SANTIAGO, 30/03/2010 – (Tierramérica).-Ambientalistas chilenos promovem uma reconstrução sustentável e inclusiva, com cidades melhor planejadas e energias renováveis não convencionais.

Banheiro seco criado pela empresa Emuh em colaboração com o Centro Ceibo - Gentileza do Centro Ceibo
“Acreditamos que existe uma oportunidade dentro desta desgraça para reconstruir de forma distinta, mais amigável com o meio ambiente, mais sustentável, com maior respeito e consideração por temas como a mudança climática”, disse ao Terramérica a ambientalista Flavia Liberona, diretora-executiva da não governamental Fundação Terram. O governo do direitista Sebastián Piñera, que assumiu no dia 11, ainda não apresenta uma avaliação global dos impactos ambientais do terremoto de 8,8 graus Richter, que atingiu a zonas centro e sul do país e provocou um tsunami que varreu localidades costeiras de regiões como El Maule e Bío-Bío.
A catástrofe, segundo as autoridades, deixou 342 mortos e 95 desaparecidos, além de 800 mil desabrigados. Apenas as casas destruídas ou com danos estruturais somam 260 mil. Os custos públicos e privados chegam a quase US$ 30 bilhões, entre danos à infraestrutura, perda de produto interno bruto, remoção de resíduos e alimentação de emergência. Porém, “não sabemos o que aconteceu com os emissários submarinos de esgoto domiciliar, com as piscinas de coleta das fábricas de celulose que guardam produtos químicos, com os locais de lavagem das mineradoras, com os próprios aterros sanitários, se estão, ou não, vazando para as camadas subterrâneas”, disse Liberona.
Especialistas querem que o recém-criado Ministério do Meio Ambiente exerça um papel de destaque na “reconstrução sustentável e inclusiva”, com cidades planejadas territorialmente e atividades de baixa emissão de dióxido de carbono, um dos gases causadores do aquecimento do planeta. Organizações não governamentais e centros de estudos, em coordenação com as autoridades ou por contra própria, começaram diferentes experiências de atenção à emergência com viés ecológico. A arquiteta e mestra em planejamento, Consuelo Bravo, trabalha em um amplo plano de manejo de escombros nos bairros da capital e da região de El Maule, 200 quilômetros ao sul de Santiago.
Este plano implica que a comunidade saiba quais dejetos reutilizar e como separar aqueles que deve jogar fora, e que os municípios considerem alternativas de recuperação e transformação dos resíduos em material útil. Bravo, diretora do curso de Mestrado em Arquitetura da Paisagem e Meio Ambiente da Universidade Católica, também lidera um projeto da prefeitura de Santiago, que busca construir um parque memorial com os escombros recuperados. Alguns dos dejetos podem ser usados “como estabilizadores de estradas, em novas infraestruturas e em locais de recreação”, disse ao Terramérica.
A emergência desnudou a baixa porcentagem de reciclagem no Chile. Na capital, não passa de 14% por ano do lixo sólido domiciliar, com projeções de aumentar para 25% até 2020. As construções mais afetadas pelo terremoto foram as construídas com adobe sem precauções antissísmicas. Agora, está em discussão quais edificações feitas com esse material podem ser salvas, considerando especialmente um de seus principais benefícios, que é menor demanda de energia, o que a converte em uma das soluções de menor pegada de carbono.
O Centro Cultural, Social e do Meio Ambiente Ceibo lidera a instalação do primeiro “ecobairro” do país na comunidade de Maipú, na capital, e bateu em várias portas para implementar nas áreas afetadas os “banheiros secos”, que constam de privada, tubo de respiração e tanque plástico com minhocas vermelhas californianas (Eisenia foetida), que transformam os resíduos em adubo para a terra, sem risco para a saúde humana. Depois de defecar ou urinar, a pessoa deve acrescentar serragem, papel higiênico ou outros materiais para acelerar o processo de transformação dos excrementos. “Esta alternativa foi proposta a diversas autoridades e estamos à espera de respostas”, disse ao Terramérica Luis Márquez, presidente do Centro Ceibo.
Diante da debilidade demonstrada pelo sistema elétrico após a tragédia, diversas vozes também pedem a incorporação mais forte das energias renováveis não convencionais, como a solar e a eólica, para avançar em descentralização e autonomia energética. Márquez propõe contar com paineis fotovoltaicos ou unidades eólicas em associações de moradores e locais de atendimento ao público. Neste espírito de autonomia energética, empresas de telefonia doaram às áreas afetadas 1.900 aparelhos celulares carregáveis com energia solar.
* A autora é correspondente da IPS.

