BERLIM, 30/03/2010 – (Tierramérica).- Um programa que envolve especialistas e autoridades de oito países europeus pretende repovoar o rio com esta espécie em risco de extinção.

Filhote de esturjão beluga, espécie em risco de extinção - Gentileza Instituto para a Ciência de Conservação dos Oceanos
Hoje, pouquíssimos desses peixes habitam o Danúbio, e menos salmões ainda habitam o Reno. Porém, essa situação está a ponto de mudar graças a um projeto entre organizações e autoridades ambientais de oito dos dez países europeus cortados pelo Danúbio. O objetivo é repovoar o rio com as diferentes famílias de esturjões. Para isso, a Rede de Áreas Protegidas do Rio Danúbio, conhecida também como Danubeparks, está usando exemplares de esturjões encontrados no rio em um projeto de criação.
Ambientalistas da Danubeparks descobriram, em dezembro, na área protegida de Drau, na Hungria, um exemplar raríssimo de esturjão de barbas (Acipenser nudiventris), que foi levado para uma estação de criação, à espera de encontrar um segundo exemplar para tentar a procriação. “Seria imperdoável assistir de braços cruzados como desaparecem os últimos exemplares desta espécie que habitou os rios da Europa desde 200 mil anos atrás”, disse ao Terramérica o biólogo Ralf Reinartz, da Universidde de Münster, coautor de um estudo sobre a proteção de esturjões no Danúbio, utilizado pela Danubeparks. Este plano de reintrodução de esturjões exige que a canalização do rio seja refeita, para permitir que o peixe nade livremente.
George Frank, coordenador do projeto, explicou ao Terramérica que, no passado, a canalização e a construção de represas também incluiu a instalação das chamadas escadas para peixes, que deveriam permitir ao esturjão superar esses obstáculos artificiais. “Contudo, devido à dimensão que alguns animais alcançam, de até seis metros, estas escadarias foram insuficientes para permitir que o peixe nadasse rio acima”, acrescentou. Além disso, Frank explicou que algumas das represas do Danúbio foram feitas em cânions tão estreitos que impediram a construção dessas escadarias laterais. Um deles fica em Portas de Ferro, na fronteira entre a Servia e a Romênia, separando o sul dos Montes Cárpatos do norte dos Bálcãs.
A represa de Portas de Ferro é particularmente nociva para os esturjões, pois impede o acesso a uma área onde o Danúbio flui livremente, e que seria ideal como habitat para os peixes. Como alternativa a essa escadaria, o projeto de repovoação examina, para transportar os peixes, a utilização de cabines instaladas em represas que se enchem de água e se elevam automaticamente várias vezes ao dia. Uma cabine desse tipo, com 20 metros de largura, já é usada no Rio Pó, na Itália. Serve para superar uma represa perto da cidade de Piacenza.
Além dos obstáculos que cada canal e represa representam para os rituais de procriação e sobrevivência dos esturjões, os biólogos da Danubeparks enfrentam sua própria ignorância sobre o comportamento da espécie, segundo Frank. “Não sabemos muito sobre o comportamento e as necessidades dos esturjões em momentos cruciais de suas vidas, como quando desovam, por exemplo”, disse Frank. Para minimizar esta falta de conhecimentos, biólogos e ambientalistas de toda a bacia do Danúbio permanentemente trocam experiências sobre a vida desse peixe, acrescentou.
O lançamento do projeto de repovoação do Danúbio com esturjões coincide com o alarme dado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), no dia 18 deste mês, sobre o perigo de extinção da espécie. O estudo publicado pela entidade indica que 85% dos esturjões, “uma das famílias mais antigas de peixes existentes, está em risco de extinção”. É o grupo de animais mais ameaçados da lista vermelha de espécies em perigo, elaborada pela organização. A UICN chama a atenção para o fato de o esturjão beluga do Mar Cáspio, onde deságua o Danúbio, ter sido classificado pela primeira vez na história como espécie em perigo.
“O esturjão beluga foi dizimado pela exploração implacável do caviar negro – os ovos fertilizados do peixe – considerado como o mais refinado do mundo”, disse a UICN. Phaedra Doukakis, bióloga especialista em esturjões da UICN e do Instituto para a Ciência de Conservação dos Oceanos, disse que, devido ao risco de extinção, “é hora de considerar seriamente o fim da pesca na região do Mar Cáspio e nas outras áreas onde habitam espécies em perigo”.
* O autor é correspondente da IPS.

