que a África atrai, mais a rivalidade entre países de fora do continente, são de interesse dos africanos? Isso cada país tem que decidir. É importante que sejam implementadas estruturas de governabilidade e legislação que permitam que os governos africanos julguem se a cooperação e os contratos oferecidos são verdadeiramente para benefício de seus países e de suas populações”, afirmou o pesquisador.

Segundo Wheeler, os africanos devem controlar seus próprios destinos e seus líderes devem garantir que os pobres e os famintos também desfrutem das vantagens que podem surgir da exploração dos recursos naturais existentes em suas nações. Ao contrário da China, atualmente a Rússia tem pouca necessidade dos recursos africanos, mas está desejosa de vender tecnologia nuclear russa, e possivelmente armamento, a países africanos, explicou.

O objetivo de Moscou parece ser controlar o acesso de outros países aos recursos da África, formando carteis com produtores africanos de petróleo e gás. “Devido aos seus próprios problemas financeiros, a Rússia não pode contribuir muito nesse sentido com o desenvolvimento da África. Isto contrasta com o insaciável apetite da China pelos recursos africanos e sua incondicional provisão de infraestrutura de vários tipos”, disse Wheeler.

Mas, o papel da China na África também é controvertido. Por exemplo, realiza fortes investimentos na exploração de petróleo no Sudão, ignorando questões vinculadas aos direitos humanos nesse país. Por seu lado, os africanos tendem a ver Rússia e Índia como uma “terceira força” para contrapor-se aos investimentos do Ocidente e da China, disse em uma entrevista à IPS Ivetta Gerasimchuk, diretora do Programa de Comércio e Investimentos no capitulo russo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

“A China está sedenta por praticamente todas as matérias-primas, oferecendo um mercado garantido e compromissos financeiros para importar petróleo e gás africanos, portanto, sua expansão na África cobre quase toda a indústria extrativa”, disse Gerasimchuk, também autora do livro “Repensar a política de investimentos da Rússia na África austral”. Em “contraste, a própria Rússia é uma importante produtora e exportadora de petróleo e gás”, acrescentou.

“Uma explicação dos esforços investidores da Rússia na África pode ser o fato de nosso país reduzir consideravelmente seus depósitos de metais não-ferrosos e ferrosos, diamantes e urânio. Assim, o interesse da Rússia nos recursos africanos está centrado principalmente nestes setores”, destacou a especialista. A Rússia está muito interessada na crescente demanda africana por bens manufaturados, embora a mira esteja voltada principalmente para a venda de armas. “É importante que a crise financeira tenha também mudado as regras do jogo, já que a China é um dos poucos países que continua seu crescimento econômico e tem suficientes recursos financeiros para apoiar sua expansão”, disse Gerasimchuk.

Basicamente, a China tem melhor acesso aos recursos financeiros, o que é apoiado pelo Estado e também influenciado por uma efetiva política para a África, determinada pelo processo do Fórum de Cooperação China-África, disse à IPS Sanusha Naidu, diretora de pesquisas do Programa China/Potências Emergentes na África, da Cidade do Cabo. Talvez, mediante o bloco BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), Moscou possa forjar melhores laços com projetos de risco compartilhado e outras relações de investimento para ingressar no setor mineral da África, sugeriu Naidu.

Segundo o Centro para os Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington, este ano a África fornecerá até 45% do petróleo da China. Por sua vez, Pequim está determinada a superar os russos e outros atores estrangeiros na África para ascender no cenário mundial. IPS/Envolverde

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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